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Capítulo 47: Movimentação

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Capítulo 47: Movimentação

O Ione voltou com os bolsos pesados e o pior sorriso que a Anya já tinha visto na cara dele.

— Meninos — ele cantou, se jogando no degrau entre ela e o Bruto. — Meninos, meninos, meninos. — Sacudiu uma bolsa que tilintou gordo. — Vocês fazem ideia de quanta gente apostou contra vocês dois hoje?

— Muita? — arriscou o Bruto.

— MUITA. — O Ione gargalhou. — A caravana inteira. Cada infeliz de cada cidade olhou pra vocês dois e viu um pequeno pedaço de carne pra uma espada afiada. Botaram tudo na Locutes, na Tratamus, em qualquer um que não fosse Antares. — Beijou a bolsa. — E vocês dois foram lá e ganharam. Que lindo. Que coisa mais linda.

O Bruto se inclinou, os olhos brilhando.

— Quanto?

— O suficiente pra consertar a hospedagem três vezes. — O Ione afrouxou o cordão da bolsa e começou a contar, os dedos rápidos, o rosto de quem estava no céu. — E ainda sobra.

Anya olhou o monte de Jurax passar pelas mãos dele e não disse nada. Era mais dinheiro do que ela tinha visto na vida inteira, junto. Semanas carregando carcaça pra comer, escolhendo entre subir de ranking ou jantar — e ali, de uma vez, o Ione contava aquilo como quem conta feijão.

— Toma. — Ele empurrou um punhado na mão do Bruto. — Teu.

— Sério?! — O Bruto quase abraçou ele. — Ione, eu te amo, cara.

— Não me toca. — O Ione já estava se virando pra Anya. Contou de novo, mais devagar dessa vez, e pôs na mão dela uma quantia que a fez fechar os dedos por reflexo. — E teu.

Anya olhou pra ele.

— Por quê?

— Como assim, por quê? — O Ione fez cara de ofendido. — Você ganhou o meu dinheiro pra mim, garota. Sem você e o gorila aqui do lado, eu não tinha ganhado nada. — Deu de ombros. E, por baixo da ganância, teve um segundo de outra coisa. — Quem trabalha, recebe. Aqui a gente reparte. Não é a Academia.

Voltou a contar as próprias moedas, feliz da vida, antes que ela pudesse responder.

Anya olhou o Jurax na própria mão. Fechou os dedos em cima.

Não era a Academia mesmo.

E por não ser a Academia, Anya viu uma coisa que na Academia nunca teria visto.

O Aspas deu instruções pro Gauls e pro Dex quase sem mexer os lábios. Os dois foram se afastando aos poucos, subindo as escadas sem pressa. Um parou pra trocar duas palavras com um vendedor. O outro pegou uma bebida no caminho. E, sem que ninguém reparasse, sumiram no meio da multidão.

O Aspas não mudou o olhar. Continuou fixo pra frente, nas lutas.

Anya entendeu, devagar, que estava sentada no meio de uma operação. Os Red Hunters não tinham vindo só lutar. Tinham vindo escutar.

Ela ia perguntar. O Tenente a cortou antes.

— Aqui é um ótimo lugar pra juntar informação. — Ele falava baixo, os olhos nunca deixando o pátio. — Eles fazem isso. A gente só aprecia as lutas.

Anya fechou a boca.

Então o olhar do Aspas mudou. Foi rápido, um segundo ou dois, pra um ponto lá em cima — pra arquibancada onde os Locutes se juntavam num bloco escuro.

Anya seguiu o olhar. E deixou o sentido correr até lá.

Sentiu. Eram várias intenções voltadas pra eles. Não pro pátio, não pras lutas. Pra eles. Pesadas, paradas, estudando.

— Tem gente que encara demais — disse o Aspas.

E voltou pras lutas.

Eles viram duas Academias se enfrentarem numa luta acirrada, que terminou quase empatada — os dois rapazes com as armas caídas, os dois ensanguentados.

Já estava definido que a vitória não seria dada só por um estar mais ou menos cansado. Tinha que ser conquistada na luta.

Por isso, um deles ergueu a arma — uma espada lisa — mostrando determinação. E foi dado como vencedor depois que o outro se rendeu. Anya tinha visto como os dois se moviam, como os braços se cruzavam e as armas se chocavam. Não se entusiasmou.

Do lado dela, o Bruto estava igual.

— Eu ganhava dos dois juntos. — Não era arrogância. Ele mastigava uma folha verde e cuspiu o caule. Puro tédio. — Nem teria graça.

O Leonidas e o Astrax não disseram nada. Mas o silêncio dos dois concordava. Anya também.

— Quantos golpes?

Pegou todo mundo de surpresa. Até o Ione, que contava as moedas depois de repetir o mesmo esquema dez vezes.

— Uns sete, talvez oito. — O Bruto a encarou. — E você?

— Cinco. — Os olhos dela não largaram a espada do vencedor, que ainda rodava o pátio comemorando. — Talvez… seis.

Dessa vez, o Leonidas e o Astrax riram.

— Pelo visto, os nossos pequenos soldados estão cada vez mais confiantes, hein. — O cozinheiro só implicava com os dois, deixando eles sem graça. Mas não havia mentira nem presunção no que ele disse.

Os rankings eram definidos por patente e numeração. Um soldado de Ranking 1 era só um broto pequeno debaixo de uma árvore gigante de possibilidades — o mais fraco, o que deveria ser nutrido por todo o resto. Era o que deveria acontecer.

Na prática, a árvore mutilava esses brotos pra que crescessem refinados. E era essa crueldade que impedia a exploração de lugares aonde nenhuma árvore tinha chegado. O próprio Leonidas tinha sido parte daquilo. Mas nunca se deixou pensar muito no assunto.

O amigo dele, o Astrax, era um dos que lutavam pra crescer. Mas nunca teve ajuda, nunca teve ninguém do lado. O Ione era o mais próximo disso — só que o ganancioso não ligava pras batalhas. Jurax era o único jeito de subir, e ele era bom em pescar oportunidade pra ganhar essa moeda.

Então a Anya e o Bruto tinham um ao outro pra escalar.

Era uma montanha sem fim. A mesma que todo mundo ali, em cada Academia, queria escalar pra se tornar o mais forte.

Por mais uma hora, só houve as batalhas.

O Dex e o Gauls não tinham voltado. E o Aspas passou esse tempo todo encarando o outro lado da arquibancada — um ponto afastado das Academias, onde ninguém do grupo estava olhando.

Anya seguiu o olhar dele.

Havia um homem ali. Sozinho, no meio da multidão sem fazer parte dela. Rosto duro, apático, sem uma ruga de interesse pelas lutas. Segurava uma moeda e girava ela entre os dedos, devagar, sem parar.

Anya deixou o sentido correr até ele.

E não achou nada.

Não era como o Kifo, uma intenção limpa e firme. Não era como os Locutes, um peso hostil e estudando. Era nada. Um buraco no meio de todas as intenções do pátio. Ela enfiou o sentido naquele ponto do mundo e não tocou em pessoa nenhuma.

Aquilo a assustou mais do que qualquer ódio teria assustado.

O Aspas se inclinou devagar na direção do Leonidas, sem tirar os olhos do homem.

E o homem devolveu o olhar.

Por um segundo, os dois se encararam do outro lado do pátio. A moeda parou de girar entre os dedos dele.

E, nesse segundo, o Aspas falou. Sem baixar a voz.

— Achem o Dex e o Gauls. A gente tá indo embora.