LNCrawler

Capítulo 34: Nada!

Bug Espadachim — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 34: Nada!

Fazia uma semana.

Os braços do Bruto ainda estavam enfaixados, mas ele já mexia os dedos sem fazer careta. O corte no braço da Anya tinha virado uma linha rosada, fechada. Ali, na Academia, os dois eram só mais dois soldados. Sem casaco vermelho, sem Abismo, sem ninguém por perto pra socorrer.

Estavam sentados na arquibancada de pedra do pátio, vendo os novatos apanharem do sol. O Bruto mastigava alguma coisa. Anya não, o cheiro era ruim.

— Tô pensando naquele cara — disse ele, de boca cheia.

— Qual.

— Você sabe qual.

Anya sabia. O Andarilho. O sorriso de dentes vermelhos. E a coisa que ele tinha dito baixinho, só pra ela, antes do fim — a parte que ela não contou pra ninguém. Nem pro Dex.

Meu mestre vai adorar saber disso.

— A gente ganhou — o Bruto continuou —, mas aquele cara não estava sozinho. A Folha Dourada sabe da nossa cara agora. — Cuspiu o que mastigava pro lado. — Não gosto disso. Ganhar uma briga e sair mais marcado do que entrou.

— É.

— Então? — Ele virou o corpo pra ela. Os braços reclamaram; ignorou. — O que a gente vai fazer?

Anya olhou pro pátio. Um novato levou uma rasteira e caiu de cara na terra. O instrutor gritou pra ele levantar.

— Nada — ela disse.

O Bruto piscou.

— Como assim, nada?

— Nada. — Ela nem virou o rosto. — Não é a nossa briga. O Dex mandou ficar no 11º, a gente fica no 11º. A Folha Dourada queria o livro, não a gente. Se a gente for atrás, entrega de bandeja o que eles não conseguiram: nós dois, na mão deles.

— Mas…

— Correr atrás de uma coisa que talvez nem venha é o jeito mais rápido de morrer de medo. — Ela deu de ombros, e o movimento puxou o braço machucado. Não deixou aparecer. — Se vier, a gente resolve. Enquanto não vier, não existe.

O Bruto ficou calado um tempo. Não era um silêncio de quem concorda. Ele nem mesmo fez careta.

— Você é fria pra caramba, sabia?

— Sei.

Ela era. E sabia de uma coisa que o Bruto não sabia — que talvez não tivesse acabado mesmo, que talvez viesse alguém buscar o que o Andarilho não terminou. Sabia, e mesmo assim: nada. Porque tinha um motivo guardado que não cabia naquela conversa. Um motivo com nome, com rosto, com uma data. O Andarilho não fazia parte dele. Ninguém ali fazia. E ela não ia gastar o que tinha guardado na briga errada.

O Bruto suspirou e se recostou na pedra.

— Tá bom. Nada. — Uma pausa. — Mas se eles aparecerem, eu quebro os dois braços dele como fiz com o Andarilho.

— Aí eu ajudo. — Ele mostrou um sorriso de lado. — Ah, ótimo.

No pátio, as portas se abriram e alguns soldados entraram. Anya os reconheceu na hora.

Jerico, Ragnar e Karmona, com outros soldados de Ranking 1 atrás. Os trajes eram os novos: preto, gola alta, as espadas na cintura, tudo sem uma ruga. Andavam limpos, inteiros, sem uma cicatriz à mostra.

Pareciam mais babás do que soldados.

Era o caminho fácil andando em fila. Os escolhidos — os que ganhavam a habilidade de graça e o conselho dos Capitães, enquanto ela e o Bruto carregavam carcaça no Abismo pra ter o que comer. Anya não sentia inveja. Sentia outra coisa, mais azeda, que não sabia nomear.

Os novatos do pátio se endireitaram. Até o instrutor mudou o tom.

Jerico mandou que se alinhassem. Mas, no meio do gesto, a cabeça dele girou — e achou Anya lá na arquibancada.

Os dois se encararam por alguns segundos. E ele deu o primeiro passo na direção dela.

— Porra. — Anya baixou a cabeça. — De novo, não.

— O que foi? — O Bruto cuspiu outro caule pro lado. — Conhece eles?

— Sim.

JJerico se aproximou com os braços atrás das costas.

Anya reparou numa coisa. Mesmo sendo o maior entre os soldados de Ranking 1 e 2, ele ainda era menor que o Bruto. E não era só o tamanho. Até a presença dele era mais branda, mais leve.

Ela nunca tinha parado pra pensar havia quanto tempo o Bruto se aventurava no Abismo. Agora, com os dois quase lado a lado, dava pra ver a diferença sem ninguém dizer nada.

— Anya. — Jerico parou diante dela. — Se machucou?

Antes que ela respondesse, o Bruto respondeu por ela.

— Menos um cego no mundo, hein. — Riu, beliscando uma folha verde. — E você seria quem, mesmo?

— Jerico. Soldado de Ranking 2. — Ele nem olhou para o Bruto ao dizer. — E você?

O Bruto deu de ombros.

— Qualquer um que não seja você, obviamente. — Levantou-se e estalou o pescoço. — Anya, vou indo. Não tô a fim de ficar aqui olhando pra esses caras. Vamos pro refeitório?

Ela concordou e se levantou. Virou para sair.

Mas, antes que conseguisse, Jerico segurou o pulso dela. O rosto dele era determinado. Os olhos, não — vacilavam.

— Não quero parecer chato. — Ele falava baixo, só para ela. — Mas espero que você tenha cuidado com o que anda fazendo. Os outros repararam. Você não aparece nos treinos, nem nos desafios. Tá começando a ficar pra trás de novo. Seus irmãos…

Ela arrancou o braço da mão dele.

— Cuida da sua vida. Idiota.

Ela seguiu o caminho.

Do outro lado do pátio, Ragnar e Karmona a observavam sair. O jeito de andar. A forma de varrer o lugar com os olhos, sempre atenta, sempre pronta. Não era mais a garota que travava nos testes.

Quando ela sumiu pela porta, os dois se entreolharam.

— Você reparou também? — Karmona ainda olhava para a porta.

Ragnar assentiu.

— Sim. Ela tá diferente de antes. — Uma pausa. — Vale a pena testar.

Anya deixou o Bruto no refeitório e foi sozinha para o Abismo Pessoal.

O quarto do Jones ainda cheirava a poeira parada. Ela atravessou, e o mundo mudou de textura em volta — a luz sumiu, as paredes recuaram, e o cubo se fechou sobre ela como sempre se fechava. Fazia quase uma semana. Longe demais.

A Marionete a esperava.

A criatura sorria de orelha a orelha. Os braços todos abertos, cada mão com uma arma diferente, todas apontadas para o único alvo que ela tinha no mundo: Anya.

— Finalmente. — A voz raspava, satisfeita. Ansiosa, até. — Achei que você tinha desistido de me vencer.

Anya sacou a espada devagar e apontou de volta.

Os olhos dela não ondulavam. Não tremiam. Não havia mais nada na cabeça dela além de lutar — nem o Jerico, nem os irmãos, nem o Andarilho, nem o mestre dele. Só aquilo. Só ali ela conseguia ficar inteira, sem sobra.

— Foi um contratempo. Mas tô de volta. — Ela firmou os pés. — Vamos?

A Marionete gargalhou, e todas as mãos se ergueram de uma vez.

— Te matar sempre será um prazer, pirralha!