Capítulo 66 – Porta Misteriosa.
Capítulo 66 – Porta Misteriosa.
“Amigo ou inimigo, ambos são alicerce para dor.”
Eu não acredito no que estou vendo, no que estou sentindo entre meus dedos.
Esse cheiro, essa cor, esse objeto… é sério que isso está realmente aqui?
Como é possível? Isso… isso é da Itsuki…
Meu corpo… essa sensação de queimadura interna.
Consigo sentir o suor descendo pela minha testa, meus sentidos estão diminuindo pouco a pouco, além do cheiro do objeto em minhas mãos estar acabando.
Os sons ao meu redor estão morbidamente se silenciando.
Só consigo escutar o som das batidas do meu coração.
O som do meu coração gritando por socorro.
Por me sentir fraco, acabo ficando de joelhos na grama.
Além do suor, lágrimas estão escapando dos meus olhos.
— Se recomponha! — disse a voz na minha cabeça.
Não dá… isso é demais para mim.
Perdi meus pais, perdi o Kuma, meu primeiro e único cachorro, e agora isso.
A pessoa que quis proteger, que quis confiar, tentou me… matar?
Mas por quê? Por que ela fez isso?
De longe, escutei o som da porta do galpão se abrindo.
Provavelmente eram as meninas me procurando.
Mas eu não tenho forças para me levantar daqui.
Meu corpo, fraco, sem motivação, além do meu coração estar quebrado, não conseguia responder aos meus comandos.
— Cadê esse revoltante? Sabia que ele não levaria a sério a investigação!
— Não fala isso, irmãzinha. Ele deve estar investigando em algum canto por aqui.
O que eu faço? A única coisa que consigo fazer é chorar e chorar.
Como elas vão reagir me vendo assim?
Por um momento, pensei que seria o fim, mas meu corpo começou a formigar, uma energia surgiu do nada em mim.
Rapidamente, levantei do chão e escondi o objeto no meu bolso.
— Ah, achei você. O que está fazendo parado aí, revoltante? — indagou Aikyo.
Aikyo estava de braços cruzados e com uma expressão de raiva para mim, enquanto Katsu estava ao lado dela segurando seu braço, olhando cuidadosamente para mim.
— Eu estava analisando a entrada, pensei que poderia haver alguma evidência aqui.
Aikyo direcionou seu olhar diretamente para minha mão suja de barro, mas de forma analítica voltou atenção para mim.
Normalmente, eu sentiria um incômodo, mas por algum motivo estou normal, a confiança está no alto.
— Deixa eu ver se entendi. Você nos chamou para um lugar completamente distante, mentiu para nós dizendo que iria ao banheiro investigar, mas na real seu objetivo era investigar aqui fora?
O tom de voz e a cara que fazia, totalmente compostos, não eram de raiva nem grosseiros.
Ela estava sendo séria, realmente querendo saber a verdade. Incisiva no que fala.
— Isso é verdade, Yuki? — indagou Katsu, de forma decepcionada para mim.
— Na verdade, não! Eu realmente chamei vocês para mostrar algo suspeito, mas sinto que Aikyo não se sente confortável comigo ainda, logo preferi sair de perto e deixar vocês a sós.
Aikyo, encarando profundamente, fechou a mão enquanto cruzava os braços.
Um sorriso de canto se abriu; o que Aikyo estava pensando? O que eu falei de errado?
Na real, por que eu disse isso?
— Nada disso, Yuki. Deixa de bobeira, você… você não precisa se afastar de… da gente.
Katsu, com bochechas coradas, apertava a mão da sua irmã.
Dava para ver no rosto da Aikyo a força que Katsu estava fazendo com sua mão.
— Hmf. Enfim, você está completamente certo em deixar um momento importante de investigação apenas comigo e minha irmã. — disse Aikyo, colocando a mão aberta em cima do seu torso. — Mas isso não significa que você deva ficar longe do nosso campo de visão.
— Pois é, e se o criminoso tentar te atacar… de novo? Sozinho seria perigoso, afinal!
— Na verdade, não estava me referindo a isso, mas sim que ele ficar sozinho pode acabar atrapalhando também. O que você precisa fazer é ficar quieto! — disse Aikyo, fazendo pose.
Katsu fechou a cara para Aikyo, apertando ainda mais a mão da sua irmã.
— Ai ai ai, irmãzinha…
— Eu entendo vocês, me perdoem por ter me afastado. Mas mudando de assunto, acharam algo interessante naquela fantasia esquisita? — indaguei, mudando friamente o rumo da conversa.
— Em? Por que começou a falar tão certinho assim do nada, revoltante? Você não é disso.
— Verdade, até sua postura está mais formal. Ativou o modo sério, Yuki? — indagou Katsu, olhando de cima a baixo meu corpo.
— Eu estou normal, apenas quero investigar logo. — disse, passando do lado da Aikyo. — Vamos.
Elas ficaram me encarando, mas logo vieram atrás de mim.
Por que estou tão cheio de energia e confiante? Isso é culpa sua, né, voz misteriosa?
Assim como todas as vezes que sentia meu corpo diferente, e eu mudava meu jeito, pensei que fazia parte de mim, mas na real era você?
Aikyo passou à minha frente e desceu as escadas primeiro, junto com Katsu.
— Quando você passou por aqui, essa porta estava aberta ou fechada, garoto?
Ela apontou o dedo para a porta ao lado da escada, a mesma porta que tentei abrir antes.
— Essa porta estava fechada, mas…
Parei por um segundo.
— Mas? o quê? — questionou Aikyo.
— Mas nessa tela, esses números estavam em vermelho, agora estão verdes.
Katsu se soltou da Aikyo e se aproximou mais da tela.
— Verdade, quando passamos aqui nas duas vezes, não olhei para a tela, já que estava olhando para você, Yuki, então…
— É o quê? — gritou Aikyo.
— Ham… quero dizer, eu tinha que olhar para o Yuki para ver onde ele estava nos levando, é isso, não pense que é outra coisa! — disse Katsu em tom firme.
— Entendo, mas o que poderia pensar de diferente sem ser esse o caso? E por qual motivo suas bochechas estão coradas?
Ela fica da mesma forma que Itsuki fica comigo, por qual motivo as bochechas delas ficam assim? Será que é vergonha de falar comigo?
— Não tem nada demais! Vamos nos concentrar, por favor. Continua, irmã. — disse Aikyo, alisando o cabelo de Katsu.
— Bem, o que ia dizendo é que nas vezes que passei não olhei, mas meu campo periférico pegou essa tela, e tenho certeza que os números estavam vermelhos quando vimos e quando saímos.
— Seria alguma tentativa falha que tem cooldown para atualizar? Explicaria o motivo de ter saído do vermelho e ido para o verde. — disse, com os braços cruzados.
— Como assim? Está tentando dizer que alguém tentou a senha, errou e ficou em vermelho, e com um tempo de espera para nova tentativa voltou para o verde?
Katsu disse enquanto encarava a porta, negando olhar para mim.
Aikyo, com um olhar preocupado, colocou as mãos na cintura e disse:
— Mas se for isso mesmo, quer dizer que a pessoa ainda está aqui, certo?
— Por que estaria, irmã? — indagou Katsu.
— Pois, se o vermelho indicava uma tentativa falha, a pessoa não conseguiu entrar na porta… espera, você disse que quando veio estava em vermelho, né?
— Sim, estava!
— Isso quer dizer que a pessoa deve ter percebido você vindo, tentou entrar na porta e errou mesmo sabendo a senha, nervoso talvez? — disse Aikyo, andando de um lado a outro. — Ou, segurando algo nas mãos e não conseguiu digitar corretamente a senha?
— Então quer dizer que a pessoa esperou a gente sair e dessa vez conseguiu digitar a senha certa e foi embora? — indagou Katsu, acariciando o cabelo.
Levantei a mão querendo falar algo, lembrei das regras que Aikyo havia dito a mim.
— Ué, por que está levantando a mão? — indagou Aikyo.
— Por conta das regras que você disse a mim.
Katsu começou a rir de mim enquanto batia no meu ombro.
— Ela estava brincando, bobinho, ela não é ditadora não.
Olhei diretamente nos olhos da Katsu, e realmente ela estava sendo sincera.
Mas ao fazer isso, ela rapidamente escondeu seu rosto e se afastou de mim.
Então era tudo brincadeira delas? Por qual motivo iriam fazer isso? Me sinto um bobo agora.
— Hmf. Fala logo o que quer, revoltante.
— Bem, se sua dedução estiver certa, e a pessoa estivesse segurando algo, poderia ser a fantasia de passarinho?
— Por que seria isso?
— Pois penso que ela estava usando algo na mão para não deixar digitais enquanto segurava a fantasia, por conta disso, errou a senha, já que estava com pressa. Isso explicaria a porta do armário não estar trancada.
— Entendo, faz sentido. Se esse for o caso, por qual motivo ela guardou a fantasia de volta? — disse Aikyo, se escorando na parede.
— Tem isso. Se ele não quisesse que encontrássemos a fantasia, então não a guardaria de volta. — disse Katsu com as mãos na boca.
— Talvez o suspeito queria que víssemos a fantasia, então voltou para guardá-la. — disse, olhando para Aikyo.
Ela olhou para o teto, com os braços cruzados.
Katsu tentava abrir a porta à força enquanto conversávamos.
— Mas por que ele iria querer que encontrássemos a fantasia se ele estava levando ela embora?
— Faz sentido, então talvez ele não estava levando embora, mas sim trazendo a fantasia.
Aikyo parou de olhar para o teto e direcionou seu olhar para mim.
— Uma troca, talvez?
— Troca? — questionou Katsu, soltando a maçaneta da porta.
— Sim, talvez houvesse outra coisa dentro do armário, logo o suspeito trouxe essa fantasia aleatória e colocou no armário.
— E tentou ir embora com a outra coisa que trocou, mas errou a senha e teve que se esconder. — disse, pegando a onda da Aikyo.
— Caramba, vocês combinam muito. — disse Katsu olhando friamente e com expressão bem apática para nós.
— Q-Que? Eu não combino nada com esse revoltante… p-por que está falando isso, irmã?
Aikyo rapidamente se aproximou de Katsu, segurando-a pelo braço.
— Vamos lá verificar a fantasia novamente? — disse.
As duas acenaram com a cabeça.
Andamos até o vestiário dos meninos.
— Onde deixaram a fantasia? — indaguei.
— Voltamos para o armário. — disse Aikyo, pegando a fantasia do armário.
Com a fantasia em mãos, colocou-a toda aberta em cima do banco enorme e liso.
Elas começaram a analisar a fantasia, detalhe por detalhe.
Katsu pegou a lanterna UV para ver se encontrava alguma digital perdida.
Com meus sentidos aprimorados, agora consigo sentir um cheiro perfumado nessa fantasia.
Posso memorizar o cheiro e tentar encontrar em outra pessoa depois.
Será que minha visão aprimorada consegue enxergar digitais sem precisar da lanterna?
Comecei a andar em volta delas para pegar todos os ângulos da fantasia, mas não encontro nada.
Como elas estão de luvas, obviamente não pega a digital.
Será que se eu forçar ainda mais minha visão, consigo enxergar algum detalhe mais escondido?
Não sei como funciona esse poder das partículas, mas posso fazer como sempre fiz quando aprimorava um sentido específico meu.
Forcei ainda mais minha vista, os detalhes da fantasia começaram a se aproximar mais, como se meus olhos fossem uma lupa.
Mas uma dor forte surgiu na minha cabeça.
Meu corpo ainda está bastante quente, minha visão está ficando turva, a fraqueza começou a voltar.
— Yuki, você está bem? — indagou Katsu.
— Eu… estou bem…
Toda a luz do andar apagou do nada enquanto isso acontecia.
— O quê? O que aconteceu, por que as luzes apagaram? Energia…
Estou tão mal que nem consigo mais escutar elas falando.
Me joguei no chão por conta da fraqueza, elas miraram as lanternas UV perto de mim no chão.
Já não consigo mais manter meus olhos abertos.
Acho que… forcei demais.
Mas… mesmo com os olhos fechados, consigo sentir a presença das duas ao meu lado.
Espera, sinto… mais uma presença? Como isso é… possível?
Essa presença acabou de passar por mim correndo.
Droga, não consigo falar nada, elas não perceberam?
Eu… não consigo mais…
— Seu corpo não aguenta por muito tempo a sincronização com minha matéria. Você vai apagar.
Voz… misteriosa? Como… assim… matéria?
Arco: Investigação.