Capítulo 31: Sem Harmonia
Capítulo 31: Sem Harmonia
O Andarilho não esperou os dois se prepararem.
Veio pra cima com a lâmina de osso — e Anya e Bruto se moveram ao mesmo tempo. Esse foi o problema. Ela mergulhou pela esquerda com a Bug baixa; ele avançou pela mesma esquerda com o punho erguido; e os dois quase se atropelaram no meio do caminho, cada um roubando o espaço do outro.
— Sai daí! — rosnou o Bruto.
— Sai VOCÊ! — Anya jogou o corpo pro lado pra não levar uma cotovelada do tamanho da própria cabeça.
O Andarilho riu no meio da confusão e enfiou a mão no vão que os dois abriram. Os dedos dele escancararam e fecharam no ombro do Bruto.
— Agarrão.
O que veio depois, Anya sentiu violentamente. O ar mudou de peso. A mão do Andarilho travou no ombro do gigante e não soltou — e o Bruto, que segundos antes tinha mandado o homem voar com um soco, de repente não movia um músculo. Ele puxou. Puxou de novo, as costas inteiras estufando sob o casaco vermelho rasgado. Nada. Aquela mão era um ferrolho de carne.
— Você é forte, gorila. — O Andarilho apertou, e o Bruto urrou entre os dentes. — Mas força não vale nada quando sou eu que decido se você fica.
— ANYA!
Ela já estava indo.
A Bug subiu num arco pra rachar aquele punho — e claro que ele viu. A outra mão do Andarilho largou o Bruto e veio pra ela, os dedos abertos como uma boca.
— Empurrão.
Não foi soco. Foi uma palma no meio do peito, com o barulho de um portão batendo. O mundo virou vento. Anya voou — voou mesmo, os pés largando o chão — e só não estourou as costas na parede porque, no meio do arremesso, o corpo lembrou do medo, e o medo acordou o Erro.
Ela fechou os olhos.
O puxão. O nada. E caiu de quatro na terra, três metros à esquerda de onde a palma a tinha mandado, os pulmões vazios, a Bug ainda — graças a algum deus — presa na mão.
— De novo isso. — O Andarilho girou o rosto pra ela, e agora o sorriso tinha fome. — Você pula. Que coisa mais interessante.
Ótimo. Agora ele reparou de verdade.
— MENOS PAPO! — O Bruto, solto do Agarrão, voltou com tudo. — Anya, pela direita dele! A DIREITA!
— É a minha direita ou a dele?!
— A DELE, caralho!
— ENTÃO DIZ “A DELE”!
Era quase engraçado. Quase. Os dois entraram ao mesmo tempo e outra vez quase se acertaram: o punho do Bruto passou tão rente à orelha dela que ela ouviu o assobio, e teve que engolir a própria investida no susto. O Andarilho recuou um único passo, e deixou. Deixou os dois se enrolarem sozinhos. Guardou as mãos. Esperou.
Aquilo era o pior de tudo. Ele não precisava ser rápido agora. Só precisava esperar que eles se atrapalhassem — e os dois estavam se atrapalhando lindamente.
— Você luta que nem um touro cego! — Anya rolou pra longe de outra cotovelada amiga.
— E você fica no meio que nem mosca! — O Bruto desviou de um talho de osso por um triz. — Nunca lutei com ninguém do lado, tá bom?! Sempre sozinho!
— Vai reclamar logo agora? Eu também não.
E foi ali, no meio do caos, com a lâmina vermelha subindo de novo, que a ficha caiu pra ela. Nenhum dos dois sabia fazer aquilo. Nenhum dos dois jamais tinha tido em quem confiar as próprias costas. Eram duas armas afiadas tentando cortar juntas e só conseguindo se cortar.
O Andarilho decidiu encerrar a brincadeira.
Foi pro Bruto — o alvo grande, o alvo lento — com a mão do Agarrão aberta, mirando o pescoço dessa vez. E Anya viu o movimento inteiro, do início ao fim, com os olhos que a Marionete tinha afiado à força. Viu pra onde a mão ia. Viu o buraco no tempo dele.
Não deu ordem. Ordem eles não sabiam obedecer. Deu a única coisa que sobrava.
— BRUTO! ABAIXA!
E, pela primeira vez na luta inteira, ele não discutiu.
O Bruto largou o corpo no chão como um saco de pedra. A mão do Agarrão fechou no ar vazio acima dele — e Anya já vinha passando por cima das costas do gigante, usando o ombro dele de trampolim, a Bug descendo com todo o peso do salto, do ódio, e do morto que batizou a lâmina.
O aço mordeu o pulso do Andarilho. Fundo, até o osso trincar.
A lâmina vermelha caiu na terra, ainda presa a uma mão que não obedecia mais.
O Andarilho berrou. Recuou até a boca do portal, o sangue jorrando escuro por entre os dedos, e o sorriso sumiu de vez do rosto dele.
Anya aterrissou ao lado do Bruto, ofegante. Os dois cobertos de terra e sangue, ombro contra ombro, armas pra fora, respirando no mesmo compasso pela primeira vez desde que aquilo tinha começado.
— … Foi mal — o Bruto resmungou, sem olhar pra ela. — Pela orelha.
— Cala a boca — disse Anya.
Mas quase, quase sorriram.
O Andarilho olhou para trás, para o portal.
Fugir agora seria covardia. E ele não era covarde — era só paciente. Os dois na frente dele mal paravam de pé: a garota com o peito afundado pela palma que levara, o gigante escorrendo sangue por uma dúzia de lugares. Uma luta mais longa não terminaria com ele perdendo. Terminaria com os dois cortados em dois. Talvez em quatro.
E ainda que lhe arrancassem um braço — ainda que arrancassem os dois —, não era problema dele.
O mestre faria o que precisasse ser feito para trazê-lo de volta. Sempre fazia.
Ele flexionou a mão que ainda tinha, sentiu o osso vermelho recolher-se para dentro do pulso, pronto, e esperou. Sem pressa. Quem não teme a morte tem todo o tempo do mundo.
Do outro lado da poeira, o Bruto cuspiu no chão e abriu e fechou a mão.
— Ele não vai embora — murmurou, os olhos grudados no Andarilho. — Tá gostando disso. A gente gira ele e bate com força. Entendeu?
— Fala direito. — Anya ergueu a Bug de novo. O peito ardia a cada respiração, o lugar da palma latejando fundo. — “Gira e bate” não é plano. É grito de torcida.
— Então bota um plano na minha boca, gênio.
Ela olhou o inimigo. Olhou de verdade — do jeito que a Marionete tinha ensinado a olhar, não o homem, mas o mecanismo . As duas habilidades saíam das mãos dele. A palma que a arremessou longe. O aperto que pregou o Bruto no ar feito prego na parede. Até a lâmina caída brotava do pulso. Tudo nele começava nos braços.
— As habilidades são nas mãos — disse, baixo, mais para si do que para ele. — Tira os braços dele da jogada e sobra só um homem grande.
O Bruto virou o rosto para ela, e alguma coisa acendeu naqueles olhos. Pela primeira vez, os dois estavam pensando a mesma coisa sem brigar por ela.
— Se você travar ele um segundo — encarou-a de soslaio, e sorriu com os dentes vermelhos —, um segundo só, eu quebro os dois.
Anya respirou fundo.
Um segundo. Era o que ela tinha de dar a ele. E, para dar aquele segundo, ela ia ter que chegar perto. Perto o bastante para a única mão que restava ao Andarilho alcançá-la. Perto o bastante para ser jogada de novo — ou pior: para ser presa e não largar mais.
O plano era uma péssima ideia.
— Fechado — ela disse.
E no fundo do rosto do Andarilho, sem que nenhum dos dois pudesse ver, o sorriso voltou. Ele os deixaria tentar. Deixaria até que quebrassem. Não fazia a menor diferença.
O mestre sempre trazia de volta o que era dele.