Capítulo 53: Ataque na Academias
Capítulo 53: Ataque na Academias
— Me entrega o que eles te deram e você não se machuca. — O Jimmy mudou a expressão na hora, pra uma coisa fria e rígida. — Eu sei que eles te deram. Então me dá logo, e você pode ir embora.
Era mentira.
A ansiedade de Anya disparou. Os sentidos dela começaram a berrar, e a sensação de morte que vinha da outra porta ia aumentando cada vez mais. Não importava o que ela fizesse ali. Ia ser morta de qualquer jeito.
— Eles não me deram nada. — Ela recuou mais um passo, e o Jimmy avançou um. — Do que o senhor tá falando, Sargento?
— Não se faz de boba. Eles te procuraram antes de partir. Cada um deixou uma coisa de valor, eu sei que deixaram. Mas você não pode usar nada daquilo. — A mão do Sargento começou a ir pras costas. — Eles foram mortos. E não deviam ter deixado… nada.
Então era esse o Sargento?
O mesmo que chorou quando a notícia da morte deles chegou. O mesmo que entregou a Bug pra ela sem ressentimento nenhum. Impossível.
— E então, o que vai ser, pirralha?
Os olhos dela se estreitaram.
Ninguém a chamava assim dentro da Academia. Nem superior, nem inferior. Não era ele. Ela tinha certeza.
— Eu vou…
O braço do Sargento afrouxou, e Anya viu a chance.
Girou no próprio eixo, na direção do corredor, e disparou correndo o mais rápido que conseguia.
O Jimmy soltou uma risada irritada e correu atrás.
— Merda, Anya.
Anya corria.
Os corredores da Academia passavam rápido dos dois lados — portas, tochas, esquinas — e atrás dela os passos do Sargento vinham firmes, pesados, mais rápidos do que um homem daquele tamanho tinha o direito de ser. Ele não gritava mais. Não chamava o nome dela. Só corria.
E isso a deixava extremamente assustada.
Pensa . Pensa.
O quarto não servia — era um beco sem saída, e a Bug encostada na parede não ia adiantar contra o que quer que aquilo fosse. Um superior? Qual? A reunião era mentira, a sala do Diretor Paiz era uma armadilha, e ela não sabia mais quem no Comando era gente e quem era outra coisa vestindo cara de gente. Não dava pra confiar em ninguém de dentro.
De dentro.
Anya cortou uma esquina com força, os pés quase escorregando na pedra, e a resposta veio de uma vez.
Os Red Hunters.
Era fim de turno. Depois do turno, eles bebiam no salão — sempre. O Bruto, o Ione, o Leonidas, todos, jogados nas cadeiras tortas com uma caneca na mão, do outro lado do quadro. Não eram do Comando. Não eram da Academia de verdade. Eram os únicos ali que ela sabia, com certeza, que eram quem diziam ser.
Era pra lá que ela ia.
Trocou de direção na bifurcação seguinte, cortando pro lado dos alojamentos velhos, pro corredor esquecido onde o quadro de madeira com o círculo riscado esperava. O Sargento xingou atrás dela quando percebeu a mudança.
— VOCÊ NÃO VAI CHEGAR LÁ! — A voz dele já não era a do Jimmy. Era mais funda. Mais velha. — NINGUÉM VAI TE AJUDAR, ANYA!
Ela não respondeu. Guardou o ar pros pés.
Podia pular. Por um instante o Erro coçou nos dedos dela, oferecendo a saída. Mas ela não escolhia onde caía — podia reaparecer numa parede, ou na frente dele, ou num lugar pior. Correr às cegas já era arriscado. Pular às cegas era morte. Ela engoliu o Erro e confiou nas pernas.
Seus sentidos liam o corredor antes dos olhos — sem ninguém, caminho livre, o quadro cada vez mais perto. E, colada nas costas dela, a sede de morte ganhando terreno metro por metro, porque o desgraçado era rápido, rápido demais, e ela estava sem espada, sem fôlego, sem nada além das próprias pernas e de uma esperança do outro lado de uma porta de madeira.
Correu mais rápido.
A porta do salão estava fechada. Ela não se importou.
Quando chegou perto, puxou todo o ar que tinha e se jogou pra frente. A porta escancarou num estrondo, e Anya caiu lá dentro, de joelhos e mãos no chão de madeira, o peito subindo e descendo, o corpo sem mais nada pra dar.
A música morreu.
As vozes morreram.
De uma vez, o salão inteiro parou. Todos ali — o Bruto com a caneca no meio do caminho pra boca, o Ione, o Leonidas, o Astrax, a Joana, e uma dúzia de outros que ela nem conhecia direito, independentemente da patente — viraram o rosto pra garota caída no chão, sem fôlego, o olhar dela já girando pra trás, pra porta aberta.
E, na porta, ele parou.
— Eu disse… — começou o Jimmy.
A frase morreu na boca dele.
Porque ele tinha dito que ninguém ia ajudar. E agora estava parado no vão da porta, encarando uma sala cheia. Vinte, trinta pessoas. Todas de pé, ou se levantando, as canecas largadas, os olhos indo da Anya caída pra ele, um por um, e endurecendo.
Não era mais um corredor vazio. Não era mais uma garota sozinha.
O silêncio se inverteu. Um segundo antes, era a sede de sangue dele que enchia o ar. Agora era a de todos os outros.
E o Bruto, do meio da sala, se levantou devagar, os olhos grudados no Sargento. E sequer deu tempo dos outros falarem:
— Quem é você?
— Merda. — disse o Sargento. Ou seja lá quem esse homem fosse de verdade. — Logo pra cá, sua pirralha. Mas… isso não muda nada.
De dentro da roupa, nas costas, ele puxou duas adagas. Afiadas, com um fiozinho avermelhado no gume.
Anya se pôs de pé, a Joana e o Astrax ajudando ela e puxando pra trás dos outros.
— Ele me atacou no corredor. — A voz dela chegou a todo mundo na sala. — Ele não é o Sargento Jimmy.
— Claro que não é. — O Aspas se levantou da mesa, a cara fechada, um olhar brutal no inimigo. — Ele tá fedendo a Abismo. O Jimmy nunca pôs os pés lá.
O “Jimmy” ergueu os braços, rindo.
— Ora, me pegaram. Quem diria que a pestinha ia vir correndo direto pros amiguinhos? — Girou uma das adagas nos dedos. — Mas isso não muda nada. Tendo vocês todos aqui ou não, tanto faz. Vão morrer antes que alguém chegue. E eu saio por aquele portal ali no canto.