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Capítulo 35: Relatório

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Capítulo 35: Relatório

— Eu não achei que você fosse estar pronta em só uma semana. — O Bruto falava com ela, sentado numa cadeira do salão.

O lugar estava movimentado, os soldados pedindo comida e bebida, mas ele só jogava umas folhas verdes na boca e mastigava.

— Seus ferimentos se curaram rápido, hein.

— Como qualquer um. — Ela tocou o braço. Dava pra sentir o corte passando o dedo por cima. Ainda fundo. — Monstro é você, que só ficou descansando. Os curandeiros disseram que você ficou bom no primeiro dia. Por que ainda tá com essas faixas?

— Ah, achei bonitas e deixei. Dá um estilo maneiro. — Ergueu os dois braços. — Não acha?

— Acho que tá fedendo.

Ele riu. Anya não.

Os últimos dias tinham sido um inferno. Ela voltou a treinar com a Marionete e, por algum motivo, achou que dessa vez ia conseguir vencer. Morreu. O pescoço aberto enquanto a cabeça dela ainda vagava na luta contra o Andarilho.

A Marionete era duas vezes pior que aquele monstro do Andarilho. E não ligava a mínima pra lâmina raspando a carne de alguém mil vezes seguidas.

Quantas vezes eu já morri pra ela?

Pensou de olhos fechados. Não se lembrava.

— Mas você ficou mais forte.

Ela abriu os olhos.

— Como é?

— Só disse que você ficou mais forte desde que a gente chegou. — O Bruto não parecia impressionado, nem curioso demais. — Na verdade, eu queria falar daquele dia. Você fez umas coisas bem estranhas. Não tô a fim de cavar, já que você pediu pra eu não contar pro meu primo. Mas, se a gente vai trabalhar junto daqui pra frente, dava pra você ser sincera comigo.

Os dois se encararam um tempo. As pernas dele jogadas em cima de outra cadeira, o Bruto enfiou mais duas folhas na boca. Anya não conseguia ver malícia nas palavras dele. Só não sabia se isso a deixava mais tranquila ou menos.

— O que você quer saber?

— Ah, duas coisas. — Ele mastigou. — Primeiro: o que é essa relíquia que você tá procurando? É algum tipo de arma?

— Não. — Anya pegou um pedaço de bacon e comeu. — Meus irmãos tiveram uma missão em que precisavam procurar uma relíquia. O Comandante nunca disse mais que isso. Não sei o que é, não sei onde achar, não faço a menor ideia de onde procurar. Por isso perguntei pro Andarilho.

— A resposta dele foi meio merda, mas tudo bem.

— E a segunda? — Anya perguntou, mastigando.

O Bruto demorou pra responder. Enfiou mais uma folha na boca, olhou pros lados — pros soldados rindo nas outras mesas, pra ninguém em especial — e baixou a voz.

— Naquela hora, com o Andarilho. — Ele a encarou. — Você sumiu. Tava num lugar e, do nada, tava em outro. Não foi rápido. Foi sumir mesmo. — Uma pausa. — Eu não tô louco…

Anya parou de mastigar.

Era isso, então. A pergunta que ela vinha empurrando com a barriga desde que abriu a porta pro cara. Podia mentir. “Foi velocidade, você viu errado no meio da confusão.” Era o que diria pra todo mundo, e todo mundo engoliria, porque ninguém nunca via de perto o bastante.

O Bruto tinha visto bem de pé.

E não tinha contado pro Dex. Tava ali, de perna pra cima na cadeira, comendo folha, esperando. Sem ameaça, sem chantagem. Só esperando. Anya tentou lembrar da última vez que alguém tinha esperado uma resposta dela sem querer arrancar alguma coisa em troca. Não lembrou.

— Você não vai gostar da resposta — ela disse.

— Já não gosto de quase nada. Manda.

Ela olhou pro próprio prato. Falar aquilo em voz alta era estranho. As palavras custaram a sair, porque nunca tinham saído antes.

— Eu me movo. — Começou devagar. — Não é velocidade. Não é truque. Eu saio de um lugar e apareço em outro, e no meio não tem caminho nenhum. Só o pulo.

O Bruto parou de mastigar.

— E é pior. — Ela ergueu os olhos. — Eu não escolho pra onde. Nunca. Pode ser dois passos pra frente, pode ser em cima de você no meio de um soco. Não mando nele.

O barulho do salão continuou em volta, alheio.

— Então, naquele dia… — o Bruto falou devagar — …quando você caiu quase em cima de mim…

— Foi ele. Não fui eu.

O Bruto se recostou. Ficou um tempo olhando pro teto, digerindo. E Anya esperou a coisa que sempre imaginava pra esse momento. O recuo. O olhar mudando. A pessoa na frente dela parando de ver uma soldada e passando a ver uma coisa.

Não veio.

— Maneiro — disse o Bruto.

Anya piscou.

— Como é?

— Maneiro. — Ele deu de ombros. — Meio quebrado, mas maneiro. — Voltou a mastigar. — Explica muita coisa.

E foi só isso. Ele não perguntou de onde vinha. Não perguntou por quê. Parou exatamente onde ela precisava que parasse.

Anya não contou o resto. Não contou da Marionete, das noites, do sangue, do que ela era de verdade. Aquilo continuava sendo só dela.

Mas o pulo, ele podia saber. E era engraçado ver um brutamonte que comia folhas adoidado simplesmente descartar qualquer pergunta essencial apenas pela palavra ‘maneiro’. Era até engraçado.

E aquilo arrancou uma risada da Anya. Curta, meio enferrujada, mas uma risada.

Fazia tempo que ela não ria sem se policiar antes.

— Ah. — O Bruto se inclinou e pegou um pedaço de bacon do prato dela, sem pedir. — Acho que a gente pode se ajudar com esse negócio de… — Baixou a voz. — Relíquia. Conheço um cara. Que conhece outro cara. E esse outro cara conhece um cara que…

— Fala logo.

O Bruto riu.

— Ele pode saber mais que a gente sobre isso tudo.