Capítulo 38: Um Pouco de Jurax
Capítulo 38: Um Pouco de Jurax
Quando os dois terminaram de arrancar o minério de dentro dos Diamantes Brutos, voltaram pra hospedagem sem muita pressa. Cada um carregava duas sacas amarradas na cintura. Só pararam quando se jogaram nas cadeiras.
Exaustos, botaram as pernas pra cima e afundaram no encosto.
— Olha só. — A voz do Leonidas chegou até eles. — Finalmente voltaram. E… tão acabados. O que aconteceu?
— A gente tava caçando uns monstrinhos do lado de fora da zona segura. — O Bruto nem levantou a cabeça, o pescoço largado no encosto da cadeira. — Agora precisa vender o minério pro cara certo. Conhece alguém?
— Minério? — O Leonidas já tinha posto quatro panelas em cima da mesa redonda, a maior do salão. — Tem os ferreiros LogBato. Mas eles não compram a varejo. Vão ter que fazer contrato, se eu bem me lembro.
Anya aceitou um copo de água e bebeu com vontade. Deixou o Leonidas encher de novo. O Bruto pegou o dele, jogou a água na própria cara e devolveu o copo vazio.
— A gente quer fazer diferente — disse Anya. — Vender pra quem tá no andar 25. Disseram que é um minério que ninguém gosta de coletar.
— Ah, tão fazendo oferta e procura. — O Leonidas foi distribuindo os pratos, um garfo pra cada um. — Tenho um conhecido lá em cima, nesse andar. Posso perguntar se ele indica alguém. Mas… vocês não tão presos no 11º?
— Por isso mesmo não dá pra ir — respondeu o Bruto. — Se desse, era mais rápido.
— Não tem por que irritar o Dex mais ainda. — O Leonidas pôs diante dos dois uma canja com uma farofa roxa por cima, esquisita e cheirosa. — Peço pro meu conhecido descer, e vocês conversam com ele aqui. Por enquanto… — botou a mão em concha na boca e virou a cabeça pro lado, a voz subindo: — Tá na mesa, pessoal!
As portas se abriram quase todas ao mesmo tempo. Os Red Hunters que moravam ali vieram saltando do segundo andar.
Num segundo, silêncio. No outro, um monte de voz por cima de voz, todo mundo discutindo quem tinha chegado primeiro.
Anya ainda não tinha se acostumado com aquela loucura. O barulho, os empurrões, a briga besta pela concha. Do outro lado da mesa, o Bruto já estava no meio deles, gritando mais alto que todos pra pegar a canja antes dos outros.
Ela ficou olhando um tempo. Sem entrar. Só olhando.
Fazia muito tempo que ela não via uma mesa cheia.
O conhecido do Leonidas era um elfo.
Chegou dois dias depois, descendo com o Leonidas, alto e magro, as orelhas pontudas saindo de um cabelo claro preso atrás. Vestia bem demais pra quem tinha acabado de atravessar o Abismo — sem uma mancha, sem uma ruga. Sorria antes mesmo de saber com quem ia falar.
— Norman — disse o Leonidas, meio sem jeito. — Ele mexe com minério lá pro 25. É… esperto.
— Esperto é pouco. — Norman puxou uma cadeira sem pedir e sentou, cruzando as pernas compridas. Os olhos bateram nas sacas em cima da mesa e brilharam. — Ora, ora. Diamante Bruto. — Pegou uma lasca, girou na luz, cheirou, e fez uma careta elegante. — Meio impuro, coitado. Mal coletado. Vocês são novos nisso, dá pra ver.
— A gente coletou certo — disse o Bruto, franzindo a testa.
— Claro, claro. — Norman largou a lasca de volta. — Pelo estado, eu pago… trinta Jurax a saca. É favor, viu? Ninguém mais compra material tão verde. Mas eu gosto do Leonidas.
O Bruto olhou pra Anya. Anya olhou pras sacas. Trinta parecia pouco, mas ela não fazia ideia de quanto era muito. Nunca tinha vendido nada na vida. Só matado coisa.
— Trinta… — o Bruto coçou a nuca. — Sei lá. Parece justo? Você que entende disso.
Não fala assim , Anya pensou, tarde demais. Nunca diz pra ele que ele é quem entende.
Norman abriu um sorriso com dente demais.
— Então fechamos em trinta. Que bom negociar com gente rápida. — Já puxava uma bolsa, contando as moedas devagar, gostando de cada uma. — Trinta e cinco, até, se você me arrumar mais três sacas na semana que…
— Cento e vinte.
A voz veio da escada.
O Ione descia sem pressa, o corte no pescoço já uma linha branca, mastigando um palito. Não olhou pro Bruto nem pra Anya. Foi direto no elfo.
— Diamante Bruto do 11º tá em falta desde a última Chamada. O LogBato pagou noventa a saca semana passada, e o LogBato paga mal. Você revende no 25 por uns duzentos, no mínimo. — Parou ao lado da mesa e enfim encarou o Norman, sem tirar o palito da boca. — Cento e vinte. Ou pega o barco de volta com a bolsa cheia e as mãos vazias.
O sorriso do Norman não caiu. Só mudou. Ficou menos de caçador e mais de caça.
— Cento e vinte é… agressivo.
— É honesto. Coisa que você não conhece. — O Ione puxou uma cadeira e sentou. — Cento e vinte. E eu não conto pra ninguém no 25 que você tentou passar a perna em dois soldados do Dex. Reputação é cara aí em cima, não é, Norman?
Silêncio. Norman olhou pras sacas. Olhou pro Ione. Contou alguma coisa na cabeça, e a conta não fechou pro lado dele.
— Cento e vinte — disse, por fim, o sorriso agora de plástico. — Um prazer, como sempre.
Quando o elfo saiu pra buscar o pagamento, o Ione se recostou e olhou pros dois. Primeiro pro Bruto. Depois pra Anya. Balançou a cabeça devagar.
— Trinta. — Riu, curto e sem dó. — Vocês iam vender por trinta. Eu deixo vocês cinco minutos sozinhos e um elfo quase leva o couro de vocês junto com o dos bichos.
— A gente ia negociar — resmungou o Bruto.
— Você ia agradecer enquanto ele te roubava. — O Ione cuspiu o palito na mesa. — Da próxima, me chamam antes. Ou vão falir sozinhos uma hospedagem que já tá caindo.
E ali, pela primeira vez, Anya achou que ele tinha dito “da próxima” de propósito. Estava claro que qualquer coisa que envolvesse Jurax ou a Hospedagem, ele precisava estar no meio. E mesmo que quisesse fazer qualquer compra para a hospedagem, mesmo de mentira, Ione teria que ficar sabendo.
Era pior do que Anya imaginava. Pior ainda seria, talvez, deixar o Bruto na frente das negociações de novo.