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Capítulo 42: Mãos de Pedra

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Capítulo 42: Mãos de Pedra

Anya nunca tinha visto o mar.

Antares era pedra e muralha. O Abismo era pedra e escuro. Ela cresceu entre paredes. Então, quando o navio contornou o último paredão de rocha e a baía se abriu na frente dela, Anya ficou sem palavra por um tempo.

A água era de um azul que ela não sabia que existia — claro perto da costa, fundo lá fora, riscado por barcos de vela branca. A cidade subia pelos rochedos dos dois lados: casas de telhado vermelho empilhadas umas sobre as outras, pontes de pedra cruzando os canais, gaivotas rodando por cima de tudo. Depois de uma vida cor de cinza, aquilo quase doía nos olhos.

Mas não foi a cidade que a calou.

Foram as mãos.

Duas estátuas gigantes se erguiam da água, uma de cada lado da entrada da baía. Figuras encapuzadas, altas como montanhas, o rosto escondido na pedra. E, sobre o meio do canal, elas se inclinavam uma na direção da outra e se davam as mãos — os dedos de pedra entrelaçados lá no alto, formando um arco por onde os navios passavam por baixo.

— Bonito, né? — O Ione parou do lado dela na amurada. Dessa vez não tinha deboche na voz. — Chama Aperto. Terreno neutro. Nenhum reino manda aqui. Nenhuma Academia é dona. — Apontou o queixo pras estátuas. — As mãos são o trato. Aqui dentro, ninguém saca aço com raiva. Rival encontra rival como igual. Quem quebra isso, quebra com todo mundo de uma vez.

— E as pessoas cumprem?

— Cumprem. — O Ione cuspiu na água. — Porque no dia que não cumprirem, não existe mais lugar no mundo pra essas Academias se medirem sem virar guerra de verdade. Ninguém quer ser o que acabou com o Aperto.

O navio passou por baixo das mãos de pedra. A sombra dos dedos entrelaçados cobriu o convés por um instante, fria, e depois a luz voltou.

Anya olhou pra cima, pro ponto onde as duas mãos se seguravam.

Um trato , pensou. Uma trégua com data pra acabar.

Porque era isso que aquilo era, no fundo. Duas mãos gigantes fingindo amizade sobre uma água cheia de gente que tinha vindo se machucar. E, em algum canto daquela cidade bonita demais, estavam os mesmos que mandaram o Andarilho.

Ela baixou os olhos pra multidão que já aparecia no cais. Soldados. Uniformes de cores que ela não conhecia. Gente de reinos de que ela nunca tinha ouvido falar. Fechou os olhos por um segundo e deixou o sentido novo correr pela massa toda, do jeito que a Marionete tinha ensinado.

Pressão. Intenção. Um mar dela, tão grande quanto o outro.

Nem toda amistosa.

Do lado dela, o Bruto respirou fundo, os olhos brilhando.

— Cara. — Ele soltou o ar. — Que lugar foda pra bater em alguém.

Anya quase riu.

Quase.

A frente, o cais fervia de gente.

Soldados de meia dúzia de reinos se acotovelavam entre os fardos e as cordas, cada grupo com sua cor, cada cor de olho no resto. Anya seguia o grupo pelo meio da multidão, a Bug pendurada nas costas, os sentidos abertos. O mar de intenção que ela tinha começado a ler no navio agora batia nela por todos os lados — quente, nervoso, cheio de gente que se odiava com educação.

O Aspas ia na frente. Foi ele quem parou primeiro.

Adiante, um grupo tinha se plantado no meio do caminho. Não por acaso. Estavam parados de propósito, ombro a ombro, fechando a passagem, e não se mexeram quando Antares chegou perto. Uniformes escuros. Um brasão que Anya não conhecia — uma lagartixa enrolada em chamas.

Locutes.

— Ora. — O que estava no meio deu um passo à frente. Alto, largo, o rosto sem pressa nenhuma. — Antares. Vocês voltaram. — Correu os olhos pelo grupo, e algo na cara dele afundou de tédio. — Achei que a surra do ano passado tinha ensinado alguma coisa. Mas gado não aprende, né. Só volta pro abate.

Anya sentiu o Bruto enrijecer do lado dela. Sentiu antes de ver — o calor subindo pelo corpo do grandalhão, os punhos fechando.

— Bruto — falou baixo. — Aqui não.

— Escuta a namorada, grandão. — O soldado da Locutes riu, e os dele riram junto. — Aqui é Aperto. Ninguém pode fazer nada. Se você me encostar um dedo, o mundo inteiro te enforca. — Abriu os braços. — Mas lá dentro… lá dentro eu faço o que eu quiser com você. E vou.

O Aspas não mudou de expressão.

— A gente veio pra competição — disse, a voz plana. — Não pra conversar com você.

— Claro, claro. — O homem se afastou meio passo, abrindo caminho de má vontade, ainda sorrindo. — Passem. Descansem. Comam bem. — O sorriso não chegava aos olhos. — Vão precisar da força.

Antares começou a passar por eles, um a um, no fio da tensão.

E foi aí que aconteceu.

Quando Anya passou pelo homem, ele parou de rir.

Foi rápido. Os olhos dele caíram nela — na garota pequena, quieta, de espada nas costas — e alguma coisa naquele rosto entediado mudou. Ele não sabia o nome dela. Não sabia o que ela era. Mas Anya sentiu, no mesmo instante, a intenção dele tocar a dela e recuar meio dedo, como quem enfia a mão na água esperando morno e encontra gelo.

Por um segundo, os dois se sentiram.

Ele não disse nada. Ela também não. Seguiu andando, firme por fora e disparada por dentro.

Mas, quando já tinha passado, ouviu a voz dele às costas. Baixa. Só pra ela.

— Que coisa mais estranha você é.

Anya não parou. Não virou.

Mas guardou. Nem todo mundo ali era cego. E alguns, como ela, sentiam.

— Se chegar mais perto, você vai ser morto.

A voz do Dex alcançou o homem, e ele recuou uns passos. Não precisou de mais nada.

Os da Locutes viram o Dex e o Aspas se aproximando. Depois o Leonidas, a Joana, o Gauls, o Frits. Mais de dez, todos no preto de Antares.

Mas não era o número. Anya sentiu como se estivesse no Abismo Pessoal — a presença daquela gente chegava pesada, densa, de um jeito que os provocadores da frente não tinham. Fez até o mar de intenção do cais recuar em volta deles. Ela nunca tinha sentido o Dex assim, de perto e com esse sentido novo. Era como estar do lado de uma coisa muito maior do que aparentava.

E ainda era menor, muito menor do que a Marionete causava nela.

O Dex, cansado, correu os olhos em volta. E os homens da Locutes se dividiram, abrindo caminho.

— Precisava disso? — perguntou o Aspas. Anya ouvia mesmo indo à frente. — Chamar atenção só vai piorar.

— Se eles não queriam, que não viessem. — O loiro manteve a passada lenta. — Eu vim aqui pra ver eles sendo destruídos.

O Bruto riu e concordou.

— Só me falar quem você quer, primo. — A mão dele já se fechou, pronta pra acertar alguém. — E eu faço o cara sentir o gosto da própria morte.

— Ficou confiante demais depois de ganhar de um mercenário qualquer no Abismo, idiota. — O Dex não perdoava. — Cala a boca e continua andando. A gente tem que achar onde vai ficar, e rápido. Tô caindo aos pedaços aqui.