Capítulo 30: Feioso
Capítulo 30: Feioso
O primeiro golpe quase a matou.
Anya sabia que ele era rápido. Não sabia que era aquilo .
A lâmina vermelha veio de um ângulo que ela mal registrou — e ela só não perdeu o pescoço porque o corpo, treinado no escuro por algo muito pior, jogou a Bug no caminho por conta própria. Aço e osso se encontraram num estalo úmido. A força do golpe subiu pelos braços dela, pelos ombros, e a empurrou meio metro para trás na terra.
Rápido.
A intenção assassina ainda pesava sobre ela, uma mão invisível apertando cada músculo, dizendo deita, desiste, morre . Anya trincou os dentes e empurrou aquilo para o fundo — do mesmo jeito que empurrava o Erro. Tinha prática de sobra em engolir coisa que queria sair.
Ele veio de novo. E de novo. A lâmina vermelha riscava o ar em linhas que ela conseguia ver — conseguia, graças às noites, graças àquilo que a caçava no quarto do Jones —, mas ver não bastava. Ela enxergava o golpe chegar e ainda assim chegava tarde para respondê-lo. Os pés liam o terreno, o corpo girava na hora certa, a Bug ia para o lugar certo. E mesmo assim ele era um triz mais rápido. Sempre um triz.
Esse triz estava deixando extremamente irritada.
O primeiro corte veio no ombro. Raso, mas ardido. O segundo, na coxa, quando ela leu errado uma finta. Anya recuava, recuava, a estrada inclinando sob os calcanhares, o azul do portal crescendo às suas costas — ele a empurrava para o próprio andar, para o terreno dele, e sabia disso, e sorria enquanto fazia.
Deixa ele achar que ganhou.
Era o único plano que ela tinha. Perder devagar. Perder de um jeito convincente — sangrar de verdade, recuar de verdade — e manter os olhos abertos. Porque ninguém é rápido o tempo inteiro. Nem ele. Todo ritmo tem uma batida em que o corpo precisa voltar, um respiro curto entre um golpe e o outro, breve como o bater de uma asa. A Marionete tinha um. Aquele homem também teria.
Ela só precisava sobreviver até achar.
E, atrás do Andarilho, no canto que os olhos dela não podiam encarar de frente sem morrer, alguma coisa raspava. Metal contra metal, teimoso, ritmado. Anya não olhou. Não podia. Mas conhecia o som de uma lâmina forçando um elo de corrente, e conhecia o peso da esperança idiota que aquele som acendia no peito.
Aguenta , pensou — para ela, para o Bruto, para os dois. Aguenta mais um pouco.
Então o Andarilho cansou de brincar.
O golpe seguinte não mirou a carne. Mirou a Bug. Bateu na espada com uma força que não tinha nada de normal, e a lâmina do Krall quase pulou da mão dela. Os dedos dormentes gritaram. Anya caiu sobre um joelho, e por um instante o mundo inteiro se resumiu à ponta vermelha daquele osso subindo lá no alto — para descer sobre a nuca dela.
E o Erro começou a gritar em seu ouvido. Faminto. Agora. Me solta. Agora.
Ela segurou. Mais uma vez, segurou.
Porque atrás do inimigo o raspar tinha parado. Houve um estalo seco, metálico, definitivo — o som de uma corrente cedendo de vez.
E a voz do Bruto — a mordaça cuspida, livre pela primeira vez — encheu o corredor inteiro:
— Ei, feioso.
O Andarilho hesitou. Meio segundo. A batida entre um golpe e o próximo.
Era aquilo. Era o momento que ela esperava.
Agora.
Anya prendeu a respiração e fechou os olhos. Como da última vez.
E o corpo se moveu sozinho.
Para a frente — sempre para onde ela não escolhia —, um puxão, o nada, e a terra sumindo debaixo dela. A lâmina de osso desceu no lugar onde o pescoço dela tinha estado meio segundo antes e mordeu o chão. A pedra explodiu. Uma cortina de poeira subiu entre os dois.
Quando Anya abriu os olhos, estava de pé três passos à frente, ofegante, a Bug ainda na mão. E soube, na mesma batida, que não havia mais volta. Velocidade percorre o caminho. Ela tinha pulado o caminho inteiro — na frente do inimigo, na frente do Bruto. Não dava para fingir. Não dessa vez.
O Andarilho girou o rosto, procurando-a na poeira. Pela primeira vez, o sorriso dele vacilou.
— O que… foi isso? — Os olhos dele a acharam. — Isso… é uma habilidade?
— Devia se preocupar com outra coisa.
Ele entendeu tarde demais.
O punho do Bruto veio de trás, rasgando o ar como uma avalanche solta da montanha. Acertou o Andarilho em cheio no rosto — e Anya sentiu o baque no próprio peito, o ar sendo empurrado para trás junto com o golpe. O homem voou. Cambaleou os últimos passos e parou quase na boca do portal, o azul lambendo as costas dele.
O Bruto abriu e fechou a mão, os dedos estalando, livres. Jogou a cabeça para trás e berrou:
— ISSO É LIBERDADE, PORRA!
Cuspiu sangue e sorriu — enorme, terrível.
— Agora sim. Vamos pra revanche, seu gorila.
Anya firmou a Bug, ajeitou a pegada e apontou a ponta para o Andarilho. Ao lado dela — não mais acorrentado, não mais carga, mas de pé, imenso, inteiro — o Bruto cerrou os punhos.
Dois contra um.
O Andarilho passou o polegar pelo lábio partido, olhou o próprio sangue, olhou os dois. E, devagar, o sorriso voltou ao rosto dele. Maior do que antes.
— Vai ser divertido.
I
— Eles podem estar mortos agora — Aspas não media palavras para falar com Dex. — Esse é o símbolo da Folha Dourada. Pode não ser a mesma coisa do passado, mas eles gostam de fazer trama por um preço. Ou seja, alguém comprou a nossa cabeça.
Leonidas e os outros haviam retornado para o 11º e encontraram Aspas e Dex na hospedagem.
— E por que esse lugar está sempre destruído? — Aspas olhou ao redor. — Podiam, pelo menos, arrumar antes de alguém chegar.
Dex lançou um olhar furioso pra ele.
— Meu primo e Anya podem estar mortos agora e você se preocupa com o lugar? — Ele levou a mão a bainha da espada. — Está maluco, porra?
— Eu disse o que penso. — Aspas recuou dois passos e encarou os outros. — A Folha Dourada vai caçar a gente até que possamos encontrar o motivo e quem solicitou, e pra isso, vocês vão precisar subir até o 15º pra descobrir.
Dex respirou fundo mais uma vez.
— Não vou subir porra nenhuma. Se eu não achar meu primo e a garota, ai sim vou atrás deles.
— Pois bem — Aspas bateu uma palma, quebrando a tensão ao redor de si. — Eu disse o que precisava dizer. Se vão fazer ou não, é um problema razoável que não me pertence. Farei o possível para entender melhor o que aconteceu deles estarem nos caçando. Astrax, contate os ‘Black Stone’ e diga para vir me encontrar.
A cara de todos azedou em um instante. Até Dex.
— O que foi? — Aspas percebeu. — Se não vão, outro grupo precisa ir. Agora me deem licença. E arrumem esse lugar, pelo amor de Deus.