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Capítulo 39: Frente da Academias

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Capítulo 39: Frente da Academias

Anya tinha deixado Bruto no 11º andar e voltou para Academia no final da tarde. Estava pronta para enfrentar a Marionete mais uma vez. Da última vez, as duas lutaram até que Anya não suportasse mais que seu Erro não surtisse efeito nenhum nela.

A Marionente se adaptou em segundos, como se aquilo nem fizesse efeito na luta, mexendo os braços e pernas em angulos para pegá-la mesmo não sabendo para onde iria. E isso a deixou pensativa no meio da batalha, foi quando recebeu um sermão forte:

— Se está questionando suas ações, não devia estar aqui. — A Marionete abaixou os braços e deu as costas, decepcionada. — Pirralhos já são irritantes por natureza, ai tem você, uma pirralha idiota. Não volte até ter certeza do que está querendo.

Não que ela fosse demorar para voltar, mas nos últimos dias, desde que tinha enfrentado os Diamantes Negros, o Erro estava consolidado no seu movimento. Ela descobriu algo interessante. Se usasse a habilidade prendendo a respiração, ela não perderia completamente as forças.

Na batalha contra o Andarilho, ela fez isso a primeira vez sem saber. E foi o que a salvou algumas vezes.

Ela atravessou o portão no fim da tarde, a luz já baixando, o pátio meio vazio. Ainda tinha o cheiro do Abismo grudado nela — pedra, fumaça, o resto do fedor dos Diamantes Brutos que a água não tirou. Queria só chegar no quarto, largar as coisas e esperar a noite.

— Anya.

Ela parou. Já conhecia aquela voz.

Karmona vinha atravessando o pátio, o traje preto dos escolhidos sem uma ruga, o sorriso pronto antes de chegar. Ragnar vinha um passo atrás, calado, do jeito dela já tinha visto: o que fala pouco e olha muito.

— A gente tava te procurando — disse Karmona, parando na frente dela. — Você anda difícil de achar.

— Ando bem ocupada.

— Foi o que a gente reparou. — O sorriso não vacilou. — Justamente por isso. Você mudou, Anya. Todo mundo comentou. A gente notou que agora você tem treinado com outras pessoas, ignorado os treinos dos mais novos.

Anya não disse nada. Os dois pareciam querer uma resposta imediata dela. Não deu.

— A gente treina à noite — Karmona continuou. — Eu, o Ragnar, mais uns. Longe dos olhos, sem instrutor no nosso pé, sem os novatos atrapalhando. Só quem vale a pena. — Inclinou a cabeça. — Achamos que você ia se encaixar.

Ali estava. O convite vinha embrulhado bonito, mas Anya sentia o peso de dentro. Ninguém do topo do ranking procura uma soldada de baixo por gentileza. Eles não queriam treinar com ela. Queriam ver ela de perto.

E a noite era a única hora que ela não podia dar a ninguém.

— Não posso — disse Anya. — Já tenho compromisso.

Karmona estranhou a palavra na boca dela.

— Compromisso.

— À noite. Todas as noites.

— E que compromisso é mais importante que treinar com a gente?

— Um que é meu — disse Anya. E foi só isso.

Ragnar, atrás, falou pela primeira vez. Uma frase só, baixa, sem tirar os olhos dela.

— Deixa ela, Karmona. — Uma pausa. — Ela vai mudar de ideia.

Não era ameaça.

Anya passou pelos dois sem responder, o coração mais rápido do que ela queria admitir. Não tinha dito nada demais. Tinha recusado, e recusar era o certo.

Mas, ao virar o corredor, entendeu o problema.

Recusar o topo do ranking não passava despercebido. Nunca. Ela tinha fugido de um olhar e ganhado dois. A merda dos soldados de ranking mais alto esperando que você faça o que eles querem só porque querem.

No Abismo, com os outros, nada disso importava. Ela tinha derrotado o Andarilho, que pelas palavras de Leonidas, era bem mais difícil do que aparentava, e agora tinha voltado para receber ordens.

Era tão… angustiante.

Quando virou o corredor na direção do seu quarto, deu de cara com Jimmy. O Sargento vinha caminhando dando uma olhada nas portas, mas quando notou Anya, mudou para um sorriso na hora.

— Anya, que surpresa. Eu estava mesmo te procurando.

Ela o recebeu com um aceno modesto.

— Estava trabalhando, senhor. Como posso ajudar?

— Vim te dar uma notícia um pouco ruim. — Ele escondeu um pouco da vergonha ao coçar o pescoço e desviar o olhar. — O Comandante decidiu excluir as matriculas dos seus irmãos. E seus quartos vão ser entregues para outros soldados. Por favor, não fique brava.

— Eu não estou. — O coração dela, no entanto, ficou pesado. — Eu posso ficar com o quarto do Jones, senhor? Eu tenho ficado nele desde que eles se foram, e prefiro. Parece que eles ainda estão comigo, de alguma maneira.

Cada objeto deixado ainda ficava escondido dentro de sua roupa, mas ele não precisava saber.

— Claro, vou transferir para seu nome. Mas, obrigado por isso. Achei que teríamos problemas em resolver isso.

— Não. — Anya fincou um sorriso mentiroso no rosto. — Está tudo bem. Vou entrar agora.

— Claro, claro.

Assim que Anya passou por ele e entrou, recostou as costas na porta, deslizando e ficando no escuro, ouvindo o som dos passos do Sargento indo embora. Era isso. Eles se foram. Anya não podia esquecer disso.

— Não temos tempo para nenhum tipo de maluquice do Astrax. — Na manhã seguinte, Anya encontrou Leonidas e Joana tirando sacos gigantes de entulho do meio do salão. A garota se juntou, puxando alguns enquanto ouvia. — Ele quer ir para o 18º para caçar os Cariontes.

— E o que são eles?

— São criaturas marinhas. A gente pode usar os ossos deles para criar armaduras para combater alguns monstros do andar 25. — Leonidas jogou duas sacas no ombro e saiu andando. Joana puxava uma e com dificuldade. — Só que os Cariontes são bem agressivas e são um cardume. Eles nunca estão sozinhos.

— Por que ele quer fazer isso mesmo? — perguntou Anya.

Joana quem respondeu, limpando a testa:

— Porque ele viu vocês pegando os minérios dos Diamantes Negros e quis fazer o mesmo. Tem muita coisa no andar 25, e a boa parte deles tem garras afiadas. Por isso eles precisam de armaduras resistentes, mas maleáveis. Os ossos do Carionte ia cair bem.

— Parece um bom plano — Anya foi sincera.

Do segundo Andar, Ione apareceu com uma expressão bem estressada. Os olhos meio vermelhos e um deles parecia até vibrar. Era estresse acumulado, talvez?

— Bom plano? — Até a voz dele era carregada de irritação. — Eu fiquei uma noite inteira para poder usar o Jurax que vocês conseguiram, separei certinho e agora ele quer me dar mais trabalho? Quando ele chegar aqui, a primeira coisa que vou fazer é pedir pro Dex dar uma surra nele de novo.

Leonidas deu uma risada.

— Ah, como se você não gostasse do dinheiro, seu mercenário.

— Eu gosto. — Ione estalou os ombros e depois as costas, se espreguiçando todo. — Mas não rápido assim. Vocês vão voltar para pegar mais daqueles minérios, Anya?

Ela deu de ombros.

— Bruto sumiu. Não sei pra onde ele foi.

— Sumiu? — A expressão irritada mudou de novo. — Droga de garoto. Dex — berrou indo na direção da porta do líder dos Red Hunters. — Precisa colocar uma coleira no seu primo, ouviu? Uma coleira. Aquele garoto some toda hora.