Capítulo 09: Não Gosto de Perder
Capítulo 09: Não Gosto de Perder
Jerico encontrou Anya depois de ser selecionado, a cara esticada, parecendo um idiota sorrindo. A empolgação de sair e encontrar outros espadachins sempre fora um sonho para ele, mas seus irmãos e pais nunca gostaram do mundo fora da Academia, fora da cidade militar.
Esses mesmos homens eram organizados taticamente para enfrentar um batalhão de monstros, caso viessem bater à porta, como já acontecera — mas nunca foram corajosos o suficiente para enfrentar nobres.
— Essa sua cara de idiota já diz muito — disse Anya ao vê-lo se aproximar, segurando a espada como se fosse uma criança de colo. — Já pode parar de se achar. Não tenho vontade nenhuma de sair, e não fico irritada porque você vai.
A cara de idiota se transformou em confusão.
— Como não fica irritada? Você sempre quis ir lá fora com o Krall.
— Queria ir com eles. — Ela puxou a espada do suporte de madeira e deixou que ele fizesse o mesmo. — Pra que eu iria lá fora só pra conversar com os outros? Não sou tão boa falando.
— Mas fala muito mesmo.
Os dois se posicionaram no pátio. A manhã tinha aquele ar frio de início de dia que o sol ainda não decidira quebrar por completo, e o chão estava levemente úmido sob os pés — o tipo de condição que mudava o atrito das passadas de um jeito sutil, que a maioria ignorava e que Nisha ensinara Anya a nunca ignorar.
Jerico atacou primeiro, como quase sempre fazia.
Anya defendeu, bloqueou, escapou. Os movimentos saíam com uma leveza que ela notou, mas não comentou — a respiração estava mais fina do que o normal, mais regular, sem aquele pico de esforço que costumava aparecer nos primeiros minutos, antes de o corpo aquecer. Os pés encontravam o chão no lugar certo sem que ela precisasse pensar. Os braços respondiam antes que a decisão fosse completamente consciente.
A Marionete. Anya não pensou o nome completo, mas sentiu o que estava por trás dele. Vinte e quatro horas de combate não saíam do corpo sem deixar nada — mesmo que a dor não houvesse atravessado a fronteira entre os dois espaços, alguma outra coisa havia.
Quando o braço de Jerico se esticou para atacar, ela se aproximou.
Não recuou. Não desviou para o lado. Foi para dentro do raio do golpe, onde a espada dele perdia alcance e força, e o espaço entre os dois fechou rápido demais para que ele processasse a mudança.
Ele se assustou — ela viu nos olhos dele aquela fração de segundo de o que está acontecendo — e, antes que conseguisse reajustar o peso ou reposicionar o braço, a espada dela já encostara na garganta. Fria, firme, sem pressa.
Jerico engoliu em seco. O pomo de adão desceu devagar sob o metal.
A troca havia durado menos de um minuto. Provavelmente bem menos. E o que pesara nela não fora a velocidade — fora a ausência de esforço visível. Os olhos de Anya não haviam oscilado. O corpo inteiro se movera como uma coisa só, sem o momento de hesitação que sempre existe entre decidir e executar, sem o custo físico que normalmente aparece no rosto de quem está se desdobrando para fechar distância.
Jerico ficou olhando para ela por um momento, a espada ainda parada no lugar, como se mover fosse confirmar o que havia acontecido.
— Você não estava assim ontem. — Não era uma acusação. Era uma constatação, dita com o tom de quem estava reconstruindo uma sequência de eventos e chegando a uma conclusão que não esperava. — O que aconteceu?
Anya abaixou a espada devagar.
Olhou para a própria mão por um segundo — firme, sem tremor, exatamente como estivera quando segurou o Abismo de Jones na noite anterior.
— Treinei. E você sabe que eu detesto perder.
— Sei disso, mas você mudou bastante o jeito de se movimentar de ontem pra hoje. — Jerico aproximou o rosto com aquele sorriso que usava quando estava prestes a dizer algo que achava inteligente. — Está praticando alguma habilidade física agora, ou ainda é ruim demais para aprender?
— Não consigo usar essas coisas direito. — Anya recuou dois passos, ajustando a espada na mão. — O Krall me disse para continuar praticando o básico, então é o que estou fazendo. Não quero correr antes de andar, como você fez a vida inteira.
— Está falando do treinamento com meus irmãos? — Jerico abaixou a arma e ajeitou a postura com um gesto levemente defensivo, o tipo de movimento que as pessoas fazem quando um comentário atingiu mais perto do que esperavam. — Estou mais do que feliz por poder ir lá fora. Pelo menos não vou precisar apanhar por mais uma semana.
Anya não respondeu de imediato.
Estava lembrando. Não de forma voluntária — as imagens simplesmente vieram, como faziam às vezes depois de treino pesado, quando o corpo baixava a guarda e a mente aproveitava.
O fio da espada acertando seu pescoço. O impacto no crânio que apagava tudo por um segundo antes de acender de novo. Os braços, as pernas, a sensação específica e inconfundível de quando o corpo decide que não aguenta mais e começa a ceder antes de a mente autorizar. Ela sentira isso mais de mil vezes dentro do Abismo de Jones — a vida sendo levada aos pedaços com uma precisão que a Marionete claramente aperfeiçoara ao longo de anos, e depois o acordar abrupto, o gramado intacto, o corpo sem marca, como se nada daquilo houvesse deixado registro.
Mas deixava.
Nas primeiras cem mortes — ela contara, no começo, antes de parar de contar — havia um lapso de pânico genuíno a cada vez. Aquela certeza irracional e total de que dessa vez seria diferente, que dessa vez não acordaria, que o gramado perfeito seria a última coisa que veria. A Marionete percebera isso rápido e explorara sem cerimônia, escolhendo os momentos de maior cansaço para desferir os golpes finais, deixando o pavor durar mais do que precisava.
Depois de morrer mais de mil e duzentas vezes, algo mudara. Não o medo — o medo continuava lá, chegava pontual toda vez que a lâmina se aproximava de algum lugar vital. Mas havia perdido a capacidade de paralisar. A morte dentro do Abismo virara uma informação — dolorosa, aterrorizante, surreal na forma como o corpo a experimentava sem guardar cicatriz —, mas uma informação que podia ser processada sem apagar todo o resto.
Sobrevivência , ela pensara na última vez, acordando no gramado com o pulso acelerado e as mãos já procurando a espada antes de os olhos abrirem por completo. Morrer também é uma questão de sobrevivência.
— Quer praticar mais um pouco antes de irmos almoçar? — Jerico levantou a espada na direção dela, a sobrancelha erguida. Ao redor, o pátio havia esquentado — o ruído dos treinos aumentando, as colisões de madeira se multiplicando, e nas bordas do corredor coberto os Soldados de Ranking 2 e 3 observavam com aquele olhar de quem avalia sem se comprometer com o que vê. — Posso usar algumas habilidades físicas, se quiser treinar contra elas.
Anya olhou para ele. Depois olhou para as próprias pernas.
Elas já haviam se ajustado.
Não como no dia anterior — não com o esforço consciente de lembrar o que Nisha ensinara sobre distribuição de peso, não com aquela fração de segundo de tradução entre saber e fazer. Estavam na posição certa de um jeito que parecia anterior à decisão, como se o corpo houvesse memorizado algo que a mente ainda processava. Os pés no ângulo correto, o joelho levemente dobrado, o peso deslocado para o lado dominante sem que ela tivesse pensado nisso.
A Marionete gritara aquilo pelo menos trezentas vezes. Postura. Postura. Que tipo de idiota morre assim? Fica na postura.
Até para morrer existe posição.
— O que estamos esperando? — Anya levantou a espada. — Vamos logo.
Jerico piscou — aquela hesitação de menos de um segundo que ela aprendera a ler nele — e então sorriu do jeito que sorria quando estava genuinamente animado e tentando não parecer.
Ele atacou primeiro.
Dessa vez, Anya não esperou para ver onde o golpe ia.