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Capítulo 52: Sede de Sangue

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Capítulo 52: Sede de Sangue

A Academia recebeu a Anya do mesmo jeito de sempre. Com indiferença.

Ninguém parou pra perguntar de onde ela vinha. Ninguém reparou nos cortes fechando nos braços dela, no cansaço que pesava nos ombros. Os soldados passavam pelos corredores como em qualquer outro dia, indo pros treinos, pros refeitórios, pras próprias vidas pequenas e vivas. Nenhum deles sabia. Nenhum deles ia saber.

Anya atravessou tudo aquilo sem falar com ninguém. Foi direto pro quarto.

Fechou a porta atrás de si, e o barulho da Academia sumiu.

O quarto era o mesmo. Pequeno, de sempre. A cama estreita, a parede nua, a janela que dava pro pátio de treino — onde a chamaram de coisa estranha, onde o Jerico segurou o pulso dela, onde tudo aquilo tinha começado. Parecia outra vida. Parecia de outra pessoa.

Ela tirou a Bug das costas e apoiou na parede, com cuidado. O feixe de ervas do Bagre balançou de leve na bainha e parou. Anya olhou pra ele um instante. Depois sentou na cama.

Em algum lugar, o quarto do Jones esperava. A Marionete esperava, com todas as mãos e todas as facas. Mas hoje não. Hoje o corpo dela tinha dito não — e, pela primeira vez, a Anya obedeceu.

Porque, pela primeira vez em dias, não havia mais nada pra fazer.

Ninguém pra proteger. Ninguém pra alcançar. Nenhuma criatura, nenhuma maldição, nenhum rosto roubado, nenhum inimigo sem nome. Só o quarto, o silêncio, e ela.

O corpo entendeu antes da cabeça. Os ombros cederam. As mãos, que tinham apertado a espada com tanta força por tanto tempo, se abriram sozinhas no colo. E o cansaço — o de verdade, o que ela vinha empurrando pra trás dia após dia pra continuar de pé — veio todo de uma vez.

Ela se deitou sem tirar a roupa. Sem se cobrir. Só se deitou, de olhos abertos, encarando o teto de que conhecia cada rachadura.

Lá fora, era só mais um dia na Academia. Ali dentro, uma garota que tinha atravessado o fim do mundo tentava lembrar como é que se descansa.

Não lembrou. Mas o corpo lembrou por ela — e, antes que ela decidisse dormir, já estava dormindo.

Acordou quando a porta foi batida novamente. E ela se levantou devagar, ainda sonolenta, e segurou a maçaneta. Antes de girar, seus sentidos aguçaram na hora. Havia alguém ali fora com uma sede de sangue enorme.

Seu corpo inteiro vibrou com a sensação, e a fez despertar ainda mais rápido. Devagar, ela puxou a porta e deu uma olhada. Era o Sargento Jimmy do outro lado, a fitando de lado com as sobrancelhas cruzadas, preocupado.

— Anya, o que aconteceu? Está tudo bem?

A sensação ainda não tinha ido embora. Por que?

— Sim, eu acho. — Ela não abriu a porta totalmente, mantendo-se alerta. — O que precisa, senhor? Estou um pouco cansada.

— Ah, claro. É uma reunião. O Comandante solicitou uma reunião agora tarde por conta dos acontecimentos. — Seus olhos percorreram o interior, mas Anya não tinha dado espaço. — Precisa de tempo para se arrumar?

— Posso lavar meu rosto antes de irmos?

— Claro. — Ele deu um passo pra trás, pro corredor. — Eu espero aqui. A gente vai junto.

Anya fechou a porta devagar. Encostou nela por dentro, a mão ainda na maçaneta, e deixou o sentido correr mais uma vez pro outro lado da madeira.

A sede de sangue continuava ali. Parada. Esperando.

E ela não fazia a menor ideia de quem era.

Anya lavou o rosto na bacia do quarto. A água fria tirou o resto do sono, mas não tirou nada do frio na nuca.

Prendeu o cabelo. Vestiu o casaco. Olhou pra Bug, encostada na parede — e deixou ela ali. Levar a espada do irmão pra uma reunião do Comandante ia levantar perguntas que ela não queria responder. Mas amarrou uma adaga no cinto, por baixo do casaco, onde ninguém via. Depois abriu a porta.

O Jimmy ainda estava ali. E a sede de sangue também.

Foram andando juntos pelo corredor. O Sargento falava — alguma coisa sobre o quanto a viagem devia ter sido dura, sobre estar feliz que ela tinha voltado inteira — e Anya respondia com uma palavra aqui, outra ali, a maior parte da cabeça em outro lugar. No sentido. Na coisa fria que continuava pressionando ela.

Ela testou.

Diminuiu o passo, deixou o Jimmy ganhar meio metro na frente. A sensação não diminuiu. Apressou o passo, colou no ombro dele. Não aumentou. Não era ele. O que quer que fosse aquilo não andava com o Jimmy. Estava parado em algum lugar, fixo, e eles iam na direção.

Isso era pior.

Porque significava que era ela quem estava caminhando pra dentro daquilo. De vontade própria. Escoltada por um Sargento que não fazia ideia.

Passaram por outros soldados no caminho. Anya lia cada um de relance, procurando — o cansaço de um, o tédio de outro, a fome, a pressa, as intenções pequenas e vivas de gente normal fazendo coisa normal. Nenhum deles era a sede de sangue. Ela continuava à frente. Sempre à frente. Crescendo a cada porta que eles deixavam pra trás.

— É logo ali. — O Jimmy apontou o queixo pro fim do corredor, pra uma porta dupla de madeira escura. — O Comandante já deve estar esperando.

Anya olhou pra porta.

E soube, sem precisar de mais nada, que era dali que vinha.

A coisa que tinha acordado ela. A sede de sangue enorme, parada, esperando. Estava do outro lado daquela porta. No meio da reunião que o Comandante tinha convocado por causa do massacre.

O Jimmy esticou a mão pra maçaneta.

— Vamos?

Anya respirou fundo. A mão dela, sem ela mandar, encostou de leve na adaga escondida no cinto.

— Vamos. — Ela não se mexeu, e o Sargento notou. — Antes da gente ir, queria perguntar uma coisa. Só o Comandante tá me esperando lá, ou tem mais alguém?

A pergunta deixou o Jimmy curioso.

— Por que você tá perguntando isso?

Ela olhou pra ele de lado.

— O Comandante normalmente manda um Tenente ou um Capitão reunir as pessoas pra uma reunião. — Ela não desviou o olhar. — Tá na lei militar. O que eu não entendi é por que é tão tarde. E por que essa reunião tem que ser justo na sala do antigo Diretor Paiz.

— Foi escolha do Comandante.

Anya deu um passo pra trás. O Jimmy pôs a mão atrás das costas, ainda achando aquilo curioso.

— O Comandante precisa pedir com sete dias de antecedência pra usar aquela sala. — Mais um passo, e o Jimmy deu mais um. — A gente voltou faz menos de vinte e quatro horas. A lei militar não permite…

— A lei militar é decidida pelo Comandante. — A voz dele ficou mais baixa. — Anya, você tá questionando uma ordem direta do Comandante. E minha.

— Um Sargento não pode puxar patente com um soldado de Ranking 1 dentro da Academia. — Mais um passo. E, dessa vez, os braços do Jimmy ficaram soltos. Os dedos largos começaram a se fechar, e a expressão dele mudou. — O senhor sabe que tá cometendo uma infração, não sabe?

Um segundo depois, as mãos do Sargento subiram pro rosto, e ele suspirou pesado.

— Que saco, Anya. — Mas o olhar dele não era cansado. Era determinado. — Por que você é tão irritante quanto os teus irmãos?