Capítulo 40: Medo?
Capítulo 40: Medo?
O dia inteiro, Anya ajudou o Leonidas e a Joana a arrancar os pisos quebrados da hospedagem.
O Ione tinha mesmo chamado uns pedreiros e comprado os pisos novos, pedindo pra colocarem no mesmo dia. Quando os homens chegaram, ela foi expulsa junto com os outros. O Ione não queria ninguém atrapalhando.
À noite, foi caminhando até o portal dourado e atravessou.
Já dentro da Academia, no salão, viu alguns dos Red Hunters brindando e comendo. O Leonidas tinha se juntado a eles depois da limpeza. Chamaram a Anya, mas ela recusou com um aceno.
Precisava treinar.
— Você vive treinando, garota. — O Gauls falou da outra ponta da mesa, o copo de cerveja na mão, meio bêbado. — Tem que relaxar. Cada coisa acontece no seu tempo.
Os outros concordaram.
— Deixem a garota. — O Leonidas tirou um pedaço de frango frito de uma das caixas e entregou pra ela. — Vai treinar. Se precisar da gente, sabe onde a gente tá.
Era bom ter aquelas pessoas cuidando dela com tanta vontade. Bom de um jeito que ela quase não sabia mais receber.
E, assim que saiu do salão, a sensação morreu junto com o sorriso.
O Jerico vinha na direção dela. Pela cara, estava procurando por ela.
— Preciso falar com você. — Ele olhou pra trás, conferindo se vinha alguém junto. — Por favor. É sério.
Anya foi arrastada pra outro corredor, longe de ouvidos e de olhos.
— O que foi? — perguntou, irritada. — Preciso descansar.
— Eu sei. Desculpa te arrastar até aqui. Mas é importante. — Ele enfiou a mão dentro da roupa escura, sem um amassado, e tirou um papel. Entregou. — É uma cópia da lista de soldados que vão ser mandados semana que vem. Uma competição amistosa contra uma das Academias do Leste.
Ela segurou o papel, ainda sem entender.
— E o que tem?
— Você tá nela.
Anya mudou na hora. Abriu a lista e correu os olhos. Vários Sargentos, Cabos, Soldados. E o nome dela no meio, entre os de Ranking 2 e 3.
A única de Ranking 1 era ela.
Levantou os olhos pro Jerico. Ele tinha o mesmo choque na cara. Não fazia ideia do porquê.
— Eu tentei perguntar. — Ele pegou o papel de volta e guardou. — Não me disseram nada. Só mandaram botar o teu nome. Mas eu tenho certeza que tem dedo do Ragnar e da Karmona nisso.
— Aqueles dois? De novo?
— Como assim, de novo?
Anya suspirou.
— Eles me chamaram pra treinar com eles ontem. Recusei, porque treino sozinha. Agora querem me forçar por outro caminho.
— Também não sei o que é. — O Jerico fez uma pausa. Anya sabia que ele tinha mais coisa pra falar. — Você pode recusar. Mas vai parecer que tá com medo de ir.
— Medo? Por que eu teria medo?
— A Academia é a Locutes. Do Reino Salamandra. — Ele baixou a voz. — São fortes pra caralho. A gente perde quase toda vez que vai lá. Nem sei por que ainda insistem nisso.
— É tradição. — Anya tinha ouvido o Krall falar disso mil vezes. As Academias se sondavam pra uma competição mais acirrada, uma vez por ano. — Mas eu não posso recusar.
— Quer ser massacrada? Eles não são que nem a gente, que treina aos poucos, que tem missão pra fazer. Eles vivem pra esmagar os outros. Da última vez, um dos nossos ficou acamado mais de três meses.
O Krall e a Nisha falavam tanto das competições. E a Anya nunca tinha conseguido vê-los em ação. Diziam que o Krall derrubava vários ao mesmo tempo sem mostrar um pingo de suor. Uma lenda dos treinos entre as Academias.
Pessoas eram ruins em todo lugar. Ela tinha aprendido isso dentro do Abismo. Soldado ou não, tanto fazia. Se era pra derrubar alguém, que fosse em memória do irmão mais velho.
— Tá decidido. — Ela olhou pro Jerico. — Eu vou.
— Eu tento te entender, mas, sinceramente, não faço ideia do que passa na tua cabeça. — O Jerico balançava a própria. — Pelo menos se prepara. Se você tem alguma habilidade física, treina pra pelo menos saber se defender.
— Vou fazer isso.
Anya deu as costas pra ele. Mas, em vez de ir pra Marionete, seguiu de volta pro Abismo. Precisava falar com o Dex antes. Alguma coisa parecia estar indo por outro caminho, e ela queria deixá-lo avisado.
Quando chegou à sala dele e explicou a situação inteira, o Dex só suspirou, meio cansado.
— O que o teu amigo disse é verdade. Os Locutes são fortes demais quando o assunto é duelo. Sempre lutam um a um, e nunca perdem. O sistema de treino deles é diferente do nosso. Só entra quem passa por uma peneira bem dura.
Anya aceitou o conselho. O Dex continuou.
— Mas eu já esperava por isso. Por algum motivo. — Ele se levantou e esticou a mão na direção da porta. Ione, Leonidas, Joana e Bruto entraram. — Já tinha conversado com o Aspas. Mas vou deixar todo mundo a par.
Eles se alinharam ao lado da Anya, os corpos eretos, esperando instrução.
— A Folha Dourada, como vocês sabem, foi contratada por alguém. A gente tinha dúvida se era o livro que eles queriam. Mas conversamos bastante com os andares de cima. E, pelo visto, quem contratou eles é o mesmo que vai nos enfrentar semana que vem.
As sobrancelhas subiram na sala inteira.
— Os Locutes? — O Ione pareceu chocado. — O que aqueles palermas ganhavam atacando a gente?
— Essa é a parte divertida da história. — Mesmo falando assim, o Dex não sorria, ainda encostado na mesa. — Eles contrataram várias outras organizações mercenárias pra atacar outras Academias dentro do Abismo.
— Então não foi retaliação. — O Leonidas concluiu, sério. — Eles queriam nos desestabilizar. Por quê?
— Não faço ideia. — O Dex cruzou os braços. — O Aspas disse que podia pedir uns favores, mas até agora nada. Como semana que vem tem essa competição amistosa, onde eles surram os nossos soldados, pode ser que esperassem a gente pisar lá com a moral no chão.
— O que não vai acontecer. — O Leonidas bateu no ombro da Anya. — A nossa soldada deixou um gosto bem amargo na boca deles.
O Dex acenou com a cabeça, ainda sério.
— Por isso, nós vamos até lá.
Todos na sala viraram o rosto pra ele, sem entender nada.