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Capítulo 04: Abismo Pessoal

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Capítulo 04: Abismo Pessoal

Jerico passou por Anya encarando o portão da Academia naquela manhã. Anya o percebeu, mas nada disse. Era a saída de seus irmãos; por isso, mesmo que eles não se despedissem diretamente, ela não poderia sair dali até que sumissem no horizonte.

O portão era largo o suficiente para passar três cavalos lado a lado, e ainda assim parecia pequeno naquela manhã. Além dele, a estrada de terra batida cortava a vegetação densa que separava Antares do resto do mundo. Antares era uma cidade militar grande o suficiente para abrigar mais de vinte mil soldados — quarenta e dois quarteirões, três pátios de treino, duas forjas, um hospital permanente — mas não era nada comparada à Capital. O reinado de Xantares, um dos sete reinos, era apenas uma parcela do que de fato compunha o continente, e seus irmãos estavam indo além desse limite, para as áreas onde ninguém se aventurava só por gostar.

Anya ficou imaginando o cheiro. A floresta fechada, o deserto de areia vermelha que ela havia cruzado uma vez em missão de reconhecimento, os rios de correnteza fria que chegavam às coxas mesmo no verão. Como seria dessa vez? O que encontrariam que ainda não tinha nome?

Se fosse uma missão difícil, eles teriam dito. Repetiu isso para si mesma mais uma vez. Tinha certeza disso. Quase toda a certeza.

— Treino em vinte minutos — anunciou Jerico, passando por ela de novo, dessa vez no sentido contrário, com uma espada de madeira já na mão. — Vamos?

— Sim. — Ainda manteve o olhar no horizonte por mais alguns segundos. Depois recuou um passo, girou e voltou com ele.

O pátio tinha aquele cheiro de manhã adiantada — terra úmida, suor antigo impregnado na madeira dos suportes de arma, e o leve ranço metálico que o ar carregava perto das forjas. Anya e Jerico pegaram as espadas de madeira e foram para o centro, onde o chão estava mais batido e a grama havia desistido de crescer fazia tempo.

Os soldados mais velhos observavam de longe. Alguns encostados nas colunas do corredor coberto, outros de pé com os braços cruzados, carregando seus rankings como se fossem parte do uniforme. Anya detestava aquele tipo de olhar — o que avalia sem intenção de aprender nada, só de confirmar o que já decidiu que pensa.

Ignorou. Focou.

Forçou o bloqueio de Jerico, empurrando a lâmina para a direita com um giro rápido de pulso — exatamente onde queria que ele fosse — e usou um chute baixo, acertando a lateral da perna dele antes que ele reequilibrasse. A espada já estava no pescoço dele quando ele processou o movimento.

Ele reagiu defletindo a arma dela para cima, com força suficiente para entorpecer o braço, e desceu a própria arma em diagonal para terminar.

Anya saltou — um salto curto, lateral, copiado de Nisha depois de assistir à mesma sequência pelo menos mil vezes — e a arma de Jerico cortou o ar onde ela havia estado. A mão livre encontrou o colarinho dele, e a pressão na panturrilha veio antes que ele pudesse reajustar o peso.

Depois disso, os dois simplesmente foram. Golpe, desvio, bloqueio, reposicionamento. As armas de madeira colidindo com um estalo seco que ecoava no pátio. Os observadores começaram a comentar entre si, e Anya notou isso num canto da mente, sem deixar que importasse. O suor escorria pela têmpora, pelo queixo, encharcava a gola do uniforme.

Quando pararam, foi porque os dois chegaram ao mesmo limite ao mesmo tempo.

— Acho que já está bom por hoje. — Jerico levantou a espada na altura da cabeça e a abaixou, o gesto formal de encerramento. Depois olhou para os próprios dedos calejados, levemente avermelhados nas articulações. — Preciso me preparar para os treinos do meu pai.

— Fracote. — Anya arfava, mas sorriu. — Mais um duelo?

— Hoje, não.

Ele esticou as costas com um esforço que fez duas vértebras estalarem, ajeitou os ombros, os braços. Então fechou os olhos por alguns segundos. Anya observou sem comentar: o batimento acelerado pelo esforço desacelerou visivelmente, os músculos da mandíbula relaxaram, os ombros desceram. Era sutil, mas ela conhecia o corpo de um lutador bem o suficiente para notar a diferença.

É uma habilidade Física. Ela piscou. Ele aprendeu outra?

— Meus irmãos e meu pai estão me ajudando porque vou fazer o teste de Ranking na semana que vem. — Jerico guardou a espada no suporte enquanto Anya se aproximava. — Você devia focar em aprender algumas técnicas de Espada Pesada, sabia? Com sua base de agilidade, o contraste seria difícil de prever.

— Quer me dar dicas agora? — Ela deixou a espada no suporte ao lado da dele. — Ontem você disse que só me ensinaria se as minhas pernas estivessem quebradas.

— Me deu vontade de fazer caridade aos necessitados. — Ele riu.

— Muito generoso da sua parte.

Os dois se afastaram do pátio central. Alguns duelos ainda aconteciam ali, mas a energia havia mudado — menos intensidade, mais rotina. Os veteranos caminhavam por entre os grupos sem muito interesse, o olhar daqueles que já viram tudo e estão esperando que alguém prove o contrário.

Jerico parou primeiro.

Anya entendeu o motivo antes mesmo de olhar para o centro.

Karmona e Ragnar Sion estavam lutando.

As espadas de madeira dos dois pareciam se comportar diferente das dos outros — não quebravam, dobravam, absorvendo o impacto como se o material entendesse a força aplicada e decidisse redistribuí-la. Anya já vira esse fenômeno antes e nunca conseguira uma explicação satisfatória. Madeira não fazia isso. Madeira comum, pelo menos.

Karmona era a segunda no Ranking dos soldados. Ragnar, o primeiro. Mas assistir aos dois em duelo era menos uma questão de posição e mais uma questão de linguagem — eles falavam uma língua da qual Anya ainda mal aprendia o alfabeto.

Os movimentos saíam de ângulos que não pareciam anatomicamente óbvios. Ragnar atacava de baixo para cima com o pulso torcido de um jeito que deveria limitar o alcance, mas que, de alguma forma, o amplificava. Karmona bloqueava sem usar força direta — desviava, redirecionava, usava o próprio momentum do oponente como parte da resposta. As passadas dos dois eram curtas e rápidas, quase sem som, como se os pés encontrassem o chão só o tempo suficiente para impulsionar o próximo movimento.

Anya ficou olhando com uma mistura de admiração e algo mais difícil de nomear. Não era inveja, exatamente — era mais a consciência aguda de uma distância. A sensação de estar olhando para um horizonte que existe de verdade, que não é ilusão, mas que também não se aproxima por mais passos que você dê.

Já tentei ganhar deles mais de mil vezes esse ano, ela pensou, lembrando do que havia dito para Jerico. E ainda não entendo direito de onde os golpes partem.

— Eles estão em outro nível — comentou Jerico ao lado dela, a voz levemente cansada, como alguém que reconhece algo que preferia não ter que reconhecer. — Peguei sua posição no Ranking, mas esses dois são outra coisa completamente.

— O Krall diz que eles foram criados para ser soldados. — Era o comentário que Krall usava quando alguém tinha um senso de batalha tão incorporado que parecia anterior ao treino — onde a luta era instinto, e não habilidade. — Não é uma crítica. É quase um elogio.

Jerico assentiu devagar, sem tirar os olhos do duelo.

— Ontem à noite, a Karmona veio até mim. Pediu um duelo.

Anya virou para ele, animada de verdade.

— Isso é bom. Ela não pede duelo pra qualquer um.

— Se ela não tivesse me vencido em três movimentos, eu concordaria. — A expressão de Jerico estava afundada num breu leve, aquele tom específico de quem perdeu rápido demais. — Não gosto de ser derrotado sem saber como. A velocidade do movimento era estranha. Não era só rápida. Era como… se ela já estivesse no lugar certo antes de eu decidir para onde ia.

Anya olhou de volta para Karmona no pátio. Havia algo no que Jerico descrevera que ela reconhecia — não da própria experiência, mas de assistir. Karmona não reagia ao movimento do oponente. Ela respondia à intenção. Era uma diferença pequena de nomear e enorme de executar.

É isso que eu quero aprender.

Não o Ranking. Não o título. Aquilo — aquela capacidade de ler o que ainda não aconteceu.

Ragnar encerrou a sequência com um bloqueio que virou agarrão que virou imobilização, e Karmona saiu por baixo do braço dele com um giro que parecia impossível dado o espaço disponível. Os observadores ao redor soltaram um som coletivo e baixo — não aplauso, mais reconhecimento.

Alguns minutos depois, quando o duelo terminou, Ragnar sorriu — aberto, sem cerimônia — e disse algo diretamente para Karmona que Anya não ouviu à distância. Mas viu Karmona ajustar a pegada na arma e assentir. Ragnar sempre fazia isso: terminava a luta e imediatamente apontava o ponto fraco do oponente, como se a vitória só valesse se o outro saísse melhor do que entrou.

Ali está a chave. Anya gravou aquilo.

Queria se tornar Tenente, talvez Comandante algum dia. Mas, diferente de muitos ali, não era o poder da posição que a atraía — era o quadro de missões de Antares. A possibilidade de escolher o que enfrentava, de ter voz sobre para onde ia e com quem. Isso era o que importava.

Voltaram a caminhar para longe. Quando chegaram ao corredor que dividia os quartos, Jerico acenou em despedida.

— Se quiser, pode ir até minha casa treinar. Meus irmãos vão gostar de surrar alguém diferente de mim por uma tarde.

— Vai ter janta?

— Claro que vai, sua esfomeada.

Os dois partiram rindo, e o corredor absorveu o som devagar.

Anya chegou ao fim do corredor, mas, em vez de virar à direita — última porta, seu quarto —, olhou para a esquerda. Ficou parada por um segundo, com a mão ainda no ar. Às vezes, cumprimentava Jones quando ele estava saindo do quarto.

Depois seguiu pela esquerda.

O quarto de Jones ficava perto do fim daquele lado, e a maçaneta girou sem resistência — ele havia deixado a chave do lado de dentro, como prometido. Anya entrou, fechou e trancou atrás de si.

Acendeu a pequena luminária que Jones havia conquistado em alguma missão cujos detalhes ele nunca contara por completo. A luz era amarelada, morna, o tipo que não ilumina tudo, mas que faz o que ilumina parecer mais real. O quarto era arrumado com a precisão específica de alguém que passou anos tendo que carregar tudo o que possui — cada coisa no lugar certo, sem desperdício de espaço.

Cheirava a ervas. As do Bagre, provavelmente — aquele cheiro de madeira queimada e algo mais doce que ela ainda não conseguira identificar. Mas havia também outra coisa no ar, uma mistura que ela só conseguia chamar de todos eles. Jones e seu óleo de couro. Nisha e a limpeza fria do aço. Bagre e suas infusões estranhas. Era um cheiro de lugar que pertence a pessoas específicas, e estar nele sem elas tinha um peso que ela não havia esperado.

Anya respirou fundo e sentou no chão, as costas contra a cama. Tirou o Abismo de Jones de dentro das roupas.

Na palma da mão, ele pulsava de leve — uma energia condensada e contida, como uma respiração muito calma. Ela havia sentido aquilo antes, quando ele o jogou para ela no dia anterior, e ainda não se acostumara por completo. Não era desconfortável. Era só outro, como sentir o batimento cardíaco de alguém no pulso quando você segura a mão.

Fechou os olhos. Respirou no ritmo do pulso do objeto.

A transição foi gradual — não um salto, mas um deslizamento. O cheiro do quarto foi ficando mais distante, o chão sob ela perdendo textura, o calor da luminária sumindo. E então havia apenas um caminho branco estreito, com escuridão densa em volta, e ela seguiu sem questionar, porque o caminho era a única coisa que existia para seguir.

Quando abriu os olhos do outro lado, o Abismo de Jones a recebeu em silêncio.

Era completamente diferente do Abismo coletivo da Academia — aquele vasto, cinza, com uma pressão constante que lembrava estar debaixo d’água. Esse era…

Esverdeado.