Capítulo 37: Paredes
Capítulo 37: Paredes
O mapa estava aberto em cima da mesa torta do salão, as pontas seguradas por dois canecos e uma faca.
Anya se debruçou sobre ele. O Bruto tinha desenhado, meio torto, a parte do 11º que ninguém desenhava: a área infestada, lá na beirada, onde a cidade acabava e os demônios começavam. Um círculo grande marcava o ponto.
— O Sisco disse que os Diamantes Brutos ficam aqui. — O Bruto apontou, baixando a voz. — Perto do fim da zona. Não é longe, mas é feio. A gente entra, mata o quanto der, tira o material e…
— Tira o material e o quê?
A voz veio de trás.
Anya não se virou depressa. Se fizesse isso, claramente se colocaria como culpada. Virou devagar e encontrou o Ione encostado na quina da parede, os braços cruzados, o corte no pescoço já quase fechado.
Fazia quanto tempo que ele estava ali, ela não sabia. E não saber era o problema.
— Ione — ela disse.
— Ouvi “caçada” e “material”. — Ele se descolou da parede e chegou mais perto do mapa, os olhos correndo pelo círculo que o Bruto tinha feito. — Vocês tão presos no 11º por ordem do Dex. Então o que é isso?
O Bruto abriu a boca.
— A gente vai…
— Levantar Jurax — cortou Anya, no mesmo instante, sem pressa na voz. — Pra hospedagem.
Ione ergueu os olhos do mapa pra ela.
— A hospedagem.
— Você já olhou pra esse lugar? — Ela apontou com o queixo pra parede rachada atrás dele. Pro chão remendado. Pra goteira que ninguém consertava. — O Leonidas mesmo disse que umas paredes novas cairiam bem. O Diamante Bruto dá material de armadura. E armadura vende. A gente pega eles no 11º, que é onde a gente pode ir, forja, vende, e o dinheiro entra pra consertar essa espelunca antes que o teto caia na cabeça da gente.
Era verdade o bastante pra soar verdade. Dava pra provar cada palavra. E nenhuma delas era o motivo real.
O Ione ficou calado, olhando pra ela. Aquele olhar de sempre — sistemático e frio. Qualquer coisa que fosse colocado a frente dele receberia esse olhar. Anya sustentou.
Do lado, o Bruto tossiu.
— É. — O grandalhão coçou a nuca. — Paredes. Pra hospedagem.
Cala a boca, Bruto.
Mas o Ione não estava olhando pro Bruto. Estava olhando pra ela. E, por um segundo longo demais, Anya teve certeza de que ele não tinha engolido nada.
Então o Ione deu de ombros.
— Bom plano. O Leonidas vai gostar. — Virou pra sair. Parou. — Só… tomem cuidado com o que pescam lá na beirada. Nem todo material deles é bom. Precisa… selecionar melhor.
E foi, deixando a frase largada no ar.
Anya olhou pro Bruto. O Bruto olhou pra ela.
— Ele comprou? — o Bruto sussurrou.
— Não — ela disse. — Não comprou.
— Ele é um cara difícil, mas tenho certeza que vai dar certo. A gente só precisa saber onde é certo. — Bruto puxou o mapa sem deixar nada cair e enrolou. — Se está pronta, a gente vai agora. Pode ser?
— Só mostrar o caminho. Minha mão tá coçando já. — E realmente estava. Apanhar da Marionente a deixava ansiosa pra descontar em outra coisa, e infelizmente não tinha o Idiota pra suprir essa vontade.
Anya sentiu na virada da última rua — um fedor doce e podre, de ovo esquecido no sol, que ia ficando mais forte a cada passo. Ali a cidade acabava de vez. As casas davam lugar a pedra nua, as tochas rareavam, e o chão descia pra uma clareira baixa, cercada de rochedos, onde a luz mal chegava.
A área infestada.
— Puta que pariu. — O Bruto torceu o nariz. — Não mentiram na parte do fedor.
Anya se agachou na beira do rochedo e olhou pra baixo.
Lá estavam. Dezenas deles, espalhados pela clareira, remexendo a terra com as mãozinhas. Diamantes Brutos. Não eram grandes — do tamanho de um cachorro, talvez —, mas o corpo era coberto de placas duras, meio translúcidas, que pegavam o pouco de luz e devolviam embaçado. Era dali que se tirava o material, então: daquele couro de cristal cru que forrava os bichos.
— Feios pra caralho — disse o Bruto, agachando do lado dela.
— Feios e lentos. — Anya já tinha reparado nisso. Os movimentos deles eram moles, sem pressa, sem malícia. Depois das noites com a Marionete, aquilo mal parecia perigo. — A gente entra, mata, junta o material e sai. Antes de o fedor grudar na nossa roupa.
— É. — O Bruto estalou os dedos. Depois virou pra ela, e um sorriso abriu na cara dele. — Ei. Aposta.
— Não.
— Quem matar menos paga a comida de uma semana.
— Não.
— Quem matar menos tira o material. — Ele fez uma careta. — De dentro deles. Com a mão.
Anya parou.
Aquilo mudava a conta. Enfiar a mão na carcaça fedida de vinte bichos — ela pagaria de bom grado pra não fazer isso.
— Fechado — ela disse.
— Sério? — O Bruto pareceu surpreso que tinha funcionado. — Beleza. Então…
Lá embaixo, um dos Diamantes Brutos ergueu a cabeça sem olhos na direção deles. Depois outro. Depois a clareira inteira, de uma vez, todas as cabeças viradas pra eles no mesmo instante.
O fedor ficou mais forte. Eles começaram a subir.
— Já vou avisando. — O Bruto se levantou e trincou o pescoço. — Eu não perco.
Anya puxou a Bug da bainha. A lâmina do Krall pegou o brilho embaçado dos bichos que subiam.
— Vamos ver se isso é verdade mesmo.
E pulou do rochedo pra dentro da clareira. Primeiro.
Em questões de segundos, eles já estavam competindo.
— Seis! — gritou o Bruto, do outro lado da clareira.
Um Diamante Bruto voou pelo ar e se espatifou numa pedra, o couro de cristal rachando. O Bruto já partia pro próximo, os punhos abrindo as carcaças no soco.
— Quatro — disse Anya, e virou cinco.
A Bug entrava e saía limpa. Os bichos eram lentos, moles, previsíveis — ela lia cada investida antes de a criatura decidir fazê-la. Girava, cortava a junta entre as placas, seguia em frente. Cinco virou seis. Seis, sete. O fedor era insuportável e ela nem ligava mais.
— Tô ganhando! — o Bruto berrou.
— Não tá.
— Tô empatado, então. — Ele riu, esmagando outro. — Nove!
Merda. Ele tinha virado o jogo.
Um bando se fechou em volta dela, seis ou sete de uma vez, e Anya recuou pra não ser cercada. Ia perder terreno. Ia perder tempo. Ia perder a aposta.
— Ei! — o Bruto gritou, no meio da própria matança. — Usa aquilo! O pulo! Agora é a hora, não é?
Anya travou por um segundo. Foi reflexo. Ela vinha se questionando se algum dia sua cabeça não pudesse ocultar ele: esconde, esconde, não deixa ninguém ver. A mão dela já ia negar, a boca já ia dizer não.
E então ela lembrou.
Não tinha ninguém ali. Só o Bruto. E ele sequer ligava para isso. Pra ele, era só… diversão.
Pela primeira vez, não havia o que esconder.
Anya prendeu a respiração no meio do cerco e deixou o Erro puxar.
O nada. O puxão. E o mundo se remontou três metros à frente — bem no meio do bando maior, cercada de todos os lados, o pior lugar possível pra cair.
Perfeito.
Ela abriu os olhos e girou a Bug num arco completo, sem precisar mirar, porque tinha alvo em toda direção. Um, dois, três, quatro caíram no mesmo movimento, o couro de cristal saltando em lascas. Ela nem contou direito. Só cortou.
Quando o pó baixou, sete Diamantes Brutos estavam no chão em volta dela. Anya ofegava, mas de pé. Não tinha desmaiado. Não tinha nem tremido.
E foi estranho o que ela sentiu — não o alívio de ter escapado, mas outra coisa, mais leve. Usar aquilo na cara de alguém e não ter que engolir depois. Não ter que inventar desculpa, nem sumir, nem checar quem viu. Só usar. Como se fosse dela mesma.
Do outro lado, o Bruto tinha parado de lutar só pra assistir, a boca aberta num sorriso enorme e os dois braços erguidos, comemorando.
— TÁ VENDO?! — ele gritou. — MANEIRO PRA CARALHO!
Anya olhou pros bichos caídos. Depois pra própria mão, firme no cabo.
E, sem querer, sorriu.
— Treze — ela disse. — Tô ganhando.
— Ah, qual é!