Capítulo 48: Moeda Dourada
Capítulo 48: Moeda Dourada
Eles se levantaram todos de uma vez.
Nem o Bruto discutiu. Quando o Aspas falava daquele jeito — sem baixar a voz, sem disfarce — ninguém perguntava por quê. O Leonidas puxou a Anya pelo braço, o Astrax fechou a retaguarda, e o grupo começou a cortar caminho pela arquibancada lotada, rumo à saída mais próxima, empurrando por entre corpos que ainda gritavam pela luta lá embaixo.
Anya olhou pra trás uma vez.
O homem da moeda não estava mais olhando pra eles. Estava olhando pra própria mão. E então, devagar, abriu os dedos.
A moeda caiu.
Foi um som pequeno. Ridículo, no meio de milhares de gargantas gritando. Uma única moeda batendo na pedra, tilintando, rolando até parar. Não devia dar pra ouvir. Não devia importar.
Anya ouviu.
E o mundo mudou no instante seguinte.
O primeiro barulho foi nas portas. Um estalo grave, fundo, que veio de todos os lados do pátio ao mesmo tempo — todas as saídas, cada arco por onde a multidão tinha entrado. Anya virou a tempo de ver. Sobre a saída mais próxima, a pedra acendeu. Não com fogo. Com linhas. Um desenho subiu do chão até o alto do arco, riscos que brilhavam num vermelho doente, se cruzando, se fechando, formando um selo que ela nunca tinha visto. Quando o desenho se completou, a passagem deixou de ser passagem. O ar dentro do arco ficou sólido, escuro. Uma parede que não era parede.
Fechado. Todos, ao mesmo tempo. Milhares de pessoas, e nenhuma porta.
Por um instante, o pátio inteiro ficou em silêncio. O grito da luta morreu na garganta de todo mundo de uma vez. Todos tinham visto os selos. Todos tinham entendido, no mesmo segundo, que não havia mais como sair.
Foi aí que as janelas abriram.
Lá em cima, nos andares das construções que cercavam o pátio, atrás das pilastras douradas, as janelas se escancararam juntas — dezenas delas, uma fileira inteira, batendo contra a pedra com um estrondo que percorreu a arquibancada. E, das janelas, veio o cheiro primeiro. Podre. Fundo. Cheiro de Abismo.
Depois vieram elas.
As criaturas desceram pelas paredes de cabeça pra baixo, cravando na pedra garras que abriam sulcos por onde passavam. Não eram grandes. Eram rápidas. Corpos magros e retorcidos, pele cinza esticada sobre osso, bocas que ocupavam metade da cara e não paravam de abrir e fechar. Vinham às dúzias. Vinham às centenas. Desciam pelas pilastras douradas, pelos muros, pela borda das arquibancadas, e caíam no meio da multidão presa como uma chuva de dentes.
O primeiro grito não foi de torcida.
Foi o de uma mulher, três fileiras abaixo, quando uma das coisas caiu sobre ela e a arrastou pro chão. Depois veio outro grito. Depois vieram todos. Num instante, a arquibancada inteira — os soldados, os apostadores, a caravana, as Academias, o mundo bonito e sujo do Aperto — virou um inferno.
Carne encurralada, gritando, se pisoteando, tentando fugir por portas que não existiam mais.
Anya sentiu tudo de uma vez.
Não com os olhos. Com o outro sentido, o que a Marionete tinha afiado nela à força. Mil intenções explodindo em pânico ao mesmo tempo, e por cima delas, entrando como agulhas, a fome das criaturas. Sede pura, sem pensamento, sem raiva, só vontade de rasgar. Foi demais. Ela cambaleou, a mão na cabeça, o mundo girando de tanta coisa gritando dentro dela.
— ANYA! — A mão do Bruto fechou no braço dela e a puxou de volta. — O que está fazendo? Vamos!
Ela abriu os olhos.
O Aspas já tinha a espada na mão. O Leonidas, uma faca em cada punho. O Astrax se pôs na frente dos dois mais novos, os pés firmes, encarando a maré de garras e dentes que descia na direção deles.
E, do outro lado do pátio, no meio do caos, uma única pessoa não corria.
O homem da moeda. Sentado. Calmo. Ele não olhava pras criaturas. Não olhava pras portas seladas, nem pra multidão sendo despedaçada.
Olhava ao redor. Esse era o seu palco.
E Anya entendeu, com o estômago gelando, que era esse o ponto. Que todos aqueles selos, todas aquelas criaturas, todas aquelas mortes começando ao redor dela tinham um único público.
— Onde estão aqueles dois idiotas? — O Ione tinha guardado as moedas no bolso num piscar e corria com o grupo contra a maré de gente. As pessoas empurravam de um lado pro outro, gritando, se amontoando contra a porta. — Aspas, não tem como sair.
— Eu sei disso.
O Tenente olhou pros lados. As outras Academias também tinham se movido em bloco, e Antares ainda estava lá embaixo, perto do pátio. Era burrice voltar agora. Ele não ia arriscar o grupo pra ajudar um punhado de gente só porque vestiam a mesma cor.
— Astrax, segura a retaguarda. A gente vai pelos corredores do meio.
Foram juntos, na mesma direção que o Dex e o Gauls tinham tomado antes. E esbarraram numa parede de gente tentando empurrar uma porta que não existia mais. Era impossível se mexer ali.
No meio daquilo, Anya sentiu um cheiro.
Um cheiro que fazia muito tempo não entrava direito no nariz dela. Adocicado, terroso, errado. Ela conhecia aquele cheiro. Tinha aprendido a conhecer com alguém que não estava mais ali pra ensinar. Parou. O Bruto parou também. Depois o Astrax.
— O que você tá fazendo, Anya? — O Astrax chamou a atenção dos outros. Todos pararam por ela. — Vamos.
— Aquilo é… — No topo da porta, onde o brilho do selo era mais forte, tinha uma rodela roxa, soltando um tufinho de esporos no ar a cada segundo. — É uma erva.
— Erva. — O Aspas juntou as peças. — É um feromônio. Então é isso.
As criaturas já saltavam do pátio pras arquibancadas, bebendo o sangue dos que tinham caído lá embaixo. E agora corriam na direção do resto dos vivos. Anya olhou pras outras entradas. Era o mesmo. No topo de cada uma, uma rodela roxa soltando esporo no ar.
Não era só uma prisão. Era um chamariz. As portas prendiam a comida, e a erva chamava a boca.
— A gente não tem tempo pra isso. — Uma voz conhecida chegou até eles. O Dex chegou com o Gauls, os dois cheios de cortes, o olhar acabado. — Quem fez isso não tá sozinho. Vão vir mais. A gente tem que sair de algum jeito.
— Como?! — O Bruto gritou com o próprio primo por cima dos berros de pânico. — Tá selado!
— Aquele desgraçado deve ser o controlador. — O Aspas virou a cabeça pro outro lado da arquibancada, onde um único homem apreciava a vista sem se mexer. — Joana, fica com o Gauls no meio. A nossa missão mudou.
Do outro lado do pátio, o homem ergueu o olhar na direção deles. E soltou uma risada leve.
— Parece que alguém vai se mexer. — A boca dele mal se moveu. Mas todos ouviram com clareza, por cima de tudo, como se ele tivesse falado no ouvido de cada um. — Venham, vermes do exterior.