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Capítulo 33: Retorno

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Capítulo 33: Retorno

A hospedagem estava em silêncio. Fazia um tempo que ninguém falava nada, e o silêncio pesava mais que qualquer discussão. As paredes rachadas seguravam a luz fraca das tochas. Ninguém tinha cabeça para consertar coisa nenhuma agora.

— O que vamos fazer? — Leonidas olhava para Ione.

O grupo inteiro esperava a resposta. Astrax encostado na parede, os braços cruzados. Joana perto da porta dos fundos, quieta. Mas Ione não disse nada, ainda olhando para a porta da hospedagem, como se esperasse que ela se abrisse sozinha.

— Ione, o que vamos fazer? — Leonidas insistiu. — Se deixarmos o Aspas chamar os Black Stone, a gente vai precisar…

— Eu sei. — Ione o cortou, a mão no queixo. Ficou um tempo assim, calado. — O certo e o errado não podem ser medidos agora. Estão todos prontos?

— Claro que estamos. — Astrax se descolou da parede e ajustou a espada na bainha. — Vamos cortar a cabeça daqueles desgraçados da Folha Dourada. Já perdemos tempo demais.

Leonidas reparou que Ione hesitava. Era raro. Ione nunca duvidava das próprias decisões — decidia rápido, certo ou errado, e ia até o fim. Agora demorava. Passava a mão no queixo e não olhava para ninguém.

Ele tá com medo?

Leonidas afastou a ideia. Não combinava com o homem que ele conhecia. Mas a dúvida ficou.

A madeira rangeu com os passos de Joana. Ela atravessou a sala, passou por Leonidas e tocou o ombro de Ione. Ele pareceu acordar de um sonho.

— Não se preocupe. — Joana falou com calma, a mão ainda no ombro dele. — Vai ficar tudo bem.

Ione abriu a boca. Havia uma tristeza no rosto dele, e os olhos tremeram. Ia dizer alguma coisa — alguma coisa que, pela cara, ele guardava fazia tempo.

Não deu tempo.

A porta da hospedagem foi empurrada devagar para dentro. A dobradiça velha rangeu.

Ione e os outros se viraram. Os olhos arregalaram, a boca caiu. Astrax deu um passo à frente sem perceber.

Cheios de sangue, feridos no peito e no pescoço, as roupas em farrapos, Anya e Bruto entraram. Os dois mancavam. O sangue tinha secado escuro na testa de Anya e ainda pingava fresco do braço dela. O grandalhão vinha com um braço jogado sobre os ombros da garota, metade do peso apoiado nela, os pés se arrastando no chão. Mesmo assim, achou forças para levantar a cabeça e acenar com um sorriso quebrado.

— Voltamos, pessoal.

Por um segundo, ninguém se mexeu.

Anya tirou o braço dele de cima de si e empurrou para a frente. Bruto caiu de peito no chão e rolou de lado, soltando um gemido.

— … Valeu — resmungou ele, do chão.

Aí a sala se moveu de uma vez. Joana correu. Leonidas gritou o nome dos dois e foi atrás dela. Só Ione continuou parado onde estava, olhando para a garota de pé no meio da porta — e a tristeza no rosto dele virou surpresa e choque.

Foi uma das poucas vezes que aquele homem tinha demonstrado isso, e Leonidas notou.

— Os relatórios dos dois batem perfeitamente. — Dex estava escorado na janela. — Deixei eles descansar, Aspas. Mas você precisa entender uma coisa: o que aconteceu não foi normal. Se alguém contratou a Folha Dourada pra pegar a gente dentro do Abismo, essa pessoa sabe quem nós somos. Não só aqui. Lá fora também.

Os dois estavam sozinhos na sala do Aspas, um encarando o outro. Mesmo tendo dormido bastante, Dex ainda sentia o corpo pesado. Queria ter dormido mais doze horas.

— Não dá pra descartar que a Folha Dourada foi só um efeito colateral de uma coisa que a gente não tá vendo. É isso que me deixa irritado. E curioso. — Ele fez uma pausa e desviou o olhar. — Desde que a gente chegou no Abismo, fizemos o trabalho sem atrapalhar ninguém. Minha dúvida é uma só: quem se ofendeu com uma coisa tão pequena?

— Posso chutar uns cinco nomes. — Aspas deu de ombros. — As Academias vivem tentando reduzir a força umas das outras. Se a gente for atrás de quem foi, com certeza esbarra em alguém de fora.

— Uma Academia mandaria matar a gente dentro do Abismo? — A ideia ainda soava irreal para o Aspas. — Quando vão ser os encontros das Academias?

— Daqui a seis meses. O Comandante ainda não anunciou, mas os Capitães já começaram a preparar os escolhidos deles. A gente não tá no meio.

Aspas coçou a bochecha e deu meia-volta. Dex odiava quando ele pensava demais.

— O que foi?

— Tô pensando na possibilidade de a gente ser o efeito colateral de uma coisa que nem era pra nós. Uma emboscada no seu primo que nem faz parte dos planos da Academia. E aí a Folha Dourada manda o Andarilho atrás dele. — Aspas encarou Dex. — Eles sobreviveram por sorte, e você sabe disso.

Dex não discordava.

— Não morreram por sorte. E é isso que a minha cabeça não liga: como dois soldados Ranking 1 venceram aquele monstro. O Andarilho sempre foi mercenário. No mínimo, no nível do Leonidas.

— O plano era deixar a gente desorientado?

— Se a Academia descobrir que perdemos gente lá dentro, é punição na certa. Um conselho a cada dois dias pra fechar o caminho que a gente tem. — Dex apertou os olhos. — Como é que a gente reporta isso sem se expor?

Aspas não respondeu. Não tinha resposta.

Dex entendeu. A situação só piorava.

— Vou falar com meu primo de novo. — Ele se descolou da janela. — Ver se ele lembra quem pediu pra ele ir atrás desses caras. Qualquer coisa que seja.

— Faça isso.

— Já disse, cara. — Bruto estava jogado na cama, os dois braços enfaixados, reclamando como se nem sentisse dor. Anya o invejava nisso. Estava na cama do lado, ouvindo os dois. — Não tinha pessoa nenhuma. Recebi o pagamento adiantado pra levar um livro até lá. Só isso.

— Só isso? — Dex franziu as sobrancelhas. — Um livro? Que porcaria.

— Era dinheiro fácil, e eu precisava pra colocar no fundo dos novatos. Eu tô te devendo, lembra?

Anya soltou uma risada baixa, escondendo dos dois.

— Já entendi. — Dex puxou uma cadeira e colocou entre as duas camas. Sentou. — Então vamos lá. O inimigo que vocês venceram não era só um peixinho. Era um peixe gordo. O Andarilho não era alguém que a gente daria conta, nem que a gente iria atrás. É procurado no Abismo, mas teve um grupo que acolheu ele. Vocês não deixaram pontas soltas lá, e isso foi bom. Mas eles sabem que o plano não deu certo.

Dex parou um instante.

— Por isso eu vou restringir a ida de vocês do 12º pra cima. No próximo mês, até eu e o Aspas entendermos o que aconteceu, fiquem só no 11º. Lá tem coisa suficiente pra vocês dois.

Bruto se jogou pra cima, sentando na cama.

— O quê? — A cara dele mudou pra dor na mesma hora. Os dois braços arderam. — Merda. Por quê?

— É um pedido pessoal. — Dex encarou ele. — A gente precisa saber por que você foi o alvo. E se ainda é. — Passou os olhos de um para o outro. — Então, por que vocês não ficam juntos enquanto isso?

Anya não disse nada.

Ficar junto do Bruto. Do único que tinha visto ela pular — e que não tinha esquecido. Dava pra ver na cara dele toda vez que a olhava.

Ela puxou o lençol e virou de lado, encarando o teto. Ia ter que resolver isso.

Só não agora.