Capítulo 28: Fingir
Capítulo 28: Fingir
O rastro levou Anya para fora da rocha, até uma estrada.
Não era estrada de gente. Era um sulco aberto no chão do Abismo por sabe-se lá quantos pés e quantos anos, serpenteando entre paredões que subiam até sumir no breu. Lá adiante, onde o caminho ganhava altura, havia um clarão — a boca do décimo terceiro andar, pulsando naquele azul doentio que ela já tinha aprendido a reconhecer. Era para lá que iam.
E então ela viu, enfim.
Uns trinta passos à frente, os vultos tinham virado gente de novo sob a luz fraca. Seis. Talvez sete. Andavam sem pressa agora, do jeito de quem já ganhou. E no meio deles, arrastado, o motivo de tudo.
O primo do Dex, Bruto.
Não precisou de apresentação. Só uma coisa ali podia ser tão grande — ombros que enchiam o caminho, um tronco feito parede, pernas que, mesmo dobradas e feridas, ainda pareciam capazes de derrubar um cavalo. Tinham enrolado uma corrente grossa no pescoço e nos pulsos dele e puxavam como se puxa um boi que não quer andar. Porque ele não queria.
Anya se agachou atrás de uma pedra e olhou.
Ele estava acordado. Amordaçado — um trapo imundo enfiado na boca, amarrado atrás da nuca —, mas acordado, e longe de quebrado. A cada metro, o Bruto cravava os calcanhares no chão e obrigava os seis a brigar pelo terreno. Não gritava. Não implorava. Só pesava. Fazia de si mesmo a coisa mais difícil de mover no andar inteiro, e os desgraçados suavam por isso.
— Para… de fazer… isso, desgraçado.
Um deles perdeu a paciência e chutou a parte de trás do joelho dele. O Bruto caiu sobre um joelho só — e riu. Anya viu o riso mesmo por baixo da mordaça: nos olhos, no repuxo do rosto. Um riso que dizia isso é tudo?
Ele não tem medo , ela pensou. Ou é bom demais em esconder.
Seis, talvez sete. Ela, uma. O braço latejando, a Bug pesada na mão, o Erro dormindo lá no fundo dela sem promessa nenhuma de acordar quando ela precisasse — ou de acordar quando ela não precisasse, que era o mesmo perigo. Se entrasse ali agora, morria. Simples assim.
Mas o clarão do décimo terceiro estava perto. Mais alguns minutos de estrada e eles cruzariam — para um andar que ela não conhecia, mais fundo, mais mortal, onde o rastro se apagaria e o Bruto junto.
— Quando passarmos, vai nos levar direto para a doca — ouviu de um deles. — Depois disso, nós podemos seguir até o esconderijo.
Anya precisava decidir. Tinha somente até o portal estranho. Não mais que isso.
Se inclinou um dedo a mais, só para medir a distância — e foi o suficiente.
A cabeça do Bruto virou.
Não muito. Só o bastante para que, por cima do ombro de um dos captores, os olhos dele encontrassem os dela, ali no escuro entre as pedras. Ele parou de rir.
Por um instante, nenhum dos dois respirou. Ela, escondida. Ele, acorrentado. E, entre os dois, seis homens armados que ainda não faziam ideia de que a garota sumida no corredor estava a trinta passos, olhando.
O Bruto não a entregou. Só balançou a cabeça — devagar, um palmo para cada lado, sem soltar os olhos dos dela. E a mensagem chegou inteira, sem uma palavra:
Não. Não por mim.
Ela não era burra.
Nunca faria aquilo por ele. Não o conhecia, não devia nada a ele, e morrer por um estranho seria burrice pura. Mas o casaco que ele vestia — aquele vermelho surrado, encardido de estrada e de sangue — era dos Red Hunters. Era dela também, agora. E deixar levarem alguém com aquela cor nas costas era outra coisa. Era deixar levarem um pedaço do único lugar a que ela tinha acabado de pertencer.
Bastava um movimento. Um só.
— Tá demorando demais. — A voz de um deles cortou a estrada, lá na frente. — A gente tá quase lá. O chefe espera no barco.
Barco. Anya guardou a palavra num canto. Depois pensaria nela.
Ergueu-se devagar, ainda curvada, a mão fechando no punho da Bug e puxando o aço da cintura sem um tinido. Seis, sete, tanto fazia o número agora. Ela tinha a única coisa que valia ali: eles não sabiam que ela existia.
O Bruto a viu se mexer. Balançou a cabeça — uma vez, outra, mais rápido. Não. Não.
Mas a voz que falou dentro dela não foi a dele.
A espada enganosa serve pra limitar o pensamento do inimigo — o Krall, num pátio de treino que já parecia de outra vida. Lembra sempre: os olhos são a primeira fonte de informação de qualquer um. Controla o que ele vê e tu controla o que ele pensa.
Anya sabia fazer aquilo. Sabia bem. A vida inteira dela era uma espada enganosa — uma mentira que os olhos dos outros engoliam inteira, sem mastigar.
Ela deixou o corpo pender para um lado. Afundou um ombro, arrastou uma perna, vestiu a pele de uma coisa pequena e ferida. O Bruto franziu a testa, sem entender — tinha acabado de vê-la de pé, firme, e agora via uma sombra manca cambaleando pela beira da estrada.
E então o passo dela, que até ali não fizera som algum, virou um baque seco contra o chão. Alto. De propósito.
Os homens se viraram para o barulho.
O Bruto viu tudo — os captores girando, a garota trôpega saindo da penumbra, a espada meio escondida atrás da perna — e a ficha caiu.
Ela estava fingindo.
— Essa merdinha ainda tá viva? — O homem que segurava a corrente largou-a no chão e veio na direção dela. — Achei que tinham matado ela quando entrou no corredor.
— Sumiu do nada — disse outro, atrás. — Do nada mesmo.
Anya prendeu a respiração e forçou uma careta, os ombros tremendo no tamanho exato de uma dor que não sentia. Viu o homem puxar a espada. Viu o sorriso — largo, sádico, os dentes todos à mostra.
— Pois bem. Hora de morrer.
Ele se jogou para a frente sem quebrar o passo, os pés comendo a distância depressa demais. O braço subiu — e subiu longe demais, um arco largo, aberto, vaidoso.
Os olhos cansados de Anya se afiaram na mesma hora.
Agora.
A espada dele desceu. E ela, que um segundo antes era uma sombra dobrada e trôpega, desfez a curvatura de uma vez só — de pé, inteira, firme — e a Bug cortou para a frente antes que o arco vaidoso dele terminasse o caminho.
Não importava o nome que ela desse, a roupa que vestisse, o motivo que a movia. Naquele instante, só existia o corte.
— O quê?! — berrou um deles.
Foi a mesma cara que o Bruto tinha feito.
O corpo do homem caiu de joelhos e depois de lado, esguichando escuro na terra, a espada ainda parada no ar por um instante antes de tombar — a mão que a segurava já não servia para mais nada. À frente do grupo, uma mulher soltou o ar devagar, os olhos indo do companheiro morto para a garota de pé.
Anya endireitou a Bug. A lâmina apanhou o azul do portal, ali adiante, e jogou aquele brilho doente na cara dos que sobraram.
— Vocês tão no meu caminho. — A voz saiu mais calma do que ela esperava. Calma demais. — Então. Como vai ser?