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Capítulo 46: Humilhação

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Capítulo 46: Humilhação

Anya deu um passo à frente e pisou na haste da lança caída.

O pátio inteiro prendeu a respiração.

Ela olhou pra arma dele, presa embaixo do próprio pé, à mercê dela. Podia quebrar. Podia chutar pra longe e acabar com aquilo ali mesmo, com o Kifo desarmado no meio do cinza.

Não fez nenhuma das duas coisas. Chutou a lança de volta pra ele.

A haste deslizou pela pedra e parou aos pés do Kifo. Ele olhou pra baixo, sem entender. A arquibancada também não entendeu — por um segundo.

— Pega. — A voz de Anya saiu baixa, mas o pátio estava tão quieto que chegou longe. — Vai.

E aí a multidão explodiu.

Não era torcida. Era escândalo, deboche, o barulho de milhares de pessoas entendendo ao mesmo tempo o que ela tinha acabado de fazer. Ela tinha devolvido a arma dele. Tinha dado tudo de volta — a lança, a distância, a chance — e mesmo assim dito, na cara dele, na frente do mundo inteiro: não vai adiantar.

Era a pior humilhação que se podia fazer com um lanceiro.

O rosto do Kifo ficou vermelho. Ele pegou a lança do chão, os olhos agora sem nada de calmo. E Anya previu que ele viria pela frente, numa velocidade só.

Bom. Agora ele lutava com raiva. E a raiva era uma porta aberta para muitas possibilidades.

Ele veio de estocada, reto, com tudo. Anya girou a Bug num arco largo, óbvio, telegrafado — um bloqueio que qualquer um leria, que gritava “vou aparar pela direita”. O Kifo leu. Trocou a lança pra esquerda no último instante, pra furar o buraco que ela tinha deixado aberto.

Só que o buraco não existia.

Controle o que ele vê , dizia a voz do Krall, de um pátio de treino que já parecia de outra vida. E controle o que ele pensa.

Anya nunca ia aparar pela direita. A Bug já vinha pela esquerda antes de o Kifo se comprometer, esperando exatamente onde ele decidiu ir. O arco largo era mentira. A espada enganosa.

A lâmina do Krall pegou a lança no meio do movimento, desviou, e continuou subindo. Encostou fria no pescoço do Kifo antes de ele entender que tinha perdido.

O pátio ficou em silêncio de novo. Depois urrou.

Kifo Assas ficou parado, a lança inútil na mão, o aço no pescoço, os olhos de um homem que tinha acabado de descobrir que trouxe a arma errada. Não, sua arma estava correta. Ele tinha lutado contra muitos espadachins antes, muitos que uma vez fizeram dele um boneco de treino.

Na sua frente, o inimigo

Anya não sorriu. Não gritou pra multidão como o Bruto tinha feito.

Só baixou a Bug e relaxou os ombros. Do jeito que o Krall fazia, na ferocidade que a Marionete tinha ensinado.

Numa luta de verdade, ela teria aberto um corte no rapaz. Ali não era necessário.

Um treino era uma simulação de batalha, sim. Mas não precisava tirar uma vida que ainda não estava pronta pra morrer. Por mais que quisesse fazer aquele rapaz sentir a dor que os antigos colegas dela tinham sofrido nas mãos das outras Academias, ela ainda era a mesma garota que aprendeu a não matar quando não precisava.

O Abismo podia ser cruel com ela. Ela não precisava ser cruel com quem nunca esteve lá.

— Você subiu sem a intenção de me matar. — Mesmo no meio da gritaria, o Kifo ouviu a garota falar. — Por isso pode sair daqui sem perder um membro.

Ele ainda apoiava mal o peso numa das pernas, respirando pesado, com dor.

— A Academia Antares não vai recuperar a honra que tinha, garota. Não importa o que você faça. — Cuspiu as palavras. — Continuam os piores. Continuam pequenos.

— Pode ser que sim. Mas, até agora, a gente ganhou, não foi? — Ela deu de ombros. — Perder faz parte do processo. Só que, mesmo que a gente lutasse dez vezes, tenho certeza… eu não perderia pra você. Isso me faz pequena e pior?

O Kifo engoliu a própria arrogância, misturada com vergonha. Ela estava… certa. Era difícil admitir.

Ele olhou pra trás e viu os companheiros lançando olhares furiosos. Todos eles, sendo Ranking 1, poderiam ter a chance de enfrentar aquela mulher.

Nenhum deles ganharia. Talvez alguns soldados de Ranking 2, com mais habilidades físicas. Mas nenhum daqueles ali.

— Por que você ainda é uma soldada de ranking tão baixo?

— Porque eu decidi fazer do jeito mais difícil. — Ela abriu um sorriso de lado e embainhou a Bug. — Não preciso de ninguém me dizendo que eu preciso de pontos, nem de treino ruim com outros soldados. Preciso de experiência. É o que eu ganho aqui.

O olhar do Kifo pareceu se distanciar dela.

Na arquibancada, as figuras de roupa vermelha, como a dela, mantinham a postura e nem sequer vibravam. Eram só observadores de uma soldada fazendo o que tinha que ser feito.

Eles já esperavam aquilo dela.

Mas ninguém atrás do Kifo, nenhum companheiro dele, queria a vitória dele. Queriam mostrar que a própria Academia era vitoriosa — pelas mãos deles.

O Kifo pegou a lança e fez um gesto incomum, que pegou de surpresa não só ela, mas todos os Red Hunters. Curvou-se um pouco. Respeito.

— Seu nome é Anya, não é? — Ele endireitou as costas. — Espero que aceite um duelo comigo no futuro. Quando eu estiver melhor.

— Eu aceito.

Nada daquilo importava pra ela. Nada de vozes, nenhum frio, nenhuma promessa dos outros.

Mas, se vencer deixasse a Academia Antares um pouco mais honrada, então que fosse feito.

Anya subiu os degraus de volta pro grupo.

Ninguém gritou. Ninguém correu. Os Red Hunters a receberam do jeito que tinham assistido — calmos, de braços cruzados, como quem viu exatamente o que esperava ver.

Menos um.

— ISSO! — O Bruto veio com tudo, braço enfaixado e tudo, e bateu nas costas dela com uma força que quase a jogou pra frente. — Você VIU a cara dele? Quando você chutou a lança de volta? Eu quase morri de rir!

— Bruto. — Ela cambaleou. — Meu ombro.

— Foi lindo! — Ele nem ouviu. — Feio, mas lindo!

O Leonidas riu e passou um cantil pra ela. O Astrax fez um aceno de cabeça, aprovando a decisão dela. Até o Dex, de olhos fechados, mexeu o canto da boca meio milímetro. Vindo dele, era ovação.

Só o Aspas não sorria.

— Você poupou ele. — Não era uma pergunta. O olhar frio dele estava na Anya, medindo. — Eu te disse pra não ter pena.

— Não tive. — Anya devolveu o olhar, sem recuar. — Pena é quando você poupa porque não consegue matar. Eu poupei porque não precisei. — Bebeu do cantil. — Tem diferença.

O Aspas segurou o olhar dela mais um instante. Depois, alguma coisa nele afrouxou. Não era aprovação, mas era perto.

— Tem — ele disse. — Tem diferença.

E foi só isso. Mas, vindo do Aspas, também era ovação.

Anya sentou no degrau de pedra, o corpo pesando de uma vez agora que tinha acabado. O Bruto se jogou do lado dela, ainda rindo sozinho da lança. O barulho da multidão continuava lá embaixo, chamando o próximo nome.

Ela fechou os olhos um segundo.

Não sentiu nada de especial por ter ganhado. Mas ali, no meio daquela gente que já esperava que ela ganhasse, sentiu outra coisa. Pequena. Estranha.

Que talvez fosse o começo de uma casa. Algo que tinha fugido dela fazia um tempo. E isso era conflitante.