Capítulo 03: Irmãos
Capítulo 03: Irmãos
Anya andava de um lado para o outro dentro do quarto, respirando fundo. Fechou a mão e pensou em socar a parede, mas parou. Da última vez, foi um porre limpar o sangue e ainda ter que relatar a ferida aberta.
Um espadachim com a mão machucada não era ninguém. E ser espadachim, ser alguém como Krall e os outros, era o seu sonho. Por isso, quando sentou na cama, levou a mão ao rosto e afundou-o na palma.
Se Krall realmente não a queria no grupo, por que tinha feito tanto? Por que desperdiçar tempo e energia ensinando, demonstrando os tipos de esgrima, explicando as habilidades Físicas e Mentais?
Por quê?
— Alguém em casa? — A porta abriu devagar. Jones entrou um pouco curvado; ereto, não caberia no vão. — Anya, vim te ver antes de ir.
Entrou lentamente, e o sorriso morreu quando a viu encará-lo de lado, com um olhar magoado e cheio de lágrimas.
Anya não queria que ele estivesse ali naquela hora — ainda mais porque, se a vissem chorando, poderiam anotar isso num novo relatório. Ia dizer algo, mas Jones interveio, aproximando-se com um sorriso de canto.
— Eu sei. — Não foi preciso mais nada. Ele chegou perto e sentou-se à frente dela. Mesmo na cama, Anya ficava na altura dele. Jones era enorme. — Sei que isso tudo te deixa chateada. Sei que é ruim ficar de fora. Mas vim aqui te explicar.
— Não precisa explicar mais nada. — Ela limpou o rosto. — Já entendi. Não me querem mais porque viram que eu não consegui ficar mais forte no Abismo. O Krall podia ter dito na minha cara.
— Ah, acha que foi isso? — Jones riu. A mão dele foi às costas e puxou uma garrafinha marrom, de rótulo dourado. — Muita gente pode ser considerada fraca pelos outros, mas você não precisa pensar isso de si mesma. O Krall não te acha fraca. O que aconteceu no Abismo é que o fez repensar a lista de ranking.
Os olhos da garota se abriram.
— Foi… aquilo? — Anya lembrava vagamente do movimento rápido. — Por quê? Eu não fiz nada além de me mexer.
— Todos nós queríamos que fosse só isso, Anya. Mas o Krall já passou por algumas experiências com outras pessoas e… — Jones suspirou. — Ele não ia querer que isso acontecesse com você. O que posso te dizer é que aquilo sai do escopo das habilidades físicas e mentais. Lembra do que eu te ensinei quando começamos a treinar?
— Lembro de muita coisa. — Ele ergueu a mão. — As espadas se dividem em cinco, e as habilidades em duas. Física é para o corpo: força e velocidade, reação e agilidade. Mental é para o raciocínio lógico e o processamento.
— Isso mesmo. Mental é mais raro que física; tanto que temos só uns dez aqui na academia. Os outros são Físico, como eu e o Krall. — Jones apontou a garrafa na direção dela. — Você, minha eterna garotinha, tem uma coisa que ninguém sabe o que é. Eu e o Krall chamamos de Erro. É uma habilidade fora do que a gente conhece.
— Eu sei me proteger, Jones. — Ela não queria soar irritada, mas soou. — Posso ir lá fora e ajudar mesmo com… isso. Essa coisa nojenta que me deixou longe de todo mundo.
— A missão vai ser perigosa. Mas assim que a gente terminar e voltar, eu tenho uma conversa com o Krall. — Não havia nada além de bondade nos olhos de Jones, um homem cuja lealdade e honestidade ninguém jamais questionara. — É uma promessa.
— Eu sei que é.
Os dois esticaram o dedo mindinho, selando a promessa. Anya não fazia aquilo havia mais de dez anos, desde os oito. Agora, uma mulher feita, sorria para Jones — porque o irmão tinha inventado uma promessa só para ter um motivo de conversar.
Esse era o tipo de homem que Jones era.
— Agora esconde a garrafa. — Ele ficou de pé, forçando um pouco a perna. — A Nisha não pode saber que te dei uma garrafa dela. Vai me matar se te encontrar com isso. E eu sei que você tem se esforçado, tá?
Anya ficou mais leve. Não estava acostumada com aquela raiva no peito, mas o Jones também estava se esforçando. Ele enfiou a mão dentro da roupa e retirou outro objeto:
— Esse é o meu Abismo particular. Enquanto a gente estiver fora, você pode treinar lá. — E jogou nas mãos dela. — Não vou precisar dele lá fora, mas você precisa continuar afiando a intuição.
Era um item muito pessoal. Todos os soldados recebiam um ao chegar no Terceiro Ranking — por isso Anya ainda não tinha o seu.
— Não posso aceitar. — Ela esticou a mão de volta. — Se alguém me pegar usando isso…
— Eu sei. — Jones recuou o braço dela, rindo. — Usa quando estiver dentro do meu quarto. Pedi a um dos antigos Tenentes pra reforçar as paredes. Se for só até o Quinto Andar, não tem problema.
Anya levantou-se depressa e o abraçou. Jones era um irmão mais velho, um dos únicos que pensava antes de fazer qualquer movimento, antes de causar qualquer problema. Todos eles se preocupavam, mas Jones era o mais próximo de um irmão de verdade.
A única coisa que ela conseguiu dizer foi:
— Obrigada, irmão.
A mão dele repousou na cabeça dela. Anya não podia ver o rosto de Jones, mas a expressão era bondosa e, ao mesmo tempo, preocupada.
— Seus outros irmãos também querem conversar quando você tiver tempo.
Jones partiu. Anya segurou a chave do Abismo com força e guardou-a dentro das roupas. Um tempo depois, bateram à porta mais uma vez. Quando abriu, deu de cara com Nisha. A mulher de cabelos negros presos tinha um olhar afiado e um temperamento só dela.
— Não precisa se explicar. — Nisha ergueu a mão antes que ela falasse. — Vi o Jones pegando minha garrafa. Aquele cara vive levando minhas coisas achando que eu não descubro. Mas não vim aqui pra isso.
Anya recuou quando Nisha forçou a entrada. Ela trazia adagas na cintura, e, quando sentou na cama, as armas tilintaram juntas. Cruzou as pernas — pernas endurecidas pelo tempo e pelo treino.
— Vamos ao que interessa. — Ela apontou para o próprio lado. Anya não teve tempo de falar. — Nossa missão é importante, mas não pense que a gente não está preocupado. O Krall é um cara difícil, mas quem manda é o Comandante. Lembra de quando enfrentamos uns monstros lá fora?
— Lembro…
— Vai ser mais fácil que aquilo. Muita missão é só de reconhecimento, então para de se preocupar com a gente. — Nisha esticou os braços para trás, apoiando-se torta no colchão. — Se quiser, deixo uma das minhas adagas pra você praticar o arremesso. Que acha?
Anya ficou estática.
— Não, Nisha. Suas armas são preciosas. E ainda sinto dor na mão de vez em quando.
Nisha riu.
— Aquela garotinha que vivia querendo mexer nas armas dos outros precisava aprender uma lição. Mas hoje vai ser diferente.
Endireitou o corpo, e, ereta, parecia tão alta e forte quanto Jones — mas o treino, ao longo dos anos, ensinara-a a encolher a postura, para que os inimigos a subestimassem. Os dedos enroscaram no cabo, e ela puxou a lâmina para cima.
A lâmina era afiada como todas as outras. Girou no ar, criando um pequeno ruído, e Nisha a travou de repente, entregando-a a Anya.
— Essa é a minha filha caçula. Fiz há pouco tempo, mas está no mesmo patamar que as outras. Pega e testa.
Anya segurou-a e girou-a no ar, como aprendera com Nisha, e a travou — exatamente como a instrutora. E recebeu um sorriso por isso.
— Ainda tem a mesma teimosia de quando te conheci. Nem acredito que você fez dezoito anos. — Nisha ficou de pé. — Preciso ir. Treina bastante. Se conseguir me impressionar quando a gente voltar, eu te ensino a forjar armas. Que acha?
— Sério? — Anya também se levantou. — Obrigada!
— Não precisa agradecer, precisa treinar. Vão ser só duas semanas. Não arruma confusão com os soldados de Ranking enquanto isso, entendeu? Sua posição não define quem você é, nem o que você pode ser. São só números decididos pelos outros.
— Vou tentar não bater em todos eles nos treinos.
Nisha a puxou para um abraço.
— Faz tempo que a gente não fica longe uma da outra. Prometo que voltamos rapidinho.
Anya fechou os olhos. Queria ficar assim por um longo tempo.
Quando as duas olharam para a porta, Bagre estava ali — parado, esperando sua vez com aquela postura desengonçada que parecia sempre um segundo antes de tropeçar em alguma coisa. Ele era cheio de cicatrizes no rosto, algumas antigas e esbranquiçadas, outras mais recentes ainda num tom rosado. Tinha esparadrapos no braço e em dois dedos, o que provavelmente significava que havia tentado consertar algo com as próprias mãos e saído perdendo, como de costume.
— Eu… vim deixar algo pra Anya. — Levantou o braço com um gesto meio sem graça, segurando um pequeno feixe de ervas atado com barbante grosso. Cheiravam levemente a madeira queimada e a algo mais doce que ela não soube nomear. — É para proteção contra maldições antigas. Alguns desses territórios têm camadas de feitiçaria velha que o equipamento padrão não detecta, então… — Ele pigarreou. — Vou só deixar aqui…
— Vem cá logo, feioso.
Nisha o puxou para perto antes que ele terminasse de recuar. Anya fechou os olhos de novo. Podia ficar irritada com Krall o quanto quisesse. Podia passar horas andando em círculos naquele quarto pequeno, socar paredes que não cediam e carregar perguntas que ninguém ainda sabia responder.
Mas aquelas pessoas eram as mais importantes que ela tinha. E nunca — independente de ranking, de Erro, de qualquer nome dado ao que pulsava dentro dela — conseguiria deixá-los partir sem sentir o peso do espaço que deixavam.