Capítulo 07: Primeira Morte
Capítulo 07: Primeira Morte
— Está muito mais lento do que o Jones era — gritou a Marionete, e havia algo diferente no tom agora; não era desdém. A desgraçada estava se divertindo com a luta. Se divertindo em acertá-la.
E, com ela, brincando.
Os dez braços brandiram da direita para a esquerda em uníssono, descendo como chicotes coordenados. Cada arma encontrou um ponto diferente — ombro, antebraço, lateral do quadril, a coxa já perfurada — não golpes para matar, Anya percebeu num canto distante da mente, mas para drenar. Para forçar cada grupo muscular a reagir até que não houvesse mais reação possível.
Ela foi empurrada para trás. Os pés arrastaram no gramado destruído, abrindo mais sulcos na terra, e ela precisou de três passadas descontroladas para não cair. A dor nos dedos havia passado de latejante para uma queimação surda. Os nervos não aguentavam mais. As pernas respondiam, mas com atraso.
Se continuasse assim, seria derrotada e morta.
A Marionete não havia oscilado. Nem velocidade, nem precisão, nem o ângulo dos braços. Estava exatamente igual ao primeiro segundo do combate, como se o tempo não a tocasse do mesmo jeito que tocava Anya.
Isso é o andar 120. O pensamento veio e foi embora. Não havia espaço para ele agora.
Os dez braços começaram a descer com mais ferocidade — não mais calibrados, mais livres, como se a Marionete houvesse decidido parar de economizar. Anya se debateu, jogando o corpo para uma ponta, depois para outra, a defesa deixando de ser técnica e virando sobrevivência pura. Não havia movimento certo. Não havia ângulo de ataque que não estivesse coberto por pelo menos três braços ao mesmo tempo.
A Marionete era impenetrável.
— No que está pensando? — A voz veio junto com a espada acertando pela direita, e então era só ela; só Anya e aquela espada, trocando golpe por golpe num ritmo que começou rápido e ficou impossível. Dois, três, cinco, dez, vinte trocas em poucos instantes, cada uma custando mais do que a anterior. — Buscando uma maneira de me acertar? — Uma pausa de meio segundo entre dois golpes, só o suficiente para a pergunta existir. — Está mesmo achando que consegue? Deplorável.
Anya sentiu a força sendo drenada como água por um ralo. Não de uma vez, mas continuamente, sem pausa para reabastecer. Os braços pesavam. Os pulmões pesavam. A espada emprestada havia se tornado um fardo pesado demais.
E então a espada da Marionete virou um flash.
Os olhos de Anya se arregalaram. O flash apareceu diante do rosto dela, perto demais para bloquear, perto demais para recuar, e então tudo ficou escuro.
Não era a escuridão do desmaio. Era outra coisa.
Aquela sensação. A mesma de quando estava com Krall no Abismo, treinando, naquela última vez — como se algo interno se desalinhasse e realinhasse ao mesmo tempo, como se os membros e a coluna e os ombros fossem partes de um mecanismo que alguém havia desmontado e remontado em frações de segundo, sem pedir permissão.
Os ombros se mexeram alguns centímetros. O rosto inclinou devagar. Os membros, todos juntos, como um conjunto e não como partes separadas, pareceram sair do lugar por um instante.
E, num estalo, ela foi lançada dois metros para a direita.
O gramado sob os pés era diferente. Intacto, perfeito, como se ela houvesse pousado num ponto que o combate ainda não havia tocado. Anya piscou. Olhou para onde estivera. A espada da Marionete havia cortado o ar exatamente onde seu rosto estaria.
A Marionete ergueu a cabeça devagar.
Os quatro olhos encontraram Anya com uma expressão que ela ainda não vira naquele rosto — não havia mais desdém nem diversão. Algo mais próximo de atenção real. As armas baixaram alguns centímetros; ela estava processando o mesmo que Anya. O movimento que ocorrera.
Ficaram se fitando. O gramado destruído entre elas, a luz difusa e constante acima, o silêncio repentino depois de tudo aquilo.
— Ah. — A voz da Marionete saiu um pouco mais baixa, mais quieta. — Agora entendi. — Os dez braços se reposicionaram devagar, as armas voltando às posições de espera. — Agora entendi por que ele te enviou aqui, pirralha.
Anya queria responder. Queria perguntar o que ela havia entendido, o que tinha acontecido, o que era aquilo que saía dela sem que pedisse.
Mas a força das pernas começou a ceder.
Não de uma vez — foi gradual, traiçoeiro. Os joelhos ameaçaram dobrar. Os dedos ao redor do cabo afrouxaram sem que ela mandasse, e ela os forçou de volta, apertando com o que restava de intenção consciente.
Os olhos pesaram.
Ela não tirou o olhar da Marionete. Não podia. Se tirasse, seria o fim — não porque a criatura fosse atacar, mas porque tirar o olhar seria admitir que estava caindo, e enquanto não admitisse, ainda estava de pé.
Não morre aqui.
A voz dentro dela não era de pânico. Era mais funda que isso — a mesma que havia movido os ombros dois metros para a direita sem consultar ninguém.
Não morre aqui.
De novo, antes que ela conseguisse se estabilizar, a Marionete se mexeu. Foi muito mais rápido do que antes, muito mais preciso. Os dez braços, diferente de todas as outras vezes, vieram de todos os lados de uma vez só.
No rosto da Marionete não havia mais sorriso. Era frieza. Anya não sabia por quê, nem de onde vinha a ideia; só deu certeza ao que a mente pedia. Fechou os olhos e deixou que chegassem.
Foi fatiada em dez posições diferentes.
Então isso é a morte?
O cheiro da morte era… de orvalho? De grama? Anya não queria mais abrir os olhos. Estava cansada demais. Estava mesmo? Ela forçou a mão e agarrou algo sólido. Os dedos não doíam mais, e os ferimentos abertos antes de ela ser fatiada nem pareciam mais estar ali para lhe arrancar uma careta.
A morte era assim mesmo? Indolor?
— O que acha que está fazendo? — A pergunta partiu de cima. Era a voz daquela desgraçada. — Ainda não acabamos. Você morreu uma vez. Ainda tem algumas horas para morrer. Se levante e pegue a porra da espada; não tenho tempo pra gastar com seres patéticos.
Ela abriu os olhos à força e se levantou. O gramado, a paisagem, o céu azulado, o cheiro de grama misturado com sangue no ar. Ainda estava viva.
— Eu te matei uma vez. — A Marionete dos Dez Braços recuou alguns passos, a expressão sorridente. — Ainda faltam milhares. O Jones partiu e me deixou um bichinho pra surrar; vai ser divertido demais. Faz anos que não sinto o prazer de bater em alguma coisa tão molenga.
— Vai ser um prazer, então, demônio. — Anya não tinha por que recuar agora. — Você vai me matar, e eu vou te arrancar uma resposta.
— Vai? Bom, então pode vir, fedelha humana. — O sorriso da Marionete cresceu. — Apanhar é um dom. Vou te mostrar que você é boa nisso. Vai apanhar e morrer, e morrer e morrer…
A última coisa de que Anya se lembrava era da risada lunática do inimigo.