Capítulo 57: Desejo
Capítulo 57: Desejo
O salão não tinha janelas. As tochas ardiam com uma chama esverdeada presa às paredes de pedra, sem estalo, sem fumaça, sem o cheiro de resina que o fogo deixa quando é fogo de verdade. A luz caía de cima para baixo e não aquecia nada.
No trono de madeira, um Esqueleto girava dois objetos entre os dedos: um colar pequeno e um anel. As falanges se moviam devagar, cada osso raspando no outro com um clique seco, e o anel refletia a chama num tom verde que não pertencia ao metal.
Diaz estava de joelhos. A testa quase tocava o chão.
— É uma incompetência enorme dizer que seu grupo falhou, Diaz. — Severus inclinou o corpo para o lado, e a luz escorreu pelos dedos até fazer o anel brilhar. — Nós tivemos sucesso em todas as outras. Todas. Menos o seu time. Seu pequeno e áspero time falhou em matar algumas pessoas dentro de Antares.
Diaz não respondeu. Sabia que a pergunta ainda não tinha vindo.
— Como é possível não conseguir matar umas duas pessoas para termos a essência? — A voz continuava baixa. Era pior baixa. — A consumação de uma vida para nos manter de pé. Apenas para nos manter inteiros onde vivemos. Como pode ser tão… qual é a palavra mesmo, Ribaru?
Ao lado do trono, o servo esqueleto fez uma leve reverência.
— Idiota, senhor.
— Isso. — Severus finalmente o encarou. Diaz sentiu o olhar sem precisar levantar os olhos. — Como pode ser tão idiota em não conseguir fazer o mais simples que existe. Tirar a vida. Colher uma alma. Sabe o que acontece quando alguém falha na missão, Diaz?
— Sim, meu lorde. — A garganta seca. — Eu sei.
— Ótimo. — O Esqueleto recostou de novo. — Os humanos aprendem com a dor. Depois que morrem, deixam isso de lado. Param de sentir. Mas os que carregam uma dor imensa no peito, esses continuam devotos. Devotos ao desejo de permanecer vivos até completar o que ficou por completar. — Uma pausa. O colar girou uma volta inteira. — Seu subordinado falhou em capturar uma pessoa. E pior: não está aqui para me dizer o que houve. Só me resta especular que morreu. E que levou junto o que sabia sobre você. Sobre o Ribaru. Sobre os nossos planos. Sobre mim.
A pressão desceu antes das palavras seguintes. Diaz recuou meio palmo, a testa raspando a pedra.
— Meu lorde, se me permitir, faço outra remessa e ataco Antares o quanto antes. — As palavras saíram rápido, empilhadas. — Nossa missão no Aperto foi um sucesso. Coletamos almas para o senhor, muitas. E ainda tivemos os que vieram de fora, tantos deles. Se o senhor permitir, eu faço de tudo para…
— CALADO.
A pressão fechou sobre os ombros dele de uma vez. Diaz dobrou até a testa encostar no chão. Ribaru não se mexeu. Não observava, não bisbilhotava. A única diferença entre o servo e o suplicante era que um estava de pé.
— Seu plano não deu certo. — Severus falou sem levantar o tom, e isso bastava. — A Relíquia que procuramos não respondeu a nenhuma das almas que você coletou. Nenhuma. — O anel deslizou para o dedo esquelético, encaixou no osso puro. — Só reforçou a força dela.
O silêncio se estendeu. Diaz não entendia o que aquilo significava, e teve juízo de não perguntar.
E então a carne começou a subir pelo osso. Músculo, veia, pele, tudo se costurando sozinho da falange ao pulso, parando ali, num punho de gente. Severus fechou a mão nova e a abriu, testando os dedos.
— O desejo dos mortos — disse — é nunca mais estar morto.
Na manhã de um final de semana, Anya já estava de pé e no Centro de Pesquisas. Era o único lugar onde dava para converter o Jurax que ganhava em créditos para a Academia, e por isso vivia cheio. Ela entrou na fila de um dos balcões e esperou.
Um Cabo se aproximou por um dos lados. Não disse nada. Deixou um pedaço de papel dobrado na bancada ao lado dela e seguiu em frente sem olhar para trás.
Anya encarou o papel. Não abriu.
Já era a quarta vez. Da última, era um desenho: o nome dela dado de batismo a alguma criatura do Abismo, uma coisa de patas tortas e boca aberta. Antes disso, uma piada sobre não conseguir se defender. Antes ainda, sobre ser fraca. Sempre a mesma faixa. Ela sabia o que ia estar escrito sem precisar desdobrar.
Não hoje.
Deixou o papel onde estava e continuou olhando para frente.
— Bom dia, soldado. — Bettane surgiu do outro lado do vidro, uma das Sargentos responsáveis por contas e transferências. — Como posso ajudar?
— Conversão. — A saca de moedas saiu do bolso e escorregou por baixo do vidro. — Quatrocentos e cinquenta de Jurax. Já deixei programado.
— Sem problemas.
Bettane pegou a saca, contou as moedas com calma e mandou o conjunto pelo tubo que levava à Tesouraria. Voltou algum tempo depois com um recibo.
— Depositado como você pediu. Quer o ranking atualizado?
— Não precisa.
— Tem certeza? — Bettane correu o olho pelos registros. — Aqui diz que falta só algumas dezenas para você poder solicitar o avanço para o Ranking 2.
Anya já sabia. No Aperto, Ione tinha faturado alto na competição, e uma parte veio parar no ranking dela. Não esperava que fosse quase o suficiente. No ano anterior, tinha levado os doze meses inteiros para subir um degrau. Agora, seis meses. Se um dia arrumassem um jeito de fazer Jurax rápido, seria mais rápido ainda.
— Está tudo bem, Bettane. Já vou indo. Obrigada pela ajuda.
— Claro. Qualquer coisa!
Anya deu as costas e saiu. Percorreu os corredores até o salão onde tinham cuidado dela algumas semanas atrás. Quando cruzou a porta, alguns dos que estavam sentados nos cantos ergueram a caneca para ela, e o homem atrás do balcão acenou.
Ela sentou no fundo. Pediu uma cerveja. Bebeu olhando para a parede à frente, e respirou fundo.
Era dia de voltar ao trabalho.
Aspas e Dex tinham dado três semanas de descanso. A única coisa que Anya fez nesse tempo foi lutar contra a Marionete. Todo dia, quase meio dia inteiro lá dentro — e lá dentro o tempo não corria como aqui fora. Do lado de dentro, pareciam meses. Do lado de fora, três semanas contadas.
Em todas as sessões ela morreu. E acordou logo em seguida, inteira, na estaca zero, para começar de novo. O corpo já nem estranhava mais uma lâmina o atravessando. Isso não era conforto. Era só o que tinha virado.
— Agora sim, chegamos! — Um grupo entrou no salão de mão erguida, cumprimentando os outros em voz alta. Vestiam verde, com um colar de X no pescoço. — Brian, arruma uma dúzia de copos cheios pra gente, faz favor.
Se jogaram numa mesa do outro lado. Brian levou os copos. O grupo tinha voltado da Capital, onde escoltou uma mercadoria valiosa até outra cidade e bateu em bandido no caminho todo. Pelo menos era a versão que contavam ali, cada vez mais alta a cada rodada.
Anya deixou eles se gabarem. Não era história dela.
— Anya. — Brian a chamou pelas costas. — Mais uma?
— Por favor.
Devolveu a caneca vazia e recebeu a cheia. Bebeu por mais uma hora. Quando o estômago cobrou, aceitou o prato da casa, comeu e se levantou, pagando a conta em Jurax. Brian agradeceu e se despediu.
Foi até o quadro, o ponto de onde a levavam para o Abismo. E, de costas para a mesa dos verdes, ouviu.
— O Comandante anda irritado esses dias. Dizem que foi alguma coisa no vigésimo andar. Ia ser bom a gente dar uma passada lá depois, ver se está tudo certo.
Anya guardou a frase inteira. Guardava tudo agora — sem saber ainda onde ia encaixar, só sabendo que ia.
Encostou no quadro e o Abismo começou a puxá-la. Era só voltar ao trabalho, ela repetiu para si mesma. Só isso. Não precisava se atirar em outra luta maluca; já tinha tido as suas. Precisava era do Pequeno Mago. De nomes. De um fio que puxasse até a mão certa — a mão que assinou a missão dos irmãos dela e os mandou não voltar.
Puxou o ar frio do Abismo para dentro do peito.
Precisava disso.