Capítulo 44: Força Bruta
Capítulo 44: Força Bruta
— Esse cara veio mesmo. — O Ragnar comentou com os outros. O Jerico e a Karmona se juntaram a ele do outro lado da arquibancada, esperando a vez deles. — Ouvi dizer que a entrada dele foi pedida por um Tenente. Mas não me disseram quem.
Os três olharam o brutamontes gargalhar e apontar pra multidão. Não parecia tenso, nem com medo. Era alegria de estar ali.
— É o amigo da Anya — disse o Jerico. — Vi os dois na semana em que voltaram machucados. Vocês também estavam lá.
— Lembro. — A Karmona reparou nos músculos dele e soube que não era só um amontoado de carne. — Ele é bem treinado.
O Ragnar concordou, analisando também.
— Parece que a Anya tem amigos interessantes mesmo. — O olhar dele mudou pra onde ela estava. Mais acima, distante, no meio de gente de roupa vermelha. Ela mesma botando o vermelho por cima do próprio preto. — Eles são… um grupo?
— São. — O Jerico deixou os dois o encararem antes de continuar. — Se chamam Red Hunters. Pelo que me disseram, atuam no Abismo. — Uma pausa. — Mas eu não achei nada sobre eles desde a última vez que você me pediu pra procurar, Ragnar.
O Ragnar não tirou os olhos da garota de vermelho lá em cima.
— Continua procurando.
O moleque de roxo veio bem rápido e baixo.
O Bruto viu a espada desenhar no ar — finta pra cima, corte pra baixo, bem treinado, coisa de Academia. Bonita.
Não ligou. Enquanto o outro fazia arte, o Bruto fez a única coisa que sabia. Foi pra cima.
A lâmina abriu o braço dele. Ardeu. Ele nem olhou. Deixou o corte acontecer, entrou por baixo e enfiou a testa no nariz do moleque. Osso estalou. O roxo cambaleou pra trás, os olhos molhando de dor.
Um.
O moleque voltou mais esperto. Fintou de novo — o corpo dizendo esquerda, a espada indo pra direita. Truque bom. E ele tinha visto Anya fazer, só que dez vezes melhor contra o Andarilho. Pegava qualquer um que estivesse pensando.
O Bruto não estava pensando.
Ele não leu a finta porque não leu nada. Só viu a mão mexer e fechou a dele em cima do pulso do moleque, esmagando, sentindo os ossinhos rangerem. A espada caiu. O roxo abriu a boca pra dizer alguma coisa — pedir, xingar, sei lá — e o Bruto acertou uma cotovelada na lateral da cabeça dele antes de qualquer palavra sair.
Dois.
Agora o moleque tinha medo. O Bruto sentia. O cheiro mudava, a intenção encolhia. Veio o último gesto dele: um soco desesperado, com tudo, sem técnica nenhuma. Era como se estivesse enfrentando os monstros do Abismo.
Finalmente. Aquilo o Bruto entendia.
Nem desviou. Recebeu o soco no maxilar, cuspiu sangue, e sorriu. Pegou o moleque pela gola, ergueu do chão feito saco e jogou contra a pedra cinza com o corpo inteiro.
O baque calou a arquibancada por um segundo.
O roxo não levantou.
Três.
O Bruto virou pra multidão, o braço sangrando, o vermelho aberto no peito, e gritou.
E a multidão gritou de volta.
Essa era a casa dele.
— É isso aí! — O Bruto mostrava o braço sangrando, gargalhando, enquanto os gritos chegavam nele. — É só isso que vocês têm pra mim? Manda mais um. Cadê aquela empolgação toda de querer bancar os bonzões? — Bateu no próprio peito. — Eu sou o brabo aqui. Não vocês.
O show estava feito. Era assim que uma luta tinha que ser.
Os amigos do roxo, da Locutes, arrastavam ele pra fora do cinza. E um cara chamando os outros pra brigar. Deu tumulto.
— Quer que a gente suba aí pra te matar, desgraçado? — Um grito subiu do meio dos soldados. — Se é o que você quer, eu te dou.
— Pode vir, garotinho. Eu quebro todos vocês. Cadê?
Era uma tática simples pra inflar a raiva. Mas o Bruto fazia o que tinha que ser feito. Se o Dex queria que eles aparecessem, era só arrumar um jeito. E bater nos outros era do que ele mais gostava na vida.
No navio, vindo pra cá, ele tinha recebido instruções detalhadas.
— Bate neles e provoca uma briga.
O Dex não precisou falar mais nada. Já era detalhado o suficiente.
Os soldados da Locutes gritavam contra o Bruto. E aí um deles subiu no pátio, aos berros.
— Você deve ter um baita culhão pra soltar essas merdas todas. — Puxou a espada rápido, nem deu tempo de anunciar o duelo. — Tá pronto?
— Vem logo, bostinha!
O Ione se movia pela multidão. Tinha feito aquilo tantas vezes que chegava a ser divertido.
— Aposta! Aposta aqui! — A voz dele cortava o barulho. — Antares contra Locutes! Quem vai no grandão?
Ninguém ia no grandão.
— No brutamontes? — Um homem gordo de outra cidade riu, contando moedas. — Aquele ali é carne pra espada. É o ‘Esfomeado’. Boto dez no soldado da Locutes.
— Fechado. — O Ione anotou, o rosto sério. — Mais alguém?
Foram vinte. Depois cinquenta. A caravana inteira parecia querer ver o cara de vermelho sangrar, e cada um botava a mão na bolsa pra apostar contra ele. Antares sempre perdia pra Locutes. Todo mundo ali sabia disso. Era dinheiro fácil.
O Ione anotava tudo, um nome atrás do outro, com a cara de quem lamentava o prejuízo alheio.
Porque ele tinha visto o Bruto lutar.
— Tem certeza? — perguntou pro último, um velho que empurrou um punhado gordo de Jurax na mão dele, tudo em cima da Locutes. — É bastante dinheiro.
— O grandão de Antares? — O velho bufou. — Nem dura um minuto. Aquele primeiro foi recruta. Agora vem as pedradas. Ele vai ser surrado.
O Ione guardou o Jurax e sorriu, enfim. Um sorriso curto, quase com pena.
— Você tem razão — disse. — Não vai durar um minuto.
Só que não pelo motivo que o senhor tá pensando.
Ione parou ao ver que os dois correram para se encontrar no meio do pátio. E por um segundo foi silencioso. A espada cortou para baixo, fatiando o ar, e não encontrando o grandalhão. E em seguida, espetadas por todos os lados.
Nada acertava Bruto. E quando o espadachim roxo ficou mais irritado e soltou um palavrão, o braço grosso do Red Hunter entrou na sua visão e o segurou pela cara. Bruto o levantou de uma só vez e o jogou de costas contra o chão.
Foi um baque para todos os apostadores.
— Caralho, quem é esse desgraçado? — os velhos apostadores ficaram abismados. — Merda, perdemos dinheiro.
Ione já estava dando risadas gananciosas bem longe dali.