Capítulo 32: Um Segundo
Capítulo 32: Um Segundo
Anya foi primeiro.
Tinha que ser ela. O Bruto era grande demais, pesado demais para o disparo inicial. Se fosse ele na frente, o Andarilho o leria a três passos e o prenderia com o Agarrão antes do primeiro soco. Então foi ela. Baixa, rápida, a Bug rente à perna, cortando a poeira em linha reta para cima do inimigo.
E o Andarilho já esperava. Não com a mão pronta para pegar. Com os olhos.
Ele já tinha visto o truque dela duas vezes, e não ia se deixar enganar de novo por uma garota que sumia. Os pés se ajeitaram, o peso recuou um pouco, a única mão que restava pairou aberta no ar, num ponto calculado.
Anya já sabia que o homem a sua frente faria de tudo agora para pegá-la. Então…
Ele tá esperando eu pular.
Bom. Que esperasse.
Anya fechou os olhos no meio da corrida, prendeu a respiração, e deixou o Erro puxar.
O puxão. O nada. E nem ela sabia para onde.
Era esse o segredo que o Andarilho nunca ia adivinhar, porque nem a dona do poder adivinhava. Não dava para prever o salto. Ele apostou num ponto. E Anya tinha certeza de que ele iria errada.
Porque o salto era imprevisível.
Reapareceu à esquerda dele. Baixa. Dentro da guarda, do lado da mão que já não servia.
O rosto do Andarilho virou tarde. O sorriso ainda estava caindo quando a Bug desceu.
Anya não mirou o pescoço. Não mirou o peito. Mirou o antebraço da única mão que ainda podia matá-los, e enfiou a espada do Krall através da carne e do osso, prendendo o braço dele contra a pedra.
Ele urrou. E puxou.
Aquele braço só era humano no nome. Puxou com uma força que fez a Bug ranger e o cabo quase escapar das mãos dela. Anya jogou o peso todo em cima, os dois braços, os dentes trincados, os pés escorregando na terra. Não ia aguentar muito. Um segundo. Talvez nem isso.
Era o que ela tinha prometido dar.
O Andarilho a encarou por cima do braço espetado. E ela viu o cálculo dele mudar. Não ia gastar força tentando arrancar a mão da pedra. Ia gastar para alcançá-la. Puxou o corpo inteiro para a frente, rasgando o próprio antebraço mais fundo na Bug, só para chegar um palmo mais perto do pescoço dela. E foi o que fez. Anya sentiu o aço serrar carne enquanto ele se empalava para vir buscá-la, sem um tremor no rosto, e empurrou de volta com tudo o que tinha.
O Erro batia nos dedos dela, pedindo para fugir daquele aperto. Segura. Só mais um pouco. Segura.
— BRUTO! AGORA! AGORA!
Ele já vinha.
Anya sentiu o chão tremer antes de ouvir os passos. O Andarilho virou o rosto para o gigante, e pela primeira vez na noite havia outra coisa nos olhos dele. Não era medo. Ele estava calculando se valia a pena o preço a ser pago.
Tarde demais.
O Bruto não chegou em cima do corpo. Chegou em cima do braço preso. A mão dele fechou no cotovelo do Andarilho, acima de onde a Bug o prendia. E não bateu. Ele segurou com toda força que tinha, até fazendo careta.
E ele torceu.
O som não foi um estalo. Foi molhado, fundo. O braço dobrou para o lado oposto do que deveria. O Andarilho gritou. Os capangas mortos dele nunca tinham ouvido aquilo, porque ele não deixava vivo quem o escutasse gritar assim.
— UM — disse o Bruto, entre os dentes.
Largou o braço quebrado, passou por cima do inimigo e foi atrás do outro. Aquele que a Anya já tinha arruinado no começo da luta. A mão que um dia segurou a lâmina vermelha e agora pendia frouxa ao lado do corpo, inútil.
Não fazia diferença que já estivesse acabada. O Bruto pegou o pulso mesmo assim, sem pressa, só para terminar o serviço.
— E essa — rosnou, os olhos no rosto do Andarilho — é pra você lembrar de nunca mais apontar qualquer merda dessa que você tira do pulso pros outros.
Torceu.
— DOIS.
O segundo som encheu o corredor e morreu no azul do portal.
Então foi só silêncio. O Andarilho de joelhos, os dois braços tortos, mortos. A lâmina vermelha ainda cravada no chão pela Bug, presa a uma mão que não ia fechar nunca mais. Anya de pé de um lado, o peito subindo e descendo. O Bruto do outro, os punhos escorrendo sangue que não era dele.
Dois contra um. E o um tinha perdido as duas coisas que o faziam mais que um homem grande.
Anya arrancou a Bug da pedra. O braço soltou-se, mole, e o Andarilho tombou de lado, sem as mãos para amortecer a queda.
Ela esperava ódio no rosto dele. Ou dor. Ou, enfim, medo. Não viu nenhum dos três.
O Andarilho sorriu para ela com os dentes vermelhos. Um sorriso calmo. O sorriso de quem já perdeu e não se importa. E foi ele que gelou a Anya, mais do que qualquer golpe da luta inteira.
— Você pula. — Ele falou baixo, só para ela, o fôlego raspando. — Meu mestre vai adorar saber disso.
Esse era o preço de usar sua habilidade ali. Aquele homem, se deixado vivo, levaria sua memória da derrota para esse tal mestre. E então seria como ser caçada. Ela não fazia ideia do que poderia acontecer, então, arriscou.
— O que você sabe sobre as Relíquias?
O Andarilho continuava a sorrir, fitando-a. Bruto, por outro lado, lançou um olhar torto, sem entender.
— O que é isso? — o grandalhão questionou. — Relíquia?
— Fala. — Anya pôs o pé em cima do peito do Andarilho, o empurrando um pouco pra trás. — E eu te deixo vivo.
— Quem liga pra essas malditas Relíquias. — O sangue já estava escorrendo pelos dentes do Andarilho. — São só peças que matam os homens. Meu… mestre não quer… elas.
Anya suspirou fundo. E concordou.
— Realmente, são só peças que matam as pessoas.
Sem dar satisfação alguma, ela fez Bug descer. E o pescoço do homem que quase havia tirado a vida deles, foi empalado. Diferente do braço que tinha sido rigido, seu pescoço foi molenga. Um pedaço de carne rasgado facilmente.
Os olhos dele perderam a cor aos poucos, mas seu sorriso nunca murchou. Ele adorava fazer isso, pelo visto.
Bruto encarou Anya. Seu peito estava ardendo e seu braços, machucados fazia dias, penderam para baixo. Ele caiu sentado, num baque bem seco e alto. Jogou a cabeça para trás e deu uma risada fraca.
— Parece que não morri.
— Apesar de ser bem idiota. — Anya tornou a espada a bainha. — Acha que ia conseguir sair vivo me mandando voltar?
— Pior que não. — Ele a olhou de lado, completamente indiferente. — Eu estava pronto pra morrer, só queria me divertir um pouco antes disso.
Mesmo sendo um comentário bem depressivo, Anya riu de volta. E caiu ao chão, bem do lado dele.
— Você vai ter sua chance de morrer quando voltar e falar com o seu primo.
A cara de Bruto azedou na hora.
— Olha só. Estava rindo enfrentando esse demônio aqui, mas está com medo de um homem que é seu parente? — Anya continuou sorrindo em zombaria. — Que irônico.
— Já foi surrado pelo Dex alguma vez, garota? — Bruto estremeceu todo. — Aquele cara, ele é o verdadeiro demônio.
— Bom, vamos descansar antes de voltar. — Ela se jogou para trás, ficando de costas. — Estou exausta.