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Capítulo 43: Intenção

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Capítulo 43: Intenção

O alojamento ficava numa das casas de telhado vermelho, presa na encosta. Anya e o Bruto desceram os degraus de pedra e seguiram o barulho depois de guardar suas coisas.

E o barulho crescia. Vozes, muitas vozes, o pé de milhares de pessoas se acomodando em algum lugar lá na frente. Quando a rua abriu, o lugar apareceu de uma vez.

Era um pátio.

Ficava numa parte alta da cidade, aberto pro céu, com o mar aparecendo lá embaixo entre duas construções. O chão era de pedra cinza, gasta, escurecida em manchas que Anya tinha certeza que era sangue seco misturado com suor e mais alguma fedorenta.

Um quadrado grande — uns vinte metros de lado, talvez —, liso, sem um degrau, sem um esconderijo. Nada pra se cobrir. Nada pra fugir. Quem entrasse ali só tinha uma direção pra olhar: pra frente, pro outro.

Em volta do quadrado, subiam as pilastras.

Eram altas, de pedra também, mas revestidas de ouro — ou de alguma coisa que fingia ouro tão bem que dava no mesmo. Deviam ser umas quinze, cercando o pátio como uma coroa. A luz cinzenta do dia batia nelas e escorregava sem brilho, e mesmo assim o ouro puxava o olho de todo mundo pro centro, pro chão vazio onde as pessoas iam se machucar. Anya entendeu o desenho na hora. O cinza era pra sujar de sangue. O ouro era pra fazer parecer bonito.

Atrás das pilastras, a multidão. Fileiras e fileiras subindo em degraus de pedra, cada Academia no seu bloco, cada bloco na sua cor. Antares era uma mancha pequena de preto num canto. A Locutes tomava metade das arquibancadas sozinha, um mar de uniformes escuros com a lagartixa em chamas no peito.

Anya parou na entrada e deixou o sentido correr.

Foi demais.

A pressão de tanta gente junta bateu nela como uma parede. Sede de sangue, tédio, aposta, expectativa, tudo misturado, tão denso que ela precisou fechar os olhos um instante e empurrar de volta pra não afundar. A Marionete tinha ensinado a sentir. Não tinha ensinado a aguentar aquilo.

— Você tá bem? — o Bruto perguntou baixo.

— Tô. — Ela abriu os olhos. — Só… muita gente.

— É. — Ele olhou o pátio vazio no meio de tudo aquilo e, pela primeira vez desde o navio, não estava sorrindo. — Ó. — Baixou a voz, só pra ela. — Aqui dentro, todo mundo vai tá olhando. Todo mundo.

Não precisou dizer o resto.

Anya já tinha entendido no cais. Ali tinha gente que sentia, não só via. Vinte metros sem um canto pra se esconder, mil olhos, e alguns que enxergavam mais do que olhos. Se ela pulasse ali, o mundo inteiro ia ver a garota que some do nada.

Ela não faria isso. Não hoje.

Ia ganhar do jeito difícil. Do jeito da Marionete. Do jeito do Krall. E parecia ser a coisa mais divertida no momento.

Uma voz se ergueu no centro do pátio, chamando o primeiro nome. Não era o dela. Ainda.

O Bruto estalou o pescoço.

— Torce por mim — ele disse. E desceu pro cinza.

Era só uma chamada, mas a multidão já rugia pra ver a briga.

O curioso era que boa parte daquela gente não era das Academias. Vinham de outras cidades, quase uma caravana — pelo menos foi o que o Ione tinha dito. E apostavam contra as Academias pra ganhar dinheiro. Sangue alheio virava aposta ali, como qualquer outra mercadoria.

— Ele já foi? — O Astrax chegou correndo atrás dela, visivelmente cansado. — Droga. O Dex pediu pra entregar isso pra ele.

Nas mãos dele estava a roupa vermelha que eles usavam no Abismo.

Era um sinal. Talvez de que eram eles os caçados lá dentro. O Dex queria deixar claro, pra quem tivesse olhos ali, que aquilo não era uma luta qualquer. Era uma demonstração.

Mas o Bruto já estava quase no pátio. Longe demais pra um grito passar por cima do barulho.

Anya o encarou.

E os sentidos dela se afiaram de uma vez, projetando uma coisa que a Marionete tinha tentado ensinar na última semana, antes de o tempo acabar. Não sentir a intenção. Mandar. Uma linha fina, apontada pra um ponto só.

Uma linha que tocou a nuca dele.

O Bruto parou de repente. Olhou pra trás e pra cima, na direção dos dois. E franziu as sobrancelhas.

Ele tinha sentido.

Então ele também conseguia.

O Astrax ergueu o braço, mostrando a roupa, e o grandalhão riu, erguendo o dele também. Anya ficou confusa por um segundo. Aí o Astrax girou e lançou a roupa pra frente, com força.

A roupa desceu reta, sem desviar, e o Bruto pegou no ar, gargalhando. A boca dele se mexeu, disse alguma coisa, mas era longe demais pra eles entenderem.

O Astrax riu de volta.

— Esse cara é uma figura. O Dex tem cada parente estranho. — Ele se virou pra um caminho na arquibancada, puxando Anya. — Vem. Os outros tão esperando.

Anya foi com ele, olhando o Bruto se vestir depressa — as amarras, as cintas — e entrar no pátio de braços erguidos, gritando de volta pra multidão. A multidão gritou junto. Era a casa dele. Parecia que vivia pra aquilo.

Um cara tão estranho.

Ela não entendia. Passava a vida tentando não ser vista, e ali estava o Bruto, aberto, alto, se oferecendo pros olhos de milhares como quem não tinha nada a esconder. Porque não tinha.

— Você tinha dito que ele gostava disso. — O Leonidas comentava com o Dex. Anya se aproximou dos dois. — Não disse que ele era lunático.

O Dex estava sentado de olhos fechados, e nem parecia prestar atenção. Mesmo assim, respondeu.

— Ele ama ser visto lutando. Lutar é a única coisa que ele sabe fazer. — Uma pausa. — Deixei ele no Abismo por um motivo, e não é porque eu detesto meu primo.

Um dos olhos dele abriu quando anunciaram que a luta ia começar.

— É porque os instintos dele servem pra caçar monstros. Não pessoa.

Anya olhou de volta pro pátio, pro Bruto rindo no meio do cinza, os braços ainda erguidos.

Anya sentia o Bruto do outro lado do pátio, mesmo de longe.

E a sensação era estranha. Nada em volta — nem as intenções, nem os que queriam a cabeça dele — conseguia deixá-lo acuado. Nenhum peso. Nenhum medo. Só uma vontade limpa, larga, quase alegre. Pra ele, a luta era um palco. E ele, o artista.

Do outro lado, o mesmo.

O jovem da Locutes vestia um traje arroxeado, a espada na bainha, a mão já perto do cabo. A intenção dele chegava firme até Anya, sem tremor, sem dúvida. Dois artistas, cada um no seu canto do cinza.

O Dex tinha dito que o Bruto sabia caçar monstro. Não pessoa.

A diferença entre pessoa e monstro, no entanto…

Anya tinha certeza de que sabia a resposta. Tinha aprendido do pior jeito, dentro do Abismo e fora dele.

Pelo visto, o Bruto também.