Capítulo 45: Intenção
Capítulo 45: Intenção
— Quando a gente veio aqui a primeira vez, eu vi um garoto da tua idade ser espancado bem ali. — O Aspas apontou pra onde o Bruto estava. Anya seguiu o olhar. — Não deram tempo dele se recuperar, nem deixaram ele se render. Tive que engolir seco o que os meus amigos sofreram.
— Foi doloroso. — O Dex concordou. — Lembro de um rapaz que teve os dois braços quebrados.
Era cruel. A vida era assim. As Academias eram assim.
— Quando chamarem o teu nome, lembra bem por que você subiu naquele pátio. — O Aspas lançou um olhar frio pra ela. — Ter pena dos outros é o mesmo que pedir pra ser humilhada. Pra ser morta. Você viu o que acontece no Abismo, não viu? Aqui fora é igual.
O Leonidas e os outros ouviam, sem discordar de uma palavra. Anya só manteve a cabeça erguida.
No pátio, o Bruto agarrou o inimigo, girou e jogou o corpo dele contra um pilar. Quase esmagou. Depois soltou, feito um animal abatido.
Era um soldado Ranking 1, e mesmo assim não tinha medo nem pena de ninguém.
O Bruto foi criado pra esmagar os que zombaram dele. Foram as palavras que o Ione usou uma vez. E Anya tinha certeza de que ele podia fazer muito mais do que só esmagar. Se fosse promovido, se tivesse o acolhimento da Academia, subiria rápido.
Mas as Academias não ligavam pra quem se esforçava.
Era tudo número. Quem entregava mais.
Só isso.
— Está na sua hora.
— Anya. De Antares.
A voz do arauto no centro do pátio cortou o barulho, e por um instante o nome dela ficou solto no ar. Pequeno demais pra tanta gente.
Ela se levantou.
O Aspas não disse nada. Não precisava — a fala fria dele ainda estava na cabeça dela. Ter pena é pedir pra morrer. Do outro lado, sujo de sangue e sorrindo, o Bruto mandou uma linha fina de intenção que tocou a nuca dela. Não tinha palavra nenhuma. Só um empurrão. Vai.
Anya desceu os degraus de pedra.
Cada degrau afundava o barulho um pouco mais atrás dela, e o cinza foi crescendo na frente. Quando pisou no pátio, a pressão bateu — mil intenções de uma vez, o mar que ela já conhecia, curiosidade e tédio e sede de sangue tudo junto. Empurrou de volta. Manteve a cabeça erguida. Vinte metros de pedra lisa. Nenhum canto. Nenhuma saída.
Sem pular , ela lembrou a si mesma. Sem pular.
Do outro lado do pátio, o oponente já esperava.
Vinha da Academia Tratamus — um uniforme verde-escuro que Anya não tinha visto antes, um brasão que ela não conhecia. Um rapaz alto, magro, de movimentos econômicos, uma lança curta na mão. Nada de arrogância. Nada de show. Só olhos calmos, medindo ela, como Ione fazia. Disciplina. E aquilo era pior que arrogância.
Anya deixou o sentido correr até ele.
A intenção do rapaz chegou limpa. Firme. Sem uma gota de raiva. Ele não a odiava, não queria humilhá-la. Só queria vencer, do jeito certo, do jeito treinado. E era por isso que ela sentiu o perigo — porque quem luta sem raiva não comete erro por raiva.
Ela puxou a Bug das costas. Pesou familiar na mão. Grande demais, como sempre. Do morto, como sempre.
O rapaz baixou a ponta da lança na direção dela e esperou.
O arauto ergueu o braço.
Sente , disse a voz da Marionete, lá no fundo. Não olha. Sente.
Anya fechou os olhos por um instante. Deixou o mundo virar pressão, peso, linha. Sentiu a lança. Sentiu o rapaz. Sentiu os mil olhos — e o único, lá em cima, que já tinha chamado ela de coisa estranha e continuava observando.
Abriu os olhos.
O braço do arauto desceu.
A lança pareceu disparar da mão do rapaz, e Anya só jogou o peso do corpo inteiro pro lado. A lança rasgou o ar, passou reto e bateu no chão de pedra.
Não só ele — os Red Hunters inteiros se alarmaram.
Não foi um arremesso comum. Anya sentiu. O rapaz botou uma força imensa pra pegá-la desprevenida. E ela tinha desviado. O peso dos ombros, as batidas do coração, até a intenção inteira em volta dela… tudo se desfez.
Agora o pátio era um mar das próprias possibilidades dela.
— Ela desviou como se não fosse nada. — O Ragnar comentou lá de fora, de braços cruzados. — Muito mais rápida do que era antes.
— Na Academia, assisti às lutas dela um monte de vezes. Sempre foi bem travada. — A Karmona não tirava os olhos dela, encantada. — Agora parece que ela tá mais livre.
O Jerico também ficou impressionado. Não era uma velocidade da qual ele escaparia tão fácil. E nem daria pra usar o corpo pra segurar aquela lança. Um arremesso tão único e certeiro era difícil de prever.
E o rapaz da Tratamus também sabia disso.
Kifo Assas — um lanceiro de estilo parecido com o dos antecessores da Tratamus — ficou em choque.
— “Recuperar.”
A mão dele foi à frente, e a lança voltou do chão, rápida, pra ele. Anya continuou observando, o rosto virado de lado, ainda imóvel. Alguma coisa nele — no movimento dos braços — lembrava a Marionete arremessando adagas nela.
E a velocidade da Marionete era ainda pior. Anya sempre levava a quinta.
— Não esperava por isso. — Kifo tentou recuperar um pouco da compostura. — É impressionante. Mas você não vai ter a mesma sorte de escapar de mim uma segunda vez.
A lança veio de novo. Mais rápida dessa vez, com mais raiva, mirando o peito dela.
Anya não olhou pra lança.
Olhou pra ele.
Sentiu o arremesso antes de a mão dele terminar o gesto — o peso, a linha, o ponto — e a Bug subiu sozinha e bateu na haste, jogando a lança pro lado. Faísca na pedra. Os olhos dela não se mexeram. Continuaram nos dele.
Kifo grunhiu e foi mais fundo. As mãos correram pra dentro do casaco, e de lá saíram as adagas — escondidas, guardadas pra exatamente aquele momento. Pro instante em que o inimigo estivesse ocupado com a lança e não visse as lâminas menores chegando.
Uma. Duas. Três, num leque baixo, buscando as pernas, a barriga, a garganta dela.
Anya continuou olhando pra ele.
A Bug desceu, cortou, desviou — uma, duas, três — o aço encontrando cada adaga no ar sem que ela baixasse os olhos uma vez sequer. Não precisava vê-las. Sentia. Cada lâmina era um peso, uma intenção, uma linha apontada pra um ponto — e ela tinha passado uma semana morrendo pra aprender a ler exatamente aquilo. A Marionete jogava cinco. Kifo jogou três.
As adagas tilintaram no chão. Todas.
E os olhos de Anya não tinham deixado o rosto dele um segundo sequer.
Do outro lado do pátio, Kifo Assas sentiu uma coisa que não sentia fazia muito tempo.
Medo.
Ele tinha arremessado tudo o que tinha — a lança, as adagas, os truques que derrubavam gente bem melhor que aquela garota — e ela não tinha olhado pra nenhum deles. Nenhuma vez. Só olhava pra ele. Firme. Paciente. Como se as armas não importassem. Como se existisse uma única coisa naquele pátio que valesse a pena caçar, e fosse ele.
Não era um duelo. Ele tinha deixado de ser um competidor no instante em que ela pisou no cinza abaixo. Era apenas a caça.