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Capítulo 05: Marionete dos Dez Braços

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Capítulo 05: Marionete dos Dez Braços

— Bem-vindo. — Uma voz serena soou em seus ouvidos, vinda de lugar nenhum e de todo lugar ao mesmo tempo.

Anya caminhou para fora do caminho branco e parou.

O gramado se estendia em todas as direções até onde os olhos alcançavam — aparado com uma precisão quase obsessiva, cada fio de grama no mesmo comprimento, a superfície levemente ondulada como um tecido bem estendido. A cor era um verde profundo e saturado, o tipo que parecia iluminado por dentro, sem que houvesse uma fonte de luz óbvia no céu acima. Porque não havia céu, exatamente — havia uma luminosidade difusa, branca e suave, que simplesmente existia sem origem.

Ela conhecia os Abismos Pessoais pela teoria. Eram chamados de cubos personalizados justamente porque tinham limite — finitos por definição, moldados pela situação interna do portador no momento em que foram forjados dentro do Abismo real. Não eram cópias do Abismo. Eram recortes. Fragmentos que alguém havia encontrado lá dentro e decidido guardar.

Jones havia forjado aquilo num espaço dentro do Abismo real. Havia entrado naquele lugar — onde os demônios atacavam de todos os lados, onde a pressão do ambiente era suficiente para dobrar a percepção de tempo e espaço — e havia encontrado isso.

Como? Como alguém acha um lugar assim lá dentro? Como fica parado o tempo suficiente para gravar um espaço quando tudo ao redor está tentando matar?

Anya olhou para o gramado e sentiu o ar nos pulmões — limpo, levemente frio, com um cheiro úmido de terra bem cuidada.

— Bonito. — A palavra saiu sozinha, quase sem querer.

Ela deu um pequeno passo à frente.

Algo se moveu no horizonte.

Anya forçou o olhar — uma forma distante, rápida, vindo na direção dela com uma velocidade que aumentava a cada segundo. Não dava para identificar o contorno, mas o movimento tinha energia demais para ser passivo. Fosse lá o que fosse, estava vindo com intenção.

Ficou parada. Calculou distância, velocidade, trajetória. Não havia árvore, coluna, nada entre ela e aquilo — só gramado aberto em todas as direções.

Ótimo.

— Jones, você voltou? — O berro veio junto com a criatura quando ela estava a uns vinte metros, e era um som completamente inesperado: divertido, risonho, cheio de uma energia que não combinava com a velocidade com que se aproximava. — Finalmente! Vamos lutar. Finalmente vou acabar com—

A criatura parou.

Anya estava de boca aberta.

A criatura também abriu a boca. Ficaram se encarando por alguns segundos que pareceram mais longos do que eram — Anya tentando processar o que estava vendo, a criatura aparentemente tentando processar o que não estava vendo.

Era alta, de proporções estranhas, com um rosto alongado que lembrava remotamente algo humano, mas que havia decidido não se comprometer com isso. A pele tinha aquela tonalidade esverdeada que combinava perturbadoramente bem com o gramado. E os braços — Anya começou a contar — um, dois, cinco, nove, dez. Dez braços se abrindo lentamente para os lados, cada um segurando uma arma diferente: uma lança, um machado de lâmina dupla, o que parecia ser um chicote de corrente, uma espada larga, uma adaga, e outras que ela não conseguiu catalogar antes de parar de contar.

O nariz pontudo ondulou. As narinas pulsaram como se estivessem farejando algo.

— Uma pirralha humana? — A criatura esticou o pescoço para a frente num ângulo que deveria ser desconfortável, os olhos — quatro deles, Anya notou agora — se estreitando. — Não. Não é só uma humana. Você é a irmã mais nova do Jones, não é?

O estômago de Anya fez algo complicado.

— O que… é você?

— Nossa. — Dois dos braços foram para a cintura num gesto que era inconfundivelmente indignado. — Que pergunta mal-educada. O Jones não te ensinou nada de boas maneiras? Ele também não era educado quando conseguiu chegar até aqui pela primeira vez. Tive que educar ele direitinho, e parece que vou fazer o mesmo com você.

— Educar? — Anya ainda estava processando os dez braços. — Quem é você?

— Sou muitas coisas. — Os braços se reposicionaram, alguns se cruzando, outros apenas existindo. — Mas você vai me conhecer pelo nome de demônio. — Uma risada aguda rasgou o ar, e Anya sentiu o som percorrer a coluna como água fria — não de medo, exatamente, mas de algo que o corpo reconhece antes de a mente nomear. — Sou a Marionete Brutal, do andar 120 do Abismo.

— 120? — Anya repetiu antes de conseguir se segurar. — O Jones chegou ao andar 120?

A Marionete deu de ombros — todos os dez braços participando do gesto de formas ligeiramente diferentes, o que criava um efeito visual perturbador.

— Ele é tão fraco que também me pergunto isso até hoje. Mas você tem sorte, não é? — Dois dos braços se esticaram à frente, e as armas que seguravam cresceram de tamanho de forma orgânica, como plantas crescendo rápido demais, apontadas na direção dela. — Veio atrás de um duelo, veio morrer pra mim.

— Ele disse que eu poderia treinar aqui.

O rosto da Marionete torceu. Não era uma expressão que Anya conseguisse classificar com precisão — estava entre o desdém e algo que, em outro contexto, poderia ser chamado de afeição irritada.

— Ah. Aquele idiota. — Uma pausa. Os braços baixaram um pouco. — Seu nome é Anya, pirralha? A irmã mais nova do Jones? — Não esperou resposta. Inclinou a cabeça, os quatro olhos percorrendo-a de cima a baixo com uma atenção avaliativa que era desconfortável de receber. — Então ele passou o Abismo Pessoal dele pra você. — Outro silêncio. — Bom. Talvez ele não seja tão idiota assim.

— Por que parece que você o conhece?

— Porque eu o conheço, sua imundice. — A risada, dessa vez, foi mais curta, mais pessoal, como uma piada interna. — O Jones é meu brinquedo faz anos. Muitos anos. Sempre chegava aqui com aquela armadura ridícula e aquele escudo enorme, e ficávamos nisso: eu atacando, ele defendendo, eu me cansando, eu parando. — Um dos braços gesticulou com a lança de forma casual, descrevendo uma rotina entediante. — Ele nunca me venceu diretamente. Eu nunca o destruí por completo. Ficou nisso por muito tempo. — Os quatro olhos se fixaram em Anya com uma intensidade nova. — O que significa que sou mais forte do que ele. E logo, mais forte do que você.

Anya sentiu a mandíbula apertar. A Marionete falava com aquela mistura de arrogância e diversão que era quase mais irritante do que uma ameaça direta. Ela poderia acabar com Anya num instante — era isso que emanava do corpo dela agora.

O Jones treinava contra isso. A ideia aterrissou com peso. Todo esse tempo, era contra isso.

— Então. — A Marionete respirou fundo com uma satisfação audível, e todos os dez braços se abriram ao mesmo tempo, cada arma em punho, o conjunto criando uma silhueta que ocupava o campo visual de Anya, simplesmente engolindo qualquer rota de fuga. — Vamos começar? Onde está sua espada?

Anya abriu a boca.

Fechou.

— Eu… não trouxe.