Capítulo 56: Respiro
Capítulo 56: Respiro
— Tá tudo bem agora. — A Joana segurava um copo de chá e entregou pra Anya. — Eles vão resolver.
— O problema não é eles resolverem. É acontecer de novo. — Anya detestava a sensação de trazer problema pra gente que não tinha nada a ver com aquilo. — Ele roubou o rosto do Sargento e veio atrás de mim. E eu tive que correr pra cá.
— Que bom que veio, sinceramente. — A Joana não deixava o sorriso morrer. — Perder alguém tão forte quanto você é uma coisa que a gente não podia deixar acontecer, né?
Não era engraçado, mas Anya esboçou um sorriso.
— Eu não sei o que ele queria de verdade. — comentou. — Meus irmãos deixaram algumas coisas, mas não são muitas. São coisas simples, até.
Ela deixou o Abismo Pessoal de fora. Era o mais importante — o que ninguém podia saber. Mas as ervas do Bagre também tinham salvado a vida dela.
— Ele queria umas coisas tão… pequenas.
A Joana deu de ombros.
— Não devem ser tão pequenas assim, se ele queria. Mas não precisa pensar nisso agora. O Aspas e o Dex vão levar aquele cara pro Comandante, e a gente descobre de onde ele é. Depois disso, a gente vai pra caçada.
As duas se encararam.
— Caçada? Atrás do quê?
— Um assassino treinado que entra numa Academia sem respeitar o tamanho do que isso significa? Mesmo que ele fosse do 50º andar, a gente ia fazer questão de caçar quem mandou aquele rato. — A Joana fez outra careta. — Já fizemos isso antes. Pelo Ione.
— O Ione foi perseguido?
A Sargento fez uma cara de choque.
— Ele nunca te contou? Nossa. Achei que ele fosse falar logo de cara, porque vive dizendo que as cicatrizes precisam ser vistas pra que outras não sejam feitas. — Deu de ombros. — Uma hora ele te conta. Mas a gente foi até o 42º, com a ajuda de umas pessoas, atrás de um grupo de mercenários.
Anya deu um gole no chá.
— E o que aconteceu?
— Bom, a gente achou ele. E o final foi um desfecho desleal. — Ela esfregou a folha de chá dentro de um copo, amassando com vontade. — Foram dizimados daquele andar. A gente fez eles evaporarem.
Anya ficou muda.
Não fazia ideia de que eles faziam isso só por causa do problema de um membro do grupo. Se fosse mesmo assim… eles iam subir o Abismo pra caçar quem tinha feito aquilo com ela?
Duvidava muito que fosse tão importante assim.
— Não fica se perguntando se vale a pena. — A Joana pareceu ler a mente dela. — Quando fizemos isso pelo Ione, ele era Ranking 1, igualzinho a você. E, mesmo assim, quando ele subiu pro Ranking 3, ainda tinha coisa pra ser feita. Sempre vale a pena fazer por quem tá sempre com a gente.
— Nem fiz nada ainda pra ajudar…
— Tá brincando? — A Joana soltou uma risada de lado. — Você acredita mesmo no que tá falando? Você acabou com aquele cara das maldições no Aperto e ainda salvou um monte de gente. O Gauls voltou vivo por tua causa. E tenho certeza que, quando ele souber, vem correndo falar contigo.
— Não precisa disso tudo.
— Sei que não precisa. Todo mundo sabe. Mas a gente faz mesmo assim. — A Joana entregou outro copo, dessa vez de chá amarelado. — Esse é pra ferida interna. Não sei se você usou alguma habilidade, mas é bom se precaver.
— E os outros? Vão ficar bem também? — perguntou, preocupada.
— São fortes. O Dex e o Aspas vão ficar ocupados essa semana, e o resto volta pra rotina. Mas aqueles três vão ter que ficar um tempo na enfermaria.
Claro que iam. Tinham usado habilidade demais pra enfrentar uma pessoa só. E isso cobrava do corpo. Era esse o problema, pra Anya.
Eles tinham feito aquilo pra salvar ela.
— Você devia ir na enfermaria ver como eles estão. Seria o certo. — A Joana se levantou e esticou a mão pra ela. — Mas agora vem. Toma o teu chá e vamos dar uma volta. Precisamos melhorar essa tua cara de bunda. O Leonidas deve ter feito um almoço decente lá na hospedagem. Vamos?
***
A enfermaria cheirava a erva e a álcool.
Anya parou na porta, e a coragem que ela tinha juntado no caminho quase escorreu pelo chão. Os três estavam ali. O Bruto numa maca, o peito enfaixado, os dois braços roxos. O Astrax na cama do lado, um ombro imobilizado. O Gauls no fundo, pálido, mas sentado — o que já era bem melhor do que da última vez.
Todos machucados. Todos por causa dela.
Ela abriu a boca pra dizer alguma coisa. Um “desculpa”, talvez. Um “obrigada”. Não sabia direito.
— OLHA QUEM CHEGOU. — O Bruto tentou se levantar, gemeu, e desistiu na metade. — A heroína.
— Eu não sou…
— É sim. — Ele apontou pra ela com o braço roxo, careteando de dor no gesto e fingindo que não. — Chegou correndo no salão, caiu de cara no chão, e a gente teve que salvar. Puta heroína.
— Você caiu de cara no chão também — disse o Astrax, sem virar o rosto. — Duas vezes.
— Foi de propósito.
— Você gritou.
— Foi um grito de guerra.
O Gauls soltou uma risada fraca lá do fundo, e na hora segurou a lateral do corpo, gemendo.
— Não me faz rir, desgraçado — resmungou pro Bruto. — Tá doendo.
— Você que tá fraco. — O Bruto cruzou os braços roxos com dificuldade, orgulhoso. — Eu levei um poder de sombra na cara e tô ótimo.
— Você tá numa maca.
— Descansando. Coisa de campeão.
Anya continuou na porta, e sentiu uma coisa estranha subir pelo peito. Ela tinha vindo carregando culpa. A certeza de que ia encontrar três homens quebrados por causa dela, olhando pra ela com cobrança, ou pior, com pena.
E encontrou isso: três idiotas discutindo quem tinha caído de cara no chão com mais estilo.
— A gente venceu, Anya. — O Bruto olhou pra ela, e dessa vez sem palhaçada, só por um segundo. — Todo mundo está bem. É isso que importa. — E aí estragou na hora: — E eu fui o mais foda, óbvio.
— Você foi carregado até aqui por duas pessoas — disse o Gauls.
— Eu ANDEI. Com ajuda.
— Isso é ser carregado.
E foi aí que aconteceu.
Anya riu.
Não foi grande. Foi curto, meio sem jeito, uma coisa que escapou antes que ela conseguisse segurar. Mas foi uma risada de verdade — das que ela achava que tinha perdido junto com os irmãos. E os três pararam de discutir pra olhar pra ela.
O Bruto abriu o maior sorriso do mundo.
— Tá vendo? — disse ele, baixinho, quase pra si mesmo. — Consegui.
— Conseguiu o quê?
— Nada. — Ele se ajeitou na maca, satisfeito. — Vem cá. Senta. Deixa eu te contar como foi que EU ganhei a luta e não o nanico do Astrax.
Astrax só revirou os olhos, fingindo discórdia.
— Vai lá, Campeão. Conta pra ela.
E Anya, pela primeira vez em muito tempo, sentou sem pressa nenhuma de ir embora.