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Capítulo 50: Ilusão

Bug Espadachim — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 50: Ilusão

— ABRAM CAMINHO PRA ELA!

A voz do Dex cortou o pátio, e o Astrax e o Bruto não perguntaram por quê.

Os dois se jogaram pra frente, lado a lado, e viraram uma cunha. O Bruto quebrava tudo que aparecia — criatura, maldição, não importava, ele pegava e jogava e abria buraco na parede de corpos. O Astrax cortava o que sobrava, rápido e fundo, cobrindo cada brecha que o gigante deixava. E, atrás deles, no rastro aberto no meio do inferno, ia a Anya.

A Bug na mão. O feixe do Bagre balançando na bainha.

Eles ganhavam terreno. Metro por metro, corpo por corpo, o homem da moeda ficava mais perto. Anya já conseguia ver o rosto dele — a apatia, o tédio, a moeda parada entre os dedos. Mais alguns passos. Mais alguns. Ela apertou o punho da espada.

Foi aí que ele olhou pra ela. De verdade, pela primeira vez.

E sorriu.

— Ah. — A voz dele chegou perto demais outra vez. — Chegaram, finalmente.

Ele fechou a mão no ar. Mas não como antes. Dessa vez foi devagar, com cuidado. Ele procurava. Procurava fundo, uma coisa específica. E o chão na frente da Anya começou a ferver.

Não era uma maldição das pequenas. O que subia do vão de corpos era grande. Alto. Foi ganhando forma no ar — ombros, braços, um tronco que ela conhecia, uma altura que ela conhecia — e Anya parou de correr sem decidir parar.

Não.

As pernas dela travaram. A Bug quase caiu da mão.

A coisa terminou de nascer e ficou de pé no meio do pátio, entre ela e o homem da moeda. Enorme. Errada. Mas com um rosto que ela tinha enterrado. Um rosto que ela via toda noite quando fechava os olhos. Um rosto que morreu num dia de março e nunca mais voltou.

Krall.

O irmão mais velho dela. De pé outra vez, no meio do sangue.

Do outro lado, o homem da moeda soltou o ar, satisfeito.

— É engraçado. — Ele girou a moeda entre os dedos de novo. — Todo mundo tem um. O rosto que dobra a pessoa em dois. Eu só preciso procurar. — Os olhos apáticos dele encontraram os dela. — O seu estava logo ali. Bem na frente. Do tamanho do mundo.

E Anya, imóvel, com a espada do Krall na mão e as ervas do Bagre na bainha, encarou o irmão morto que tinha vindo matá-la.

— Isso…

Era triste vê-lo com um rosto tão apático. Tão triste. E pior ainda com a boca se abrindo, em súplicas.

— Irmão.

O Aspas e o Dex viram a maldição tarde demais. A espada de Anya já estava baixando, perdendo a força de antes, só pra segurar aquilo que ela tinha perdido e, no fundo, mais queria de volta.

O calor dos irmãos dela.

— Não é como se ela fosse a única. — O homem fechou a mão, e as outras maldições passaram por ela, indo na direção do resto da equipe. — Um homem que vive buscando a morte não pode ter a vida que sempre sonhou pra si.

Anya viu o irmão erguer uma arma gigante, feita de sombra e fumaça, pronta pra descer. E, no rosto caído dele, o olhar podre, cheio de amargura.

— Desculpa. Desculpa por isso. Eu não queria te acertar. — Era o que as palavras dele diziam. — Desculpa por te matar…

O Krall nunca faria isso.

Ele nunca pediria desculpa por acertá-la. Nunca ergueria a espada só pra matar um ser que não queria morrer. Ele era justo, orgulhoso, rígido demais. Nunca, em hipótese nenhuma, pediria desculpa pra irmã mais nova.

Nenhum deles. Nenhum dos quatro.

A arma de sombra desceu, as sombras se juntando e se dispersando em segundos. E Anya levou os olhos pra além do Krall, pra aquele homem desgraçado. O ódio dela tinha chegado no limite. O luto tinha se enchido de lembranças antigas. E ela nunca, jamais, deixaria ser atingida só porque a coisa usava a cara do irmão.

E a Bug subiu.

As duas lâminas se chocaram, e o estalo ressoou junto com o balançar da bolsinha de ervas — os esporos e o cheiro se instalando entre os dois. Anya segurou o golpe. Ele forçava o corpo dela contra o chão, pesado, mas ela não cedia por nada.

Rangia os dentes, mordia os próprios lábios, os braços fincados e tremendo pra segurar um golpe tão forte.

— Meu irmão… — O sangue escapou da boca dela. — Era mais forte do que isso, seu maldito.

A Bug rasgou o Krall ao meio.

Um golpe só. Seco. A lâmina do irmão atravessou a imagem do irmão do ombro ao quadril, e a sombra que fingia ser ele se abriu, se desfez, virou fumaça no ar. Não sobrou nada. Nunca tinha sobrado nada. Só a cara roubada de um morto — e agora nem isso.

Anya não parou pra ver.

Já estava andando de novo, na direção do homem da moeda, a espada pingando um líquido escuro. Ele a viu vir. E fez a única coisa que sabia fazer.

Fechou a mão. Uma maldição nasceu na frente dela. Anya cortou. Fechou a mão de novo — outra. Cortou. Outra. Cortou. Elas vinham uma atrás da outra, do ar, da terra, dos cantos, e a Bug encontrava cada uma antes de ela terminar de nascer. O feixe do Bagre balançava na bainha a cada golpe, soltando o cheiro que as criaturas do vazio não suportavam.

E Anya passava por elas uma a uma. As garras encontravam os braços dela, os ombros, as costas — feriam, tiravam sangue — e ela não desacelerava por nenhuma. A dor não chegava. Nada chegava. Só o homem, cada vez mais perto.

— ANYA! — A voz do Dex, longe. — ANYA, ESPERA!

Ela não ouviu.

— É UMA ARMADILHA! VOLTA AQUI! — O Aspas, mais longe ainda.

Ela não ouviu isso também. Não ouvia mais nada. O ódio tinha subido até os ouvidos dela e tapado tudo. O mundo inteiro tinha encolhido pra um ponto só, uma cara só, apática e entediada e viva, cada vez mais perto da ponta da Bug.

Ela chegou.

Bem na cara dele. Perto o bastante pra ver o próprio reflexo nos olhos mortos do homem. Perto o bastante pra ele finalmente parar de sorrir.

Ele ergueu a mão, e da mão cresceu uma espada — a dele dessa vez, de sombra e fumaça, longa e afiada — e desceu num corte que teria partido a Anya em dois.

Anya se abaixou.

Não pra fugir. Pra enganar.

Ela deu à espada dele um lugar pra ir. Ofereceu o ombro, telegrafou a esquiva pro lado errado, deixou o corpo dizer uma coisa e fazer outra — a espada enganosa, a última lição do Krall, na cara do homem que tinha usado o Krall contra ela.

Ele leu a mentira. Comprometeu o golpe no vazio onde ela já não estava.

E, no instante em que a espada de sombra passou reto pelo nada, a Bug subiu.

Entrou no peito do homem da moeda e saiu pelas costas.

Um rombo. Fundo. No meio do peito, do tamanho da raiva que abriu ele.

— Isso é por ter usado o rosto do meu irmão. — E girou a espada, fazendo os órgãos dele se retorcerem por dentro. — Você não achou que perderia aqui, não é?

E, quando ela puxou, o sangue negro jorrou pra fora. O homem caiu, a mão batendo no chão, cuspindo o que havia dentro do próprio corpo. Olhou pra garota na frente dele.

— Você… é protegida pelos Ancestrais?

Ele tentou esticar a mão. Anya levou a lâmina até a garganta dele, obrigando ele a erguer o queixo à força.

— Tenho outros três que me protegem.

E riscou a lâmina na carne.