LNCrawler

Capítulo 68 – Mente Confusa.

Chiheisen — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 68 – Mente Confusa.

Azul… verde.

Azul do céu, verde das árvores.

Era o que eu via quando estava em casa.

Naquela época, eu não me importava com essa vista.

Mas hoje sei muito bem o quão importante ela era e o quão forte era seu significado.

Paz, tranquilidade. Família, confiança e conforto.

Abraços calorosos, conversas felizes, momentos de diversão e estudo.

Quando vejo o céu ou as árvores,

lembro de tudo o que sentia, que eu presenciava.

O que me restou foi o anel que minha mãe me deu.

O mesmo anel que está nas mãos da menina para quem tentei passar minha confiança, a confiança rara que só tinha com meus pais.

Essa mesma menina que tentou me matar.

Sim, isso mesmo. Ela tentou me empurrar para a piscina, mesmo sabendo que eu não sabia nadar.

Ela só se aproximou de mim para isso? Por que ela fez isso? O que ganharia?

Ela está junto com o Gyutaro?

Eles estão querendo me tirar daqui só porque sou um revoltante?

Mas por que… por que eu quis me aproximar dela?

Eu até hoje apenas segui meus sentimentos, meus instintos.

Só porque meu corpo ficava estranho quando a tocava?

Que tolo eu fui.

Não era para ser assim.

Minha mãe sempre dizia para mim:

“ Os fracos não superam os fortes, os fracos são usados pelos fortes .

Os de mente fraca são enganados pelas mentes fortes.

Quem você vai ser, mente fraca ou mente forte? Quem irá se tornar?

Dominado pelos fortes ou dominador dos fracos? “

Memórias de um tempo atrás, dos ensinamentos da minha mãe, estão vindo à tona.

Os livros sobre manipulação, as técnicas de persuasão.

Por que esqueci disso?

A minha defesa contra este mundo acabou se perdendo nessa imensidão que é meu coração.

Sim, minha mãe sempre me ensinou a ser uma criança de mente forte, para usar os outros.

Para sobreviver neste mundo cruel.

Eu… sou… cruel?

— Sim! Você é cruel! Por isso estou em você.

Então… não!

Eu… não sou!

Eu… sou?

Por que estou pensando nisso?

Voz estranha. O que você está fazendo comigo?

— Eu não estou fazendo nada.

Então por que… por que estou tendo esses pensamentos?

Quem eu sou de verdade?

Quem sou eu?

— Você é você. Yuki!

Mas por que estou me sentindo como se estivesse sobre um muro? Não sei como ser, não sei qual Yuki preciso ser.

— Sua mente está um caos. Você só precisa ser o Yuki que sua mãe queria que fosse, uma imagem de mim neste mundo cruel.

Então por que eu mudei?

Por que fiquei com a guarda baixa neste lugar?

— Você sempre foi sozinho. Não teve amigos, não teve alguém em quem pudesse confiar, que pudesse proteger.

Mas… quando tive alguém, ela tentou me matar.

Minha mãe estava certa.

Sou eu contra o mundo.

— Somos nós contra o mundo.

Sou sua imagem neste mundo.

— Você cumprirá a missão.

A missão que minha mãe me passou.

— A missão passada de geração em geração.

Preciso completar, só assim serei livre.

— Só assim para me deixar livre deste mundo.

— Ei, moleque! Acorda.

O mundo cruel que te aprisiona há séculos.

— Para me libertar desta prisão, precisa terminar a missão.

— Levante da cama!! já está na hora de ir para a escola, moleque!

Preciso encontrar o início, preciso te levar para o início.

— O início onde tudo começou, e onde terminará… esvaindo minha essência.

Partindo deste mundo cruel.

— ACORDA, MOLEQUE!

— Ham… Oka… wara?

Ao abrir meus olhos, vejo meu professor com uma expressão de raiva.

— Finalmente acordou, garoto. Vai se arrumar logo, tem aula, esqueceu?

— Aula… é verdade. Eu… esqueci.

Ontem foi barra pesada para mim, mas pelo menos agora meu corpo parece estar bem.

— Você melhorou? Se não, vou te levar para a enfermaria.

Okawara, mesmo com um tom grosseiro, pelo menos está preocupado comigo.

— Estou bem, meu corpo está normal, professor. — disse, levantando lentamente da cama. — Vou me arrumar rapidinho.

Enquanto me arrumava, algo não saía da minha cabeça.

Que sonho foi aquele?

Foi um sonho? Uma lembrança? Ou eu realmente estava conversando com a voz estranha?

Mas, de qualquer forma, tudo é verdade.

Eu esqueci minha essência, esqueci como sou e para que fui ensinado a ser.

Fugi de todas as minhas responsabilidades depois que vi minha mãe ser machucada.

Mas preciso continuar, não posso mais mentir para mim mesmo.

Preciso me formar nesta escola e ir para o Horizonte.

Preciso encontrar meus pais.

Preciso terminar minha missão.

Para isso, não posso perder quem eu sou.

Mas e você, voz estranha? Quem é você?

— Você não precisa saber disso agora.

Entendo.

Minha mãe me falou sobre você, mas não pensei que estivesse comigo.

Achei que ainda estava com ela.

— Anda logo, moleque. Tá difícil aí? — gritou Okawara, enquanto batia na porta do meu quarto.

— Estou indo, professor.

Depois conversamos mais, voz estranha.

Terminei de me arrumar e saí do meu quarto.

Estou bem atrasado mesmo.

— Não tem tempo nem de tomar café, né?

Okawara olhou para mim com uma vontade macabra.

— Não!

Bem grosseiro.

— Ainda temos que passar na enfermaria para pegar seu exame de sangue. Mas, pelo tempo, vai ficar só para depois das aulas. — disse Okawara, olhando para o relógio.

Saímos do dormitório e fomos até a escola.

Hoje é quinta-feira. Então tem aula de Física.

Vai ser interessante.

Tenho que focar em alguns pontos importantes, mas por agora preciso reencontrar a Aikyo e o Katsu para conversar sobre a investigação.

E preciso analisar o broche azul da Itsuki que encontrei ontem também.

Ao chegar na escola, Okawara me deixou, já que eu demonstrava estar bem.

No meio do caminho, encontrei o pessoal do meu grupo Chiheisen: Sasori, Fuutaro e Arushi.

Subi para a sala com eles.

— Yuki, depois quero falar com você. — disse Arushi.

Acenei com a cabeça.

Arushi foi para a sua sala, assim como eu e os outros fomos para a nossa.

Assim que entrei na sala, Itsuki estava sentada, de cabeça baixa sobre a mesa.

Hoje não era aula com a Ayumi.

O lugar onde eu sentava era na frente dela, mas no segundo dia acabei sentando em outro lugar.

E hoje será o mesmo, a cadeira antiga já estava ocupada por uma menina.

O importante agora é vigiar ela, entender como ela é de verdade, mas sem conversar com ela por enquanto.

Preciso que ela venha até mim para conversar.

Preciso investigá-la sem falar com ninguém.

As horas foram passando e a aula estava interessante, mas nada demais, já havia aprendido esse conteúdo com minha mãe.

Como Sasori estava sentado na cadeira à minha frente, resolvi fazer uma pergunta a ele.

— Sasori, como você está indo no debate para presidente?

Sasori virou para mim com seu rosto fechado de sempre.

— Uma droga!

— Ham? — disse, assustado. — Mas por que uma droga?

— Bem, não é que o Sasori ou eu estamos ruins, é que a Rita e a Abe são ótimas. Acho que as chances da gente ganhar são bem baixas. — disse Fuutaro, na carteira da fileira ao lado.

— Isso. Principalmente a Rita. Ela é quem está tendo os melhores argumentos e soluções. Literalmente comendo todos nós no diálogo. — disse Sasori, com uma expressão triste no rosto.

Entendo, a Rita é a menina que havia encontrado eu e o Sasori em frente ao campo de futebol.

Ela faz parte do conselho, então faz sentido querer ser a presidente, assim como Fuutaro.

Mas tive pouco contato com ela, não sei como funciona, nem suas intenções.

Só espero que seja melhor que a Abe, não abusando do cargo.

— Comendo a gente com um pouco de salada ainda por cima. Com sal e tempero para dar gosto. — disse Fuutaro, rindo da cara do Sasori.

— Haha. Como você é engraçado, Fuutaro, alguém traz o palco para o menino aqui fazer stand-up.

Vendo o relacionamento deles, me dá até inveja.

Pelo menos eles não tentaram nada de ruim contra mim.

Por enquanto, pelo menos, mas também não posso baixar a guarda com eles.

— Aliás, Yuki. Por que você está tão sério? Não é do seu feitio imitar o Sasori. — disse Fuutaro.

Sasori escorando seu cotovelo sobre a mesa resmungou: — Tsc. Encaro isso como elogio!

Com o clima, aproveitei para passar uma expressão de incomodo, abaixando minha cabeça escorando-a na mesa.

— Eu estou pensativo, tentando pensar num plano para descobrir sobre a marca naquele bilhete.

Fuutaro fez uma expressão pensativa por alguns segundos.

— Ah, lembro disso. Na nossa reunião dessa semana conversamos sobre isso, né? A marca no bilhete ser de um pro…

Sasori rapidamente agiu estendendo seu braço direito até a boca de Fuutaro, em tom baixo disse:

— Cala a boca, Fuutaro! Ninguém pode escutar isso, não, sua mula!

Fuutaro ajeitou seus óculos que quase despencaram de sua face enquanto acenava com a cabeça.

— Desculpa… esqueci disso, hehe.

— Mas é sobre isso mesmo. Semana que vem, na nossa reunião, iremos bolar um plano para isso. Agora vamos focar na aula. — disse, enquanto passava a página do conteúdo no tablet.

O tempo passava lentamente, o sono tentava me alcançar de todos os jeitos.

Mas até que o sinal para o descanso tocou.

Fuutaro se aproximou de mim, tocando meu ombro disse: — Yuki, vamos para o refeitório comer juntos?

Sasori acenou com a cabeça olhando para mim, aceitando a ideia do Fuutaro.

— Ah… claro, vamos sim!

Fuutaro fez um sorriso bem aberto para mim, enquanto dava algumas batidas leves em minhas costas.

No caminho para o refeitório, Fuutaro ficou contando algumas coisas que aconteceram no debate de ontem.

Porém minha cabeça estava em outra coisa, então apenas afirmava tudo que ele dizia e dava sorrisos fingidos.

Enquanto a gente descia as escadas, um homem surgiu subindo as escadas em nossa direção, era o Okawara.

— Ô, garoto? Vem comigo! Preciso conversar com você.

— Ah, oi professor Okawara? Desculpa, mas o Yuki e nós vamos comer agora. É o horário de descanso, sabe? — disse Fuutaro, ajeitando seus óculos.

— Não, tá tudo bem, Fuutaro. Deve ser algo importante, eu vou.

Sasori virou a cabeça em minha direção rapidamente.

— Tem certeza? O que está acontecendo?

— Tenho sim. Fui eu que procurei ele para me ajudar numa questão da matéria dele. Por isso ele está aqui.

Tive que pensar em algo aleatório, eles não podem saber o que houve comigo ontem.

Só espero que Okawara entre na onda.

— Ahh, entendi. Não sabia que Okawara dava aula particular no horário de descanso, podemos ir também? — indagou Fuutaro.

— Q-quê, pirralho?

Okawara está com o rosto vermelho de tanta raiva, parece que vai explodir aqui mesmo.

Se eu não resolver logo essa questão, ele vai acabar estragando tudo.

— Não precisa, gente. Podem ir comer, é coisa rápida também, era apenas uma coisa boba que não entendi. — disse, cruzando os braços. — Mas assim que acabar, eu volto para comer.

De raiva vazada, Okawara saiu andando na frente com pisadas bem grosseiras.

— Ah, bem… não demora, viu? — disse Fuutaro acenando para mim.

Segui Okawara até a sala onde ele estava dando aula hoje.

Assim que entramos, ele fechou a porta.

— Senta aí, moleque.

A sala estava vazia, os alunos dessa sala já estavam todos no seu horário de descanso.

— O que queria falar comigo? — indaguei.

— O exame de sangue seu saiu, está aqui neste envelope.

Ele estava segurando um envelope marrom em suas mãos, mas já estava aberto.

Provavelmente ele já viu o conteúdo.

— Entendi, mas o exame não era meu? Por que o senhor abriu? Está preocupado comigo, né?

Seu rosto voltou a ficar franzido de raiva.

Ele jogou o envelope na mesa com força enquanto resmungava.

Fazia tempo que não brincava com ele assim.

— Preocupado é uma ova! Eu sou professor e posso ler essas coisas aqui.

— Oh… saquei! Mas então, o que saiu?

Ele colocou os pés sobre a mesa enquanto tomava sua água na garrafa.

— Bem, nada! Seu exame deu normal, nada alterado. Suas partículas ainda estão adormecidas e seu sistema vitamínico está muito bom.

Que maravilha. Mas como eles não conseguem perceber que minhas partículas estão despertadas? Eu consigo sonhar e ainda tem essa voz estranha na minha cabeça.

Será um erro ou minhas partículas são diferentes das dos outros?

— Que ótimo! Então posso ir agora?

— Ainda não. Como eu disse, não tem nada de errado com você. Mas isso complica as coisas, pois ontem você estava claramente com falta de vitaminas. O que aconteceu?

Como se ele não soubesse. Claramente ele está tentando fazer parecer que não anda me vigiando pelo relógio.

— Ah, professor. Eu estava ajudando as Irmãs Yagame na investigação, mas como não havia comido e o sol estava quente, passei mal. Apenas isso.

Ele ficou me encarando com uma cara cética, não acreditando no que eu disse.

Tirou seus pés da mesa e veio andando com a mão no bolso, de um jeito bem mulambo.

Se aproximou de mim parecendo um bêbado.

— Você acha que nasci ontem?

Pela distancia, sua presença é bastante intimidadora. Se fosse eu de quando entrei aqui, ficaria incomodado.

Mas agora que estou focado, isso não é nada.

— Por que a pergunta? Até um bebê saberia que você não nasceu ontem. Então não acho isso. — disse, olhando em seus olhos pelo seu óculos.

Ele me encarou por um instante, mas se distanciou de mim.

— Ora ora. Realmente aconteceu algo com você. Seus olhos estão diferentes de antes. — disse Okawara, passando a mão em seus cabelos.

— Como assim, diferentes?

— Antes, tinha apenas um traço branco, agora tem dois traços brancos em ambos seus olhos. Isso significa que você passou mal por conta desse detalhe, presumo?

Aliás, por que meus olhos estão ficando brancos? O que é isso, voz estranha??

— Talvez? Eu não sei, não sei sobre isso. Quem deveria saber era você, não?

Okawara começou a rir enquanto sentava em sua cadeira novamente.

— Agora sim, você está mostrando sua verdadeira face. Você está realmente diferente, não parece ser um moleque bobo e medroso.

— O que quer dizer com isso? Eu continuo o mesmo, professor… eu só estou triste com a situação da Itsuki. — disse, em tom melancólico.

Não posso mostrar esse lado para ele, preciso continuar sendo o mesmo de antes.

— Ah é? Agora entendi. Mas que situação é essa? O que deu nela?

— Deu nada, mas sinto que ela está incomodada comigo estando com as irmãs Yagame. E fico triste com isso porque queria que ela estivesse comigo na investigação também.

— Entendi. Mas não tem o que fazer, o que você pode fazer é mostrar apoio e confiança para ela. Vai lá agora nela e dá um abraço quente e forte, vai ver o quão importante isso parece ser.

Eu assustei com essa fala dele, até engasguei com minha saliva.

Como o Okawara fala uma coisa dessas? Logo ele.

Mesmo sabendo que foi ela que fez isso comigo, ele ainda quer que eu faça isso?

— Ahh… não sei, professor, será que faço isso mesmo?

Ele me deu um joinha, e logo depois apontou para a porta.

— Certo. Obrigado pela conversa, professor, até logo!

Me despedi dele e saí da sala.

Depois que o garoto saiu da sala, Okawara pegou o exame de sangue do Yuki, e na folha havia um pequeno texto, informando sobre a situação dele.

“ OBS: Partículas ONI altamente alteradas. O padrão dele está fora do normal, a divisão celular entre as partículas ONI e as células originais de seu corpo estão separadas .”

— Separadas, é? Isso aqui… não existiu! — disse Okawara, enquanto rasgava o papel em vários pedacinhos.

Andando pelo corredor novamente em direção as escadas.

Espero que dessa vez ninguém me atrapalhe, preciso comer algo.

Aliás, pensando no que o professor disse.

Eu não sei se é uma boa ideia aparecer do nada abraçando aquela menina.

A gente fez as pazes, mas depois que a deixei de lado para conversar com as irmãs Yagame, acho que ela ficou com raiva de mim novamente.

O papel que ela está fazendo é impecável.

Então talvez eu possa chegar nela pedindo desculpas? Ou perguntando se ela está bem?

Qual seria a melhor abordagem?

Enquanto pensava nisso, de repente sinto alguém correndo em minha direção por trás.

Antes que eu pudesse virar o rosto para ver,

a pessoa já havia me abraçado por trás.

O calor de seu corpo e essa sensação de paz…

Essa energia tranquila, o mundo ao meu redor parece estar mais leve.

Essa respiração quente nas minhas costas.

Minha cabeça está… leve, não consigo pensar em mais nada.

Meu coração está tão calmo…

Eu conheço isso, eu senti falta dessa sensação de paz.

— Yuki! Por que não falou comigo hoje?

— Itsuki?

Itsuki… por quê?

Droga… meu coração começou a doer do nada.

Que aperto estranho em meu peito.

— Ham? Você está chorando… Yuki? O que foi?

O que está acontecendo comigo?

Por que… estou chorando?

Arco: Investigação.