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Capítulo 41: Antes de Sair

Bug Espadachim — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 41: Antes de Sair

— Quer dizer que aqueles bostinhas voltaram pra fazer um show? — A Marionete batia na Anya de todos os lados ao mesmo tempo que falava. Nem parecia se cansar. — Os teus irmãos já bateram tanto neles que eu duvido que topassem isso hoje.

Os braços vinham em ordem, mas a velocidade estava estranha. Anya não entendia o porquê — a Marionete parecia mais lenta em alguns movimentos. E ela respondia acelerando o próprio ritmo, tentando não se afogar nos golpes.

Não deu certo. Quando defletiu três golpes e recuou, uma espada veio da diagonal. A pressão era imensa. A lâmina rasgou a carne dela na direção do pescoço, e Anya caiu, sentindo a dor do corte e o mundo escurecer.

A sensação da morte era sempre a mesma. O corpo ardia, se enrolava em espasmos, a respiração acabava, e o mundo apagava de uma vez. Mas não havia sangue. Não naquele mundo.

No meio do breu, Anya só abria os olhos. E de novo estava de volta.

— Se você for lá, vai apanhar — ouviu da Marionete. — Tem muita coisa numa batalha de vida e morte que você precisa aprender antes de entrar em uma.

Anya ficou sentada. Nunca tinha contado direito à Marionete o que acontecia no Abismo, nem trocava ideia com ela além dos golpes. Mas, se ia fazer o que os irmãos tinham feito, ouvir aquilo parecia certo.

— A primeira coisa que você precisa sentir é a pressão de qualquer um em volta de você. — A Marionete não baixou os braços, as armas erguidas. — Ver é diferente de sentir, e sentir é diferente de ver. Se você olhar pras armas, nunca vai sentir onde elas estão.

— E tem diferença sentir onde ela está?

— Claro que tem, sua pirralha! Uma arma é uma arma em qualquer lugar. Sentir a posição dela é a mesma coisa que saber pra onde ela vai. — Quase berrando, a Marionete ficou furiosa de verdade. — Quantas vezes você morreu aqui dentro? Acha que vai ter esses milhares de chances lá fora?

— Tenho certeza que não.

Ficou de pé, segurando a Bug, e se preparou.

— Como é que eu deveria “sentir” as armas?

— Como você sabe que alguém tá te observando? É a intenção da pessoa. A intenção fala por si própria. Quanto mais você sentir essa intenção, mais fácil vai ser sentir as armas. Agora, fica pronta. — O sorriso cruel apareceu de novo. — Vou assinar a intenção no teu corpo o mais rápido que eu conseguir.

A Marionete veio.

Anya fez o que sempre fazia: seguiu as armas com os olhos. Uma. Duas. A terceira ela perdeu, e o aço abriu o ombro dela antes de ela ver de onde tinha vindo.

Morreu. Voltou.

— Você tá olhando — rosnou a Marionete. — Para de olhar.

Anya fechou os olhos dessa vez. Cega, no escuro, tentando sentir a coisa que a criatura falava — a pressão, a intenção, sei lá o quê. Não sentiu nada. Só o corte, quente, no meio da barriga.

Morreu. Voltou.

— De novo.

E de novo. E de novo. Ela morria de tantos jeitos que perdeu a conta, os braços passando por dentro da guarda dela sem esforço.

Então, na enésima vez, aconteceu.

Antes de a lâmina se mover — antes de ver, antes de pensar — alguma coisa arrepiou a nuca dela. Um peso. Vindo da esquerda.

Anya girou a Bug pra esquerda sem saber por quê.

Aço encontrou aço. Pela primeira vez, ela aparou um golpe que não tinha visto.

Ficou parada, o coração batendo forte.

— Ah. — A Marionete parecia quase decepcionada de tão satisfeita. — Então você não é burra de tudo.

Anya chegou até a sala do Aspas. A porta estava fechada, mas as vozes lá dentro se juntavam firmes. Eram mais de seis pessoas. Talvez sete. Os instintos dela diziam onde cada uma estava.

Duas à esquerda. Duas à direita. Uma perto da porta, as outras na mesa.

Uma semana inteira treinando o que os olhos não podiam ver. As vezes em que se deixou levar. As vezes em que não conseguiu sentir nada. Até as vezes em que o som embaralhava tudo o que ela tentava puxar pra si.

Tudo terminava na morte dela. Uma atrás da outra.

— Pode entrar.

Ela abriu os olhos. Não tinha feito um movimento, nem um barulho, e mesmo assim o Dex soube que ela estava ali. Então… ele também sentia a intenção? Mas a espada dela era enganosa. Como é que se engana uma pessoa que também sente?

Segurou a maçaneta e entrou. Quando passou, os olhos de todos se voltaram pra ela. Esperava alguma dúvida, algum questionamento. Se percebessem que ela tinha aprendido algo novo, seria como ser lida. Qualquer um deles podia.

Nada.

— Anya! — Os braços do Leonidas se abriram, alegres. — Você sumiu uma semana inteira. O que tava fazendo? A gente achou que você não vinha mais.

— Tava treinando sozinha.

Os braços dele a envolveram num abraço que quase a sufocou. Quando soltou, os pulmões dela agradeceram.

— A gente tá se preparando pra partir agora mesmo. — O Aspas tinha os olhos na mesa, numa lista de nomes. — Os soldados que vão estar lá são conhecidos, mas parece que não são os mesmos do ano passado. Então não devem conhecer a gente.

— E a gente chega já batendo neles? — O Bruto perguntou, animado. — Botei meu nome nessa lista pra isso.

Anya se surpreendeu. O Bruto se candidatou pra lutar também? Por quê?

— Ele ficou com inveja. — O Ione falou baixinho do lado dela, rindo. — Depois que te chamaram, ele fez questão de pedir pro Dex botar o nome dele, pra poder bater nos outros. Como você vê, é um brigão.

Anya riu.

— Pouca inteligência e muito músculo.

O Bruto virou, apontando pra ela.

— Ei, eu ouvi isso.

Ela levantou as mãos, sem resistir. Os outros caíram na risada.

O Aspas ergueu a mão, e todos pararam. A lista estava fechada. Ele se levantou e encarou o grupo.

— Essa última semana foi desgastante, e a gente não achou resposta nenhuma sobre o ataque no Abismo. Quando estivermos lá, vou fazer umas chamadas, ver se alguém sabe de alguma coisa. — Passou os olhos pela Anya e pelo Bruto. — Vocês dois, se preparem. São praticamente os primeiros a lutar. Não cheguem frios, entenderam?

— Sim, senhor.

O Aspas fez um gesto com a mão, deixando os dois relaxarem.

— Vamos arrumar as coisas pra sair.