Capítulo 58: Um Soldado Não Reclama (I)
Capítulo 58: Um Soldado Não Reclama (I)
Quando encontrou Leonidas dentro da Hospedagem, Anya parou na porta.
As paredes e o chão tinham sido arrancados e postos de novo. O piso estava tão reluzente que ela enxergava o próprio contorno nele, escuro e comprido, andando junto quando ela andava. As paredes ganharam pintura. O teto foi refeito quase inteiro.
Não tinha goteira em canto nenhum.
O Segundo Andar também estava pronto. Madeira nova nos beirais e nas portas, tudo com aspecto de coisa cuidada. E o que subia pela escada não era cheiro de mofo. Era de comida — vinha de um cômodo aberto no fundo, novo em folha.
— Anya? — A voz de Leonidas chegou antes dele, cheia de contentamento. — Que bom que veio. O pessoal saiu resolver umas coisas, mas eu preparo um prato bom pra nós dois.
— Está bem.
Ela puxou uma das cadeiras. Era das antigas, o assento afundado no meio. Mal encostou e Leonidas praguejou do outro cômodo.
— Eu mandei tirarem essas velharias daqui. Espera.
Voltou com uma cadeira nova, a madeira ainda sem uma marca de uso, e ficou parado até ela trocar. Anya sentou de novo e passou a mão na mesa lisa.
O dinheiro do Aperto tinha virado isso. Um teto sem furo. Uma cadeira em que ninguém mais tinha sentado antes dela. Ficou contente — não era um sentimento que ela soubesse segurar por muito tempo, mas naquele instante estava ali, e ela deixou ficar.
— Aqui. — Leonidas pôs os pratos na mesa, tudo bem servido, e sentou na frente dela.
Comeram sem pressa. Anya foi até o estômago pesar, empurrou o prato vazio e soltou o ar devagar.
— Você devia abrir o seu próprio negócio. — Falou ainda olhando pro prato. — Dava certo demais.
— Um dia eu abro. — Leonidas começou a empilhar a louça suja, um prato de cada vez. — Ainda tenho uns financiamentos pra quitar, coisa que eu tentei e não vingou. Mas depois, quem sabe, eu tento de novo. — Encarou-a por cima da pilha. — Veio falar com o Dex hoje?
— Não. — Ela recostou. — Fiquei parada essas semanas, desde o ataque. Já quero voltar às missões. Preciso de mais Jurax.
Leonidas parou com a louça na mão.
— Se é dinheiro de verdade que você quer, podia conversar com os Elfos. Ou com os Anões. — Recomeçou a empilhar. — Estiveram aqui mais cedo, procurando quem pegasse umas coisas nos andares de cima.
Anya levantou os olhos.
— Que coisas?
— Depois do décimo quinto tem áreas onde os grupos caçam as criaturas que andam em bando. É de lá que sai pele, osso, minério — tudo que eles vendem. — Leonidas apoiou a louça na bancada. — Só que os Elfos estão com algum problema no vigésimo. E não são só eles. Os Anões, as outras raças. Alguma coisa aconteceu lá em cima. Estão todos se reunindo. — Deu de ombros. — O comércio deles vive dessas coletas. Agora ninguém mais quer subir pra fazer.
Vigésimo andar.
A mesma frase que ela tinha guardado no salão horas antes, saída da boca dos soldados de verde. O Comandante irritado. Alguma coisa no vigésimo.
E agora os Elfos, os Anões, as outras raças — todos descendo do único lugar que ninguém queria subir.
Anya correu o olho pelo cômodo. O teto novo. A cadeira sem marca. O cheiro de comida quente vindo do fundo. Um lugar bom de ficar. Um lugar que dava vontade de ficar. Se ela não conseguisse concluir uma missão, voltaria para ali.
Mas já estava calculando como chegar ao vigésimo.
— Diga-me, humana. — O Elfo a encarava por cima da mesa, o olhar afiado apesar da idade. — O que veio fazer no meu escritório?
Ele era velho de um jeito que humano nenhum chegava a ser. A barba branca descia volumosa até quase o peito, e as rugas cruzavam o rosto em todas as direções. Os olhos não tinham nada de gasto.
— Disseram que estão com problema pra conseguir material. — Anya ficou de pé diante da mesa. — Vim me candidatar. Queria saber se tem algo pra mim.
— Sempre tem. Isso é fato. — Ele puxou um bloco de notas da gaveta ao lado e o pôs à frente. — Me chamo Kernnes. Mas pode me chamar de Senhor Ken. O que você faz? Espadachim?
— Sim.
— Bom. Trabalho não falta. — Correu o dedo pela página. — No décimo quinto, tem javali selvagem pra caçar. No décimo sexto, as Abelhas Famintas começaram a atacar os animais domésticos que cuidam das plantações. E tem uma família ali que precisa de ajuda: um bando de arruaceiros anda cobrando comissão dela. Simples humanos estúpidos. — Ergueu o olhar por cima dos óculos redondos. — Sem ofensa.
— Não me ofendi. — Ela sustentou o olhar. — Mais alguma coisa?
O vigésimo não saiu da boca dele. Anya reparou. Todos rodeavam o andar e ninguém dizia o nome.
— Se quer, tome. — Ken arrancou a folha com as instruções e a entregou. — Me traga a comprovação pelo Rudex, e eu pago.
Anya encarou o papel.
— Desculpa. O que é um Rudex?
O Elfo ergueu a mão e arrastou o dedo no ar. Uma tela pequena se abriu ali, num azul quase transparente, flutuando sobre a mesa.
— A confirmação de que você fez o que foi pedido. — As sobrancelhas dele subiram um dedo. — Como tem entregado suas missões até agora, jovenzinha?
— Entreguei o que me pediram. Só isso.
— Quanta confiança, vocês humanos. — A surpresa saiu do rosto dele tão rápido quanto tinha entrado. — É por isso que levam golpe e perdem dinheiro. Acham que confiança se firma na palavra. — Fechou a tela com um gesto. — Não ter um Rudex é um problema. Vou alugar um pra você. Cinco Jurax por semana. Preço justo.
— Por mim, tudo bem.
Ken tirou um papel dobrado de outra gaveta e o esticou sobre a mesa. Marcou um ponto no fim da folha e apontou.
— Assine, por favor.
Ela assinou. Quando abaixou o pincel estranho que ele tinha lhe passado, o pulso ardeu. O símbolo do Abismo, na pele dela, recebeu um corte na diagonal — uma linha que queimou ao se abrir. Anya recuou a mão e o encarou.
— O quê? — Ken deu de ombros. — É o Rudex. Tente.
Ela arrastou a mão no ar. A tela subiu, agora arroxeada, e tudo o que ele tinha pedido estava ali marcado: a quantidade, o andar, o essencial de cada tarefa.
— É isso. — O Elfo ficou de pé. — Quando terminar, volte e receba.