Capítulo 29: Cobra
Capítulo 29: Cobra
— Peguem ela! Agora!
Anya os viu saltarem da parede na direção dela, atacando na diagonal, e jogou o peso todo atrás da Bug para aparar. O golpe veio forte — empurrou-a dois passos para trás, os pés raspando a terra. Mas, no meio do esforço, alguma coisa na cabeça dela não parava de perguntar:
Por que são tão lentos?
Não eram. Ela é que tinha desaprendido a medir velocidade por gente. Toda noite, no escuro do quarto do Jones, uma coisa que ela mal conseguia enxergar vinha para cima dela — rápida a ponto de fazer o ar assobiar — e a obrigava a sobreviver mais um instante, e mais outro. Depois de meses daquilo, acompanhar a lâmina de um homem chegava a ser entediante. Aqueles ali não eram lentos. Eram só humanos.
Bloqueou a segunda. Depois a terceira. Recuou dois passos de propósito, deixou um deles se empolgar e chegar perto demais — e chutou para cima, o pé acertando o primeiro bem no meio das pernas. O sujeito dobrou com um som fino. Deixou o braço do segundo esticar até o fim, roubou o tempo dele e cravou os dedos no pomo de adão do homem; ele largou a arma e levou as duas mãos à garganta, engasgando.
Anya não deixou a arma cair. Apanhou-a no ar com a mão livre e arremessou com tudo para a frente. Um dos homens jogou o corpo para o lado, e a lâmina passou raspando. Ele riu.
— Essa é a mulher mais feroz que a gente já enfrentou, não é não? — Cuspiu para o lado, ainda rindo. — Pena que a pontaria é uma bosta.
Anya ergueu a Bug outra vez. Respirou fundo.
— Vocês são ruins. — Foi o mais tosco que ela conseguiu ser de propósito. — Ruins de beirar o ridículo. Como é que capturaram ele só com isso?
— A gente era cinquenta! — o homem gritou, a raiva rachando a voz. — Ele não teve chance contra nós!
— Ah. — Ela afrouxou os dedos no cabo e tornou a firmá-los. — Então foi no número.
Um dos golpes mais divertidos contra homem confiante é bater onde mais dói — a Nisha, numa tarde de treino que agora doía lembrar. Eles são sempre arrogantes com a gente. Usa isso.
Anya baixou a Bug. E mais três vieram.
***
Da beira da estrada, acorrentado, o Bruto olhava.
Não sentia medo ou receio — fazia anos que não sentia isso mesmo acorrentado ali. Era diferente do que estava acostumado a ver nos soldados ou nos caçadores do Abismo. Algo que estava um pouco distante do costume.
A garota segurava os golpes com folga. Os olhos dela varriam tudo em volta, a defesa firme, os pés nunca longe demais do corpo, o tronco sempre virado para o lado certo antes de o ataque chegar. O Bruto já tinha visto muito lutador bom, mas a garota estava um pouco além disso.
Aí um deles cortou na direção do rosto dela.
E a esquiva não foi só impecável. Foi rápida demais.
Ela tá desviando antes de ver?
Anya desviou sem esforço, recuou o corpo e usou a Bug para defletir os golpes — um, dois, três —, deixando o oponente se animar e chegar perto demais. Então pisou em falso. O corpo dobrou de leve, um joelho cedendo.
O Bruto arqueou a sobrancelha. O oponente viu a mesma coisa. Os dois pensaram a mesma palavra no mesmo instante.
Brecha.
O homem atacou — rápido demais, desengonçado demais, a lâmina toda pressa e nenhuma linha. Anya ergueu a Bug e travou o golpe na raiz, junto do guarda-mão. Um risco para cima, e os dedos dele se abriram como fruta madura. Ele gritou; a arma tiniu no chão.
Não era brecha nenhuma. Era isca.
O Bruto quase riu por dentro. Ela armou pra ele. Igual uma cobra .
— Merda. — A voz veio de trás, grossa, entediada. — Por que é que eu preciso fazer tudo sozinho nessa porra?
O Bruto parou de rir.
Viu o líder se descolar da luz azul do portal e vir na direção dela, sem pressa, estalando o ombro no caminho. O Bruto conhecia aquele estalo. Tinha ouvido de perto, no dia em que perdeu.
O cara era mais alto. Mais pesado. E carregava habilidades físicas que o Bruto só tinha visto quando já era tarde demais para fugir delas. Os cinquenta homens que o cercaram naquele dia não valeram nada — foram fichas jogadas na mesa só para distrair. Quem o derrubou foi um homem só.
Esse cara;
Os outros eram apostas. Este era o dono do cassino.
— Vivo repondo meus homens. — O líder passou pelo companheiro de dedos abertos sem sequer olhar para ele. — Nunca acho a gente certa pro serviço.
Anya cortou a perna do último antes de se virar para encará-lo.
E o Bruto viu acontecer. Viu a intenção assassina do homem cair sobre ela como um andar inteiro desabando — viu os ombros dela travarem, os músculos enrijecerem, os sentidos se fecharem num ponto só. Ele conhecia aquilo por dentro. Era exatamente o que tinha feito com ele, naquele dia. Não a força. Não a lâmina. O peso . A vontade de matar tão densa que o corpo da presa se entrega antes de a luta começar.
Mas a garota não recuou.
Os olhos dela se estreitaram — e, pela primeira vez desde que o Bruto começara a observá-la, hesitaram. Ela acompanhava cada passo lento do homem e não conseguia achar o fundo dele. Aquele não dava para ler. E ela sabia.
Mesmo assim, ergueu a Bug contra a tempestade que vinha.
— Você fede que nem rato de esgoto. — A voz dela saiu firme, e isso, o Bruto teve de admitir, tinha mérito. — E eu não tenho medo de rato.
— Vai ter. — O líder sorriu. Esticou o braço para o lado, os dedos se abrindo. — Quando eu partir esse teu corpo na pedra, fedelha.
De dentro do pulso dele, rasgando a própria pele, escorregou uma lâmina vermelha — curva, úmida, viva, como um osso arrancado por dentro.
— Porque não existe um ser vivo neste andar que possa matar o Andarilho.
— E se forem dois?
Anya abaixou rapidamente e pegou a espada dos inimigos que tinha derrotado e jogou. As lâminas passaram pelo corpo do Andarilho, atravessando o chão e caindo um metro de Bruto.
— Vai ficar ai fazendo nada ou vai ajudar?