Capítulo único
Capítulo único
Eu era apenas uma flor comum. Uma celandine que crescia, perdida entre tantas outras flores nos campos que despertavam sob o calor da primavera.
Como minhas irmãs, eu não esperava enfeitar salões, coroas de reis ou cabelos de donzelas. Meu destino sempre fora mais humilde: servir às curandeiras, que transformavam minhas folhas e pétalas em remédios capazes de aliviar dores e curar feridas.
E então, eu desapareceria deste mundo, satisfeita por haver cumprido meu propósito. Era assim que imaginava o meu fim, e o aguardava aceitando-o sem medo e com resignação, pois o via como o curso natural da vida.
Mas numa tarde, o meu destino que eu já achava ser tão certo mudou.
Um elfo surgiu caminhando pelo campo. Eu já os tinha visto antes, na época em que eu era apenas um pequeno broto. Eram figuras altas e belas, de cabelos negros, como corvos que vez ou outra colhiam flores e ervas ou caminhavam absortos em seus próprios pensamentos.
Entretanto, eu nunca tinha visto nenhum como ele. Ele andava devagar, e de tempos em tempos, parava para acompanhar o voo de um pássaro ou simplesmente ficava contemplando a imensidão do campo. Contudo, não foi a sua tranquilidade que me chamara a atenção. Mas sim os seus cabelos.
Seus fios eram como minhas flores, amarelos, mas tinham um brilho dourado em que a luz do sol refletia. Pela primeira vez, senti que encontrei alguém que carregava em si a luz da primavera, assim como eu.
Ele se deitou à sombra de uma faia que crescia diante de mim. E ficou ali um longo tempo contemplando o céu azul, enquanto o vento brincava com seus cabelos.
Porém, quando o sol já estava se pondo, ele se levantou e voltou a caminhar. Pensei que passaria por mim, como todos os outros faziam, mas, quando percebi, ele estava diante de mim.
Naquele momento, meu pequeno caule estremeceu. Talvez fosse a brisa do entardecer que soprava sobre o campo, ou fosse apenas o meu espanto de tê-lo tão perto de mim. Seus olhos, claros como o céu, contemplavam-me, e um leve sorriso despontava em seu rosto. Então, com infinita delicadeza, suas mãos tocaram minhas pétalas e, em seguida o meu caule.
— Perdoe-me... És muito bela...
E, assim deixei a terra onde era minha morada e fui parar no bolso junto ao peito de sua túnica. Durante muito tempo fiquei ali, pensando no que seria de mim. Mas mesmo assim, eu não lamentava, pois estava tendo o privilégio de estar com aquele elfo cujos cabelos luminosos lembravam as minhas pétalas.
Quando ele voltou a me retirar dali, fui colocada sobre uma mesa de madeira, diante de uma outra elfa que sorriu para ele.
— Gostaria que o meu novo manto fosse adornado com flores como esta...
Depois que ele partiu, a mulher inclinou a cabeça e observou com atenção minhas pétalas, folhas e as curvas de meu caule. E começou a bordar com fios dourados várias celandines num manto azul.
E, naquele instante, antes que o fôlego da vida por fim me deixasse, eu compreendi que minha forma floresceria para sempre, no manto daquele que, dentre tantas outras flores, havia me escolhido.