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Capítulo 55: Sombras e Ferro

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Capítulo 55: Sombras e Ferro

O “Jimmy” se partiu em muitos.

Não eram sombras paradas dessa vez. Eram dez, doze, vinte imagens dele, todas sólidas, todas com as adagas vermelhas na mão, e todas se jogaram no Bruto ao mesmo tempo. De todos os lados. De cima, dos lados, de trás. A “Dança da Sombra” — um exército de um homem só, e nenhum jeito de saber qual era o de verdade.

Qualquer outro teria morrido ali, cortado de vinte ângulos de uma vez.

O Bruto não.

“Corpo de Ferro.”

As adagas encontraram a pele dele e não entraram. Bateram, rasparam, soltaram faísca e escorregaram. O corpo do Bruto tinha virado outra coisa — impenetrável, pesado, cada músculo maior do que era um segundo antes. Ele ficou de pé no meio da tempestade de lâminas, encaixando golpe atrás de golpe sem sangrar, e revidando com punhos que agora rachavam o chão só de errar.

Mas não bastava.

Porque ele acertava as imagens. Uma, outra, cinco — cada uma que ele pegava se desfazia em fumaça, e o de verdade continuava lá no meio, cortando, cortando, procurando o vão que o ferro não cobria: os olhos, a boca, as juntas. Aos poucos, o sangue começou a aparecer nos pontos que a habilidade não protegia. O Corpo de Ferro tinha limite. A Dança da Sombra, não.

Anya viu isso da beira da sala. E viu também o que o Bruto não conseguia ver.

Entre as vinte imagens sem alma, uma tinha intenção.

Só uma. Um único ponto de sede de sangue no meio do exército de fumaça — real, quente, o único que queria de verdade. O sentido dela travou nele antes que a cabeça pensasse.

— BRUTO! — A voz dela cortou a sala. — ATRÁS DE VOCÊ! O DE VERDADE TÁ ATRÁS DE VOCÊ!

Ele não perguntou como ela sabia. Não precisava disso. Confiava nela.

Girou de uma vez, o corpo de ferro rodando com o peso de uma porta de cofre, e a mão dele — enorme, dura, impossível — passou por cima de três imagens de fumaça e fechou em cima de uma coisa sólida.

Carne. Osso. Um pulso de verdade, com uma adaga vermelha na ponta.

O “Jimmy” arregalou os olhos.

— Achei — disse o Bruto.

E fechou a mão.

Ele segurou o “Jimmy” pelo pescoço e girou. Jogou ele contra o chão, depois contra a parede, e não largou de jeito nenhum. A defesa do inimigo estava prestes a ser destroçada com aqueles golpes.

Preciso recuar o quanto antes. Mas… como, agora?

Antes que a mente dele chegasse a uma conclusão, o Bruto largou ele por um segundo. Aí pegou o tornozelo dele e bateu ele no chão mais três vezes, antes de subir em cima dos dois braços dele.

Não estalaram. Mas iam. Se a armadura oculta se quebrasse, ele perderia os braços ali mesmo.

— Você cometeu um erro, sabia? — O Bruto fechou o punho. O olhar dele estava cheio de ódio. — Não devia ter vindo atrás dela.

Fumaça começou a escapar da boca dele. E o corpo enrijeceu de novo.

— Eu tava muito puto porque não consegui fazer nada contra aquelas maldições. — Os dedos dele se fecharam, e o punho começou a ganhar uma cor avermelhada. — Você chegou numa hora muito boa, hein.

Pela primeira vez, o “Jimmy” sentiu o coração gelar.

Mas… ainda tinha uma chance.

— Eu não posso morrer pra você. — Os dedos dele se alinharam, tremendo com o peso do grandalhão em cima, mas ele conseguiu juntar. — Não que eu fosse conseguir isso sem ajuda. “Sombras da Tempestade.”

Os dedos dele estalaram.

O corpo do Sargento ficou translúcido de novo, e aí tudo virou sombra. O Bruto olhou pra trás, depois pra frente. A sala inteira escureceu. Um breu total. Ele não conseguia ver os amigos, nem o inimigo.

O mundo inteiro perdeu a cor num instante.

— Eu disse que você não podia me vencer. — A voz dele veio de todo lugar e de lugar nenhum. — Ninguém… pode, aqui fora!

No breu, os soldados tateavam, cegos, chamando uns aos outros. O Bruto girava no escuro, os punhos fechados, sem alvo.

Mas tinha outra pessoa naquela sala capaz de encerrar aquele mundo.

O Ione uniu as duas mãos e respirou fundo.

As Habilidades Físicas eram sempre feitas pra levar o corpo ao auge — por um preço. Puxavam o futuro pro presente e depois se fechavam em volta dele, sem deixar sobra.

Mas as mais belas não eram essas.

E o Ione não precisava saber lutar. Nem guiar uma espada até o inimigo. Conduzir os aliados à vitória — em forma de ordem ou não — era o que a cabeça dele mais queria.

Dentro ou fora do Abismo, ninguém vai morrer de novo por minha causa.

Um estalo dentro do breu. Todos ouviram.

— “Mundo Transparente.”

E o próprio “Jimmy” praguejou por dentro ao ouvir aquelas duas palavras. Porque, no instante em que foram ditas, o mundo inteiro clareou de uma vez.

E o Sargento já estava com o braço erguido, pronto pra acertar a nuca do Bruto.

O primeiro a se mexer foi o Astrax.

O rapaz girou na direção deles, pegou um pedaço de madeira do chão e usou como arma. Estourou os dois braços do “Jimmy” pro lado, forçando ele a cair e rolar pra longe.

— Dex. — O Astrax esticou a mão pra trás. — Me deixa acabar com isso. Por favor.

A espada chegou à mão dele no mesmo instante.

O Dex ainda balançava os braços, de dor e cansaço, e se jogou numa cadeira que tinha sobrado inteira. O Aspas ficou do lado dele, observando com atenção.

— Corte os dois braços dele.

Anya já tinha visto o Astrax lutar. Mas ele parecia outro agora. Quando brandiu a espada pro lado, a presença que o Bruto e o Sargento tinham enchido o ar sumiu de uma vez. Agora era a sede de sangue daquele homem pequeno que dominava a sala, os olhos arregalados sem largar o “Jimmy” por nada neste mundo.

— Parece que vocês têm muita carta na mão. — O “Jimmy” fez força e ficou de pé, ainda segurando as duas adagas. — O que você vai me mostrar agora, garoto? Como cortar pra cima e pra baixo? Não me faz…

Alguma coisa passou por ele.

O “Jimmy” sentiu um aperto no peito, e a cabeça dele virou pro lado, ainda sem entender. Alguma coisa desabou no chão. O braço direito dele… tinha sido decepado no mesmo segundo.

O “Jimmy” soltou um berro de dor e largou a adaga da outra mão. O sangue espirrava, manchando o ar, e só os gritos daquele homem ecoavam pelo salão e pelos corredores. O Astrax ainda segurava a espada, agora apontada pra frente.

— “Corte Limpo.” — A habilidade de saque que, bem, não servia mais só pra sacar. O Astrax tinha permissão pra ir até o fim. — Aquela garota já sofreu demais nesses últimos dias, seu verme infeliz. Agora é você que vai sofrer.

Ele se abaixou, jogando a arma pra frente e um dos pés pra trás.

— “Chuva de Lâminas.”

O “Jimmy” tentou esticar a mão. Precisava conjurar uma habilidade. Precisava sair dali a qualquer custo. E, antes que conseguisse conjurar qualquer coisa, os cinco dedos dele foram fatiados de uma vez só.

Eles voaram pra cima. Depois o pulso. O antebraço. O ombro. Em um segundo, o Astrax rasgou a carne, os músculos e os ossos como um açougueiro experiente, e saiu do outro lado.

Mas, na lâmina dele, não havia uma gota de sangue.

O assassino tinha caído para trás, um baque surdo, com sua expressão horrorizada. A boca aberta, com um minimo de som saindo, e seus olhos arregalados, travados no tempo. Ele sofreu um choque imenso de uma só vez.

— A mente dele colapsou — informou Ione sem sair do lugar. — Podia ter feito ele sofrer mais, Astrax.

— Ele não tinha o direito depois do que fez. — O espadachim jogou a espada de volta para seu lider, mantendo o olhar no assassino até o último instante. — Eu cortaria até os tendões dele se fosse necessário.

Foi realmente a primeira vez que Anya viu todos eles em ação de maneria tão grande. No Aperto, na conferência, eles não tinham feito metade disso. Mas, eram criaturas do Abismo e Maldições, eles não tinham como fazer muito.

Mas… foi o suficiente para matar um homem como aquele.

Se eu estivesse sozinha, não ia ter chances.

Ela encarou aquelas pessoas ao redor dela, ainda sendo abraçada por Joana. E ficou extremamente agradecida. Se não fosse por eles, estaria morta.

— Mexam-se — ordenou Aspas. — Precisamos levar eles até os Capitães para interrogatório.

O Tenente encarou Anya, e fez uma expressão de dor.

— Mesmo que não entenda muito, sues irmãos eram maiores do que imagina. Isso — esticou a mão ao redor num gesto simples — é o resultado de quem eles eram e o que faziam. Desculpe por não conseguir te proteger antes.