Capítulo 08: Tempos de Prece
Capítulo 08: Tempos de Prece
Anya abriu os olhos.
O teto do quarto de Jones a recebeu em silêncio — a madeira escura, levemente irregular, com aquela trinca fina no canto direito que ela havia notado ao entrar. A luminária ainda estava acesa, jogando a mesma luz amarelada e morna de antes.
Respirou fundo.
O ar cheirava a ervas e a couro e ao leve ranço metálico que impregnava qualquer espaço onde soldados guardavam suas coisas. Era o cheiro do quarto de Jones. Era o cheiro do mundo real.
Ficou assim por alguns segundos, só respirando, deixando os dois lugares se separarem na cabeça.
Quantas horas havia passado lá dentro? Quantas vezes sentira o amargor da morte chegando à garganta — aquela sensação específica de quando a lâmina passava perto demais de algo importante, quando o impacto era forte o bastante para apagar os pensamentos por um segundo? A Marionete havia feito de tudo para que ela sentisse dor. De tudo para que sentisse amargura, exaustão, o desejo crescente de simplesmente parar e deixar o gramado perfeito engolir tudo.
O estranho era que a criatura também corrigia sua postura no meio de um ataque. Havia gritado “segura a direita” enquanto o machado descia, como se a vitória fosse menos satisfatória se Anya estivesse se defendendo errado. Era um tipo de inimigo que ela nunca havia encontrado — um que sorria ao acertar e, ao mesmo tempo, não tolerava que ela apanhasse por descuido.
O Jones treinava com isso. A ideia ainda não havia terminado de aterrissar por completo.
Anya se levantou do chão.
E parou.
Espreguiçou as costas — as vértebras estalaram numa sequência longa e satisfatória —, depois a cintura, depois as pernas, dobrando o joelho e puxando o tornozelo para trás como fazia sempre depois de treino pesado.
Nada doía.
Ficou parada por um segundo, testando. Flexionou o antebraço direito, o que havia dormido depois do bloqueio do machado. Nada. Dobrou o joelho esquerdo, onde a lança havia entrado e saído com aquela precisão cirúrgica. Nada. Passou a mão pela lateral da coxa por cima do uniforme — o tecido estava intacto. Sem mancha, sem rasgo, sem nada que indicasse que havia sangue ali algumas horas antes.
Ou não algumas horas.
— Eu fiquei mais de um dia lá dentro. — A urgência chegou de repente, como água fria, e ela atravessou o quarto em três passos até a escrivaninha.
O relógio estava ali, pequeno e preciso, do jeito que Jones deixava tudo.
Nove horas da noite.
Anya ficou encarando os ponteiros por um momento, sem piscar. Havia entrado no quarto no fim da tarde, algumas horas depois de se separar de Jerico no corredor. E agora eram nove da noite — o que significava que ficara só algumas horas fora, no máximo. Mas lá dentro havia sido um dia inteiro. Mais do que um dia. Havia perdido a conta das vezes que a Marionete a derrubara, das vezes que se levantara, das sequências de ataque que foram se tornando gradualmente menos incompreensíveis conforme o tempo passava.
Vinte e quatro horas de combate comprimidas em algumas horas reais.
Ela olhou para a própria mão.
Depois pegou o Abismo Pessoal de Jones devagar, fechando os dedos ao redor dele. O pulso fraco e regular a recebeu, como sempre.
A mão não tremeu.
Ficou olhando aquilo por um longo momento. Depois das primeiras vezes no Abismo coletivo da Academia, ela saíra com as mãos tremendo por horas — era o tipo de esforço que o corpo guardava mesmo depois de a mente já ter processado. Depois de uma noite inteira sendo golpeada por dez braços e dez armas diferentes, o mínimo que esperava era ter dificuldade de segurar o objeto.
Mas a mão estava firme. O corpo estava, por algum motivo que ela ainda não conseguia nomear, em perfeito estado. Como se o esforço lá dentro não tivesse peso aqui fora — ou como se houvesse uma separação deliberada entre os dois espaços, uma fronteira que a dor não conseguia atravessar.
Como é possível?
Ficou olhando para o Abismo na palma da mão, para o pulso calmo dele, para a própria mão que não tremia.
E começou a entender, vagamente, por que Jones havia passado tanto tempo lá dentro sem que ninguém percebesse o quanto ele crescera.
— Ele escondeu isso do Krall? — Anya se perguntou se todos eles teriam algo parecido. — Posso usar isto pra treinar até eles voltarem.
Um dia inteiro lá dentro custava só algumas horas ali fora. Poderia treinar bastante durante a noite. A Marionete não se importaria — nem parecia cansada quando Anya foi jogada para fora.
Poderia usar aquilo para aprender melhor as espadas.
Anya correu para fora do quarto de Jones. No corredor, atravessou até o outro lado, enfiou-se no próprio quarto e pegou algumas roupas limpas. Lavou-se no banheiro e se trocou.
Depois saiu na direção do refeitório.
A noite foi bem mais tranquila do que ela imaginara. Cruzou com alguns soldados no treino noturno, se preparando para o ranking, mas não se importou. Entrou no refeitório largo, pegou uma bandeja, se serviu e comeu com vontade.
Voltou ao quarto logo depois e se jogou na cama.
Quando acordou no dia seguinte, a animação era maior do que na véspera. Arrumou-se por completo: pegou a espada entregue pela Academia, ajustou a adaga que Nisha lhe dera, guardou a erva de Bagre no bolso direito e o Abismo Pessoal de Jones no esquerdo.
Saiu na direção do pátio com um sorriso no rosto. E, quando chegou lá, esse mesmo sorriso começou a murchar devagar.
— Nós faremos a seleção dos próximos soldados que precisarão ir até a Capital — disse o Comandante Kai ao entrar, com todos ainda se preparando. Eles, Anya inclusive, entraram em formação rapidamente. — A missão é apenas comercial e política. No entanto, algumas figuras públicas estarão presentes, e será uma ótima oportunidade para criar conexões externas. Muitas das missões que temos no Quadro vêm dessas mesmas pessoas. Os que eu chamar serão enviados hoje à tarde.
Anya manteve-se parada. Deu uma espiada para ver se Jerico estava por ali e o encontrou duas fileiras à frente, à esquerda. Reto, a mão um pouco avermelhada. Deve ser do treino com os irmãos.
O Comandante começou a chamar, mas Anya já sabia que não estava na lista. Normalmente, a chamada para as missões era por ordem alfabética. Seu nome era um dos primeiros; quando ele o pulou e chamou o de Jerico, Anya teve certeza de que as próximas semanas seriam só dela.
Sorriu. Não. Seriam dela e da Marionete. Ótimo. Era tudo o que ela queria.
No entanto, duas pessoas também ficaram para trás. Ragnar e Karmona.