Capítulo 51: Os Vivos
Capítulo 51: Os Vivos
O homem parou de se mexer.
E, com ele, tudo parou.
As maldições — as que rasgavam o Astrax, as que se jogavam no Bruto, as que enchiam o pátio — congelaram no ar, todas ao mesmo tempo, e se desfizeram. Fumaça. O cheiro do vazio foi embora com elas. Sobrou só o Abismo de verdade, as criaturas comuns, mortais — e, aos poucos, até elas recuaram, sem a mão que as chamava.
O silêncio veio depois. E foi pior que o barulho.
Anya continuou de pé sobre o corpo, a Bug pingando, a respiração raspando. E, devagar, o ódio começou a escorrer pra fora dela, parecido com o sangue de uma ferida que finalmente é estacado.
No lugar que ele deixou, entrou tudo o que ela não tinha deixado entrar antes.
O som veio primeiro. O choro. Os gemidos. As centenas de pessoas feridas, e as centenas que não iam se levantar mais, espalhadas pela arquibancada que uma hora atrás gritava por duelo. Ela tinha atravessado tudo aquilo sem ouvir. Agora ouvia.
Depois veio a dor. Os cortes que as maldições tinham aberto nos braços dela, nos ombros, nas costas — não tinha sentido nenhum na hora. Sentiu todos de uma vez, e as pernas quase cederam.
E, por último, veio o resto.
Ela tinha cortado o Krall ao meio.
Sabia que era mentira. Sabia que era uma sombra, uma cara roubada, uma maldição sem nada dele dentro. Mas as mãos dela ainda lembravam o peso da lâmina entrando naquele rosto, e não havia razão no mundo que fizesse aquilo doer menos. Ela tinha erguido a espada do irmão contra o irmão. Mesmo que não fosse ele. Mesmo assim.
Anya olhou pra baixo, pra bainha, pro feixe de ervas do Bagre balançando de leve, ainda soltando aquele cheiro fraco de madeira queimada. A mão dela subiu e fechou em volta dele. Apertou. Era o mais perto que ela ia chegar de segurar a mão de um deles de novo.
Obrigada , pensou, pros quatro. De novo.
— Anya.
A voz não estava mais longe.
Ela ergueu os olhos, e o Bruto estava ali, na frente dela, sujo de sangue dos pés à cabeça, um olho fechado de inchaço, respirando pesado. Atrás dele, o Aspas. O Dex. O Leonidas com o Gauls escorado no ombro. Vivo. Vivos. Todos.
O Bruto não disse mais nada. Não perguntou se ela estava bem — dava pra ver que não estava, ninguém ali estava. Só estendeu a mão grande e feia, e esperou.
E Anya, que tinha atravessado um massacre inteiro sem sentir nada, sentiu os olhos arderem.
Pegou a mão dele.
Deixou que ele a puxasse pra longe do corpo, de volta pro meio dos vivos, de volta pra família que ainda respirava. E, no caminho, pela primeira vez desde aquele dia de março, Anya deixou uma lágrima cair sem ter vergonha dela.
Só uma.
I
O navio partia com a maré da manhã.
Levaram alguns dias pra poder ir. Dias de contar mortos, de separar os feridos que iam viver dos que não iam, de arrancar os selos das portas — que só caíram depois que o corpo do homem da moeda esfriou. Dias de silêncio, numa cidade que uma semana antes fervia de apostas e gargalhadas.
Anya subiu a prancha do navio por último.
Parou no convés e olhou pra trás uma vez.
O Aperto continuava lindo. Era essa a pior parte. A água ainda era daquele azul impossível, os telhados vermelhos ainda subiam pelos rochedos, as gaivotas ainda rodavam por cima de tudo, alheias. E, sobre a entrada da baía, as duas mãos de pedra ainda se seguravam lá no alto, gigantes, entrelaçadas, jurando uma trégua que já não valia mais nada.
Alguém tinha quebrado o Aperto. Na frente do mundo inteiro.
O Ione tinha dito, no dia da chegada, que ninguém ousava — que quem quebrasse o pacto quebraria com todo mundo de uma vez. Anya olhou pras mãos de pedra e pensou que talvez fosse exatamente esse o ponto. Que talvez alguém quisesse mesmo todo mundo contra todo mundo.
Ela não sabia quem. Não ainda.
— Para de olhar. — O Bruto encostou na amurada do lado dela. Tinha o braço enfaixado de novo, e dessa vez não era por estilo. — Não faz bem.
— Eu sei.
Mas ficou olhando mais um pouco. Os dois ficaram.
— Os outros estão esperando a gente.
Atrás deles, o resto do grupo se acomodava no convés. O Aspas na proa, de olho no horizonte, com uma pasta de papéis debaixo do braço que ele não tinha na chegada — o que quer que ele tenha ido escutar, escutou. O Dex sentado, de olhos fechados, deixando o corpo descansar enfim. O Leonidas amarrando um curativo no Gauls, pálido mas vivo, reclamando de fome, o que era um bom sinal. O Ione contando uma coisa que não eram moedas, pela primeira vez. A Joana. O Astrax. Todos.
Gauls ainda estava ferido, sendo medicado, mas estava fora do risco de morte.
— Não é a melhor maneira de ir embora. — O Aspas falou, e todos ouviram. — Muita gente tem pergunta, e não vai achar resposta no lugar errado. A gente volta, faz o relatório do que aconteceu, e deixa os Capitães e os Comandantes resolverem. Nada vai continuar do mesmo jeito. Nem pras famílias que estavam lá, nem pra quem viu tudo e saiu vivo. — Passou os olhos pelo grupo. — Isso inclui vocês.
Anya sentou-se em um caixote de madeira, com a cabeça baixa.
— No Abismo é mais fácil. — O Leonidas respondeu ao Tenente. — Pelo menos lá a gente já sabe que tem que ficar atento a tudo. Mas aqui? Aqui é dez vezes pior.
— Foi por isso que aquele cara fez assim. — O Ione respirou fundo. — Ninguém esperava que ele tirasse criatura do Abismo. E a gente não sabe nem de que andar elas vieram. Nunca enfrentamos nada parecido. Os grupos vão ter que se reunir lá dentro pra descobrir de onde saíram.
— É o que a gente vai fazer também. — O Dex chamou a atenção do grupo. — Esses dias foram turbulentos, mas a gente confirmou umas coisas. O ataque ao Bruto não era só sobre ele. Outros andares também tiveram gente capturada e usada como isca. Queriam atrito entre as próprias Academias, pra causar esse estrago.
— Quem fez isso? — perguntou a Joana.
— Não sabemos. — O Dex abriu os olhos. — Mas foi um plano orquestrado pra matar o máximo de gente possível.
Foi então que o navio soltou as amarras. A cidade bonita e morta começou a ficar pra trás, e as duas mãos de pedra passaram por cima deles uma última vez, a sombra dos dedos entrelaçados escorregando fria pelo convés antes de ir embora.
Anya fechou os olhos e deixou o vento do mar bater na cara dela. Tocou o feixe de ervas na bainha da Bug. Depois a adaga deixada por Nisha, e no final, o Abismo Pessoal de Jones.
Se perguntava se eles realmente haviam deixado para ela presentes ou eram formas de a proteger. Era possível que… eles tivessem deixado tudo isso por que sabiam que iam morrer na missão?
Ela não queria responder essa pergunta, mesmo que fosse curiosa.