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Capítulo 49: Maldições

Bug Espadachim — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 49: Maldições

As criaturas chegaram.

A primeira veio pela lateral, rasteira, rápida, a boca aberta buscando a perna do Bruto. Ele nem olhou. Fechou a mão na cabeça dela no ar, apertou até o crânio ceder com um estalo molhado, e jogou o corpo mole pro lado. Outra veio. Depois três. Depois o corredor inteiro delas.

O grupo virou um muro.

O Aspas na frente, a espada cortando em arcos curtos e limpos, cada golpe achando o pescoço, a junta, o olho. O Leonidas do lado dele, as duas facas trabalhando baixo, abrindo barriga e tendão. O Astrax na retaguarda, sozinho, segurando uma onda inteira sem recuar um passo. O Bruto no meio, sem arte nenhuma, só quebrando o que chegasse perto. E, no centro, a Joana com o Gauls ferido, o Ione de faca na mão pela primeira vez sem sorrir.

Anya lutava do lado do Bruto.

A Bug entrava e saía, e ela nem precisava olhar — sentia as criaturas antes de elas chegarem, a fome delas riscando o ar, e a espada estava sempre lá antes da boca. Uma. Outra. Não eram fortes. Eram muitas. E “muitas” tem um limite que “forte” não tem: uma hora o braço cansa.

Do outro lado da arquibancada, o homem da moeda levantou a mão.

Não jogou nada. Não gritou nada. Só abriu os dedos no ar, devagar, e o mundo em volta do grupo azedou.

Anya sentiu de novo o mundo se retorcer em algo diferente. Do nada, do ar entre uma criatura e outra, brotaram formas. Escuras. Erradas. Mas tinham peso — davam passos, projetavam sombra, cheiravam a terra queimada. Eram reais.

Pareciam… a palavra surgiu na mente de Anya, mas ela não conseguiu concluir direito.

Uma delas foi pra cima do Astrax. Ele girou a faca e cravou fundo no peito da coisa — um golpe de morte, daqueles que ele acertava dormindo. A lâmina entrou. A criatura estremeceu.

E, antes de morrer, sumiu.

Virou fumaça sob a faca dele, se desfez no ar, levada embora no meio do próprio fim. O Astrax cambaleou pra frente, o braço atravessando o vazio onde um segundo antes havia carne. E, do lado, outra já brotava do nada, rasgando o ombro que ele tinha deixado aberto no golpe.

— NÃO ADIANTA! — o Astrax berrou, girando pra se defender. — ELE TIRA ELAS ANTES DA GENTE MATAR!

Anya sentiu na pele o que ele dizia. Cravou a Bug numa das formas escuras — um corte limpo, mortal, o aço mordendo fundo — e sentiu a coisa começar a ceder sob a lâmina. Viva.

Aí ela simplesmente não estava mais lá.

Sumiu no meio do golpe. A espada de Anya terminou o arco no ar, e a ferida que ela tinha aberto se desfez junto com o corpo. Trabalho pra nada.

Maldição. A palavra finalmente veio na cabeça dela.

O Bagre tinha ensinado sobre elas muitos anos atrás, quando estavam praticando e estudando as ervas mais mortais do mundo. Ele adorava as histórias, mas nunca se sentia feliz em contar atrocidades.

— Elas são como sombras, sabia? — O jeito tímido dele era diferente do dos outros irmãos. Segurava uma florzinha branca na mão e, quando tocou uma pétala com o outro dedo, as pétalas morreram na hora. — São feitas pra sumir e aparecer. Mas estão vivas.

— E como você curaria elas?

— Curar? — O Bagre não riu da pergunta. Ficou pensativo. — Não dá pra curar uma maldição, Anya. Só dá pra tirar a dor dela do mundo. Elas foram feitas pra serem eternas.

Não era porque as coisas fossem invencíveis. Elas não eram — dava pra feri-las, dava pra matá-las. O problema era o homem do outro lado. Ele não defendia as criaturas dele. Ele as jogava fora. Mandava uma, deixava ela ferir, e a arrancava do mundo no instante em que ia cair, antes que o golpe do inimigo valesse alguma coisa. Depois mandava outra. E outra. E outra.

Cada maldição atacava uma vez e era descartada. Cada golpe do grupo acertava e era desperdiçado. Eles podiam lutar a noite inteira, ganhar cada troca, matar cada coisa — e não sair do lugar. Porque o homem tinha maldições de sobra, e eles tinham só dois braços cada um.

O homem da moeda riu de novo, longe, tranquilo. Abria e fechava a mão, e a cada vez que fechava, mais formas nasciam do ar.

Anya entendeu, no meio do sangue, a única verdade que importava ali.

As criaturas do Abismo, dava pra matar. As maldições, também — só que não adiantava, porque ele nunca deixava o golpe terminar. De um jeito ou de outro, era a mesma armadilha: um poço sem fundo de inimigos, feito pra sangrar o braço de todo mundo até não sobrar braço nenhum.

A menos que alguém apagasse a mão que os fazia.

Ela olhou pro outro lado do pátio. Pro homem sentado, calmo, no meio do fim do mundo.

A missão tinha mudado mesmo.

Não era sair.

Era chegar nele.

— Não tem mais ninguém em volta da gente.

O Bruto olhou pros lados enquanto segurava uma das criaturas pelos braços e os entortava, arrancando um grito dela. Anya olhou também. Ele estava certo, e era pior do que parecia. A multidão tinha sumido daquele pedaço da arquibancada. Não porque tinha fugido. Porque tinha acabado. Só sobravam os Red Hunters, de pé no meio de um vão aberto de corpos e sangue, e as coisas que continuavam vindo.

— Dex, ele está concentrado.

Anya sentiu a mesma coisa que o Bruto tinha visto. Do outro lado do pátio, o homem da moeda não estava relaxado. Por baixo da calma, tinha uma tensão fina, presa, constante — o esforço de quem segura muitos fios ao mesmo tempo e não pode soltar nenhum. Ele precisava se concentrar pra fazer aquilo. Cada maldição que nascia, cada uma que sumia, saía dele.

— Eu sei. — O Dex defletiu dois monstros de uma vez e jogou uma adaga, rápido, mirando o outro lado do pátio.

Uma das maldições surgiu no ar no meio do caminho. Agarrou a adaga. E sumiu com ela.

— Merda. — O Dex recuou um passo. — Eles podem fazer isso também?

Podiam. Nada ia atravessar aquele campo por cima. Nem lâmina, nem flecha, nem nada que voasse. Ele tinha uma parede de maldições entre ele e o mundo, e a parede pegava tudo que chegasse perto e desaparecia com aquilo. A única coisa que ainda podia alcançar o homem da moeda era um corpo. Alguém indo até lá, no meio de tudo, com os próprios pés.

— Vai ser impossível assim.

O Gauls falou baixo, ainda ajoelhado no centro do grupo, a mão apertando o corte fundo na lateral. O rosto dele estava cinza. Cada gota de sangue que ele perdia deixava o grupo mais lento, e ele sabia disso melhor que ninguém.

— Tenente. — Ele ergueu os olhos pro Aspas. — Precisa chegar até ele. Me deixa aqui.

— Ninguém vai ficar pra trás.

Anya girou rápido e travou a espada contra o golpe de uma maldição que vinha de cima. E, quando a coisa chegou perto, o rosto dela — que antes não dava pra ver — ficou à mostra.

A cara da maldição, torcida, rasgada, os olhos amarelados cheios de raiva e… lágrimas, encarava Anya com fervor. O Bruto também notou. O Dex também. Viram a criatura desaparecer como as outras, deixando Anya desequilibrada.

— O que foi isso? — O Bruto jogou a criatura que segurava contra as outras. — Vocês viram?

Anya girou a cabeça pro homem da moeda. Ele ainda não tinha percebido, não àquela distância, mas uma das maldições dele tinha sido descoberta.

Agora Anya lembrava bem. Do último dia em que viu o irmão.

A lembrança viva da última pessoa que lhe deu um presente antes de partir.

— Eu… vim deixar uma coisa pra Anya. — Ele ergueu o braço num gesto meio sem graça, segurando um pequeno feixe de ervas atado com barbante grosso. Cheirava de leve a madeira queimada e a alguma coisa mais doce que ela não soube nomear. — É pra proteção contra maldições antigas. Alguns desses territórios têm camadas de feitiçaria velha que o equipamento padrão não detecta, então… — Ele pigarreou. — Vou só deixar aqui…

Os olhos dela se encheram de água. Ela enfiou a mão dentro da roupa e pegou o feixe de ervas que ele tinha deixado naquele dia. E amarrou depressa na bainha da Bug. Uma bolsinha tão pequena que nem parecia fazer diferença.

Era a vida do irmão dela — o conhecimento, a experiência — salvando a vida da caçula.

— Eu vou cortar a sua cabeça, desgraçado! — Anya deve ter sido ouvida, porque o homem soltou uma risada em resposta.

Uma maldição é uma alma atormentada, trazida de volta, Anya. A voz do Bagre voltava de vez em quando. Eu sinto pena delas.