Capítulo 36: Casa de Informação
Capítulo 36: Casa de Informação
O arco dourado cuspiu os dois na rua do décimo primeiro.
Depois do escuro do Abismo lá embaixo, a cidade sempre batia de uma vez: a luz das tochas, o cheiro de comida e fumaça, o barulho de gente demais falando línguas demais. Anya já conhecia o caminho. O Bruto ia na frente, abrindo passagem com os ombros pela multidão, cumprimentando meio mundo com a cabeça. Anões. Um par de criaturas escamadas. Um sujeito alto de orelhas pontudas vendendo alguma coisa numa banca. Todos pareciam conhecer o grandalhão. Ninguém olhava pra Anya duas vezes, e ela preferia assim.
— É por aqui — disse o Bruto, virando numa viela mais estreita, longe da rua principal.
A viela descia. A música e o mercado ficaram pra trás, e o que veio no lugar foi silêncio. Um silêncio caro, de rua onde ninguém quer ser visto. As casas ali eram fechadas, sem placa, as janelas cobertas por dentro. Anya reparou que não tinha mais ninguém rindo. Quem andava por ali andava rápido, de cabeça baixa.
— Casas de Informação — o Bruto explicou, sem ela perguntar. — Aqui em cima, saber das coisas vale mais que Jurax. Onde tá cada andar, quem tomou o quê de quem, onde vão ser as próximas Chamadas. Quem segura um chefe, quem tá pra perder o dele. — Cuspiu um caule no chão. — Se existe alguém que sabe de relíquia, tá numa rua igual a essa.
Pararam diante de uma porta igual a todas as outras: sem nome, madeira escura, uma corrente frouxa pendurada por fora. O Bruto bateu três vezes, parou, bateu mais uma. Uma senha.
A porta abriu uma fresta. Um olho apareceu, mediu o Bruto — e sorriu.
— Ora, ora. O primo do Dex. — A porta abriu inteira. — Achei que uma daquelas bestas tinha finalmente comido você.
O homem era baixo, magro, os dedos manchados de tinta e uma lupa presa numa corrente no pescoço. A casa atrás dele era papel do chão ao teto: prateleiras lotadas, maços amarrados com barbante, mapas pregados uns por cima dos outros. Cheirava a poeira e a vela queimada.
— Sisco — disse o Bruto, e apertou o antebraço do homem no cumprimento. — Preciso de uma coisa.
— Você sempre precisa. — Sisco riu. Depois os olhos dele passaram pra Anya, e o sorriso morreu no meio do rosto. — Quem é essa ai?
— Está comigo — disse o Bruto. — Pode falar na frente dela.
— Não posso, não. — Sisco não tirava os olhos de Anya. Andou de lado, sem dar as costas pra ela. — Eu leio gente faz muito tempo, garota. É o meu ofício. Bato o olho e sei se é soldado, se é ladrão, se tá com fome, se tá mentindo. — Apertou as pálpebras atrás da lupa. — Bato o olho em você e não leio nada. Você é um… borrão. E eu não gosto de borrão dentro da minha casa.
Anya segurou o olhar dele sem piscar.
— Então não olha.
— Anya. — O Bruto suspirou.
— Ela é sempre assim? — Sisco perguntou, sem virar as costas.
— Pior — disse o Bruto. — Mas a gente vai, e não contar pra ninguém. As duas coisas que você mais gosta, hein.
Sisco ficou um tempo mastigando aquilo. Os olhos iam do Bruto pra Anya e voltavam, calculando. No fim, deu de ombros e saiu da frente da porta, abrindo espaço pra passarem — mas o jeito como deixou a mão na moldura, sem baixar a guarda de vez, dizia que a conta ia sair mais cara só pela presença dela.
— Entra logo, antes que eu mude de ideia. — Apontou o queixo pra Anya. — E você, fique onde eu te vejo, entendeu?
Lá dentro, ele acendeu mais uma vela e puxou um banquinho pra ele. Não ofereceu nenhum pra ela.
— Fala. O que o primo do Dex quer que valha eu aturar um borrão na minha sala.
— Relíquia — disse o Bruto.
A mão de Sisco parou no ar, a vela ainda inclinada, um pingo de cera caindo na mesa.
Por um segundo, ele não disse nada. E, pela primeira vez desde que a porta tinha aberto, não estava mais olhando pra Anya como um problema. Era pra ele agora.
— Garoto, vai precisar de mais algumas palavras, ou eu te mando pra fora sem nem saber o que vai cair na cabeça de vocês dois. Agora, fala.
— A gente só quer saber o que é — respondeu Anya. — Algumas pessoas morreram por causa disso. E nós… não. Eu… — hesitou. — Eu quero saber o que é.
Sisco a encarou de novo e balançou a cabeça, chocado.
— Não fazem a mínima ideia de onde tão se metendo. Impressionante. Mas não culpo vocês. — Suspirou e jogou o corpo pra trás, relaxando. — Se não vieram atrás dela, ótimo. Menos pior. Vocês só querem saber do que se trata. Mas se perguntarem isso pra qualquer um lá fora, cortam a cabeça de vocês. O que acharam que ia acontecer?
O Bruto deu de ombros, como sempre fazia quando não sabia a resposta.
— Uma Relíquia é a manifestação de uma habilidade. Um poder que não é regido pelos vivos. — Sisco falava mais devagar agora. — Existem várias. Mas não aqui neste andar, nem nos que vocês chamam de seguros. É bem mais pra cima. Por isso o pessoal se arrisca lá em cima. — Coçou o queixo. — Agora, o que elas são de verdade, isso eu não saberia dizer com certeza. Pra isso vocês precisariam falar com…
— O Pequeno Mago — completou o Bruto, mais rápido. — Eu sei. A gente veio porque não tem como chegar nele. Tamo preso no 11º.
Sisco o encarou. Depois assentiu.
— Se não podem subir, vão querer que ele desça. Correto?
— Acho que é o plano. — O grandalhão nem disfarçava. Anya se pegava impressionada com isso: o Bruto nunca mentia, nunca escondia. Era limpo e verdadeiro com quem quer que estivesse na frente dele. O oposto dela em tudo. — O que a gente precisa fazer?
— O que você acha? A única coisa que faz o Pequeno Mago descer de andar é juntar algo que ele queira. E aqui, neste andar, vocês vão ter que caçar algo muito, muito bom mesmo.
Sisco esticou o braço pro lado. A estante vibrou, e um dos livros voou pra mão dele. Abriu direto numa página e marcou a linha com o dedo.
— Se não me falha a memória… — correu o dedo pelo texto. — Todo andar tem suas áreas nobres e suas áreas tomadas pelos demônios. Aqui no 11º não é diferente. Na parte infestada daqui vivem os Diamantes Brutos, aquelas criaturinhas fedorentas. Do corpo deles sai o material que forja a armadura do andar 25. É armadura boa, cara, dessas que gente de ranking alto paga os olhos da cara pra ter. — Ergueu os olhos. — Mas ninguém quer o trabalho sujo de caçar esses fedorentos de graça
Fechou o livro.
— Já sabem o que fazer? — perguntou, encarando os dois.
— Matar os demônios — disse o Bruto.
— Forjar armaduras — Anya seguiu a linha.
Os dois se encararam. E, no fim, sorriram.
— Parece que é a informação que vocês precisavam. — Sisco jogou o livro pro lado, e ele voltou flutuando pra estante, no mesmo lugar de antes. — Agora, Bruto, a forma de pagamento. Vai ser na conta do Dex?
O grandalhão se levantou, rindo.
— Com certeza. Pode cobrar dele sem dó nem piedade. Ele merece.
Os dois se cumprimentaram de novo, segurando o antebraço um do outro, e sorriram.
— É sempre um prazer fazer negócio com os Red Hunters. — Sisco lançou um olhar pra Anya. — Se cuida, borrão.