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Capítulo 70 – Confiança da Aikyo.

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Capítulo 70 – Confiança da Aikyo.

Olhos azuis veem o mundo dos sonhos coloridos; por outro lado, olhos cinzentos enxergam apenas preto, um vazio imenso que se expande a cada noite.

Sem esperança, sem futuro.

Muitos podem pensar que sonhos são dispensáveis durante a vida.

Mas eu não penso assim.

Sonhos são uma forma de escape da realidade.

Uma realidade dura e cruel; um mundo sem sonhos é um mero vazio.

Este é o mundo que quase todos aqui na ESA vivem: um mundo sem graça,

Semeado pela crueldade,

Alimentado pelo medo.

Isso é o que ouvi de um colega de classe.

No meu caso, em especial, é um segredo que posso sonhar mesmo com olhos cinzentos.

Não posso contar para ninguém, nem mesmo para meus colegas.

Seria injusto: por que só eu posso sonhar? E todos aqui, que têm o mesmo rank que eu, não podem sonhar?

Guardar esse segredo é difícil, mas sigo lutando contra meu próprio mundo vazio.

Mesmo sonhando, ainda sinto que estou vagando em um grande espaço negro,

Sem saber para onde ir, sem saber em quem confiar e em quem acreditar.

Por que o mundo é tão cruel? Ou é culpa da vida? E o mundo não tem nada a ver.

São meras questões de perspectiva.

Eu quero confiar em alguém, mesmo que tudo aponte que não devo; ainda assim, quero quebrar essas barreiras.

Para isso, preciso resolver essa questão da Itsuki.

Estou aguardando as irmãs Yagame aqui no parque.

Falei com a Aikyo para me encontrar aqui às seis horas em ponto, uma hora depois do término da aula.

Vou falar com elas a respeito do broche, mas sem mencionar nada sobre a suspeita da Itsuki.

Quero ver o que Aikyo irá dizer.

— Oi…

Katsu cumprimentou de forma doce e fofa enquanto estava de mão dada com Aikyo.

Bem pontual.

O relógio marcava seis horas exatas.

— Oi, meninas. Vocês chegaram na hora certa. Estou surpreso.

Aikyo desviou o olhar e fez uma cara de tacho para mim.

— Óbvio. Só você aqui que não é pontual.

— Irmã, dá para ser mais legal aqui! — disse Katsu, fazendo uma cara emburrada.

— Aff… Só porque você está pedindo, irmã.

Aikyo estendeu a mão para me cumprimentar, mesmo com uma expressão não muito boa.

— Oh, por essa não esperava. — comentou Katsu.

Cumprimentei as duas e sentamos no banco para conversar.

— Enfim, você está bem? Depois de ontem, minha irmã ficou… quero dizer, eu, como responsável por nós, fiquei preocupada com você.

Aikyo tenta de todo jeito não citar a irmã dela comigo; isso é ciúmes dela?

— Mas eu também… fiquei preocupada, sabe?

— Ah… desculpa, meninas, por preocupá-las… Mas estou bem, viu?

Aikyo cruzou os braços e deu um suspiro de alívio.

— Ai, que bom então!

Já Katsu corou novamente.

Sempre com o rosto vermelho. Que estranho.

— Mas então, por ter nos chamado aqui tem a ver com ontem, né? Sobre a investigação.

— Sim! Primeiro, quando desmaiei e as luzes apagaram, senti uma presença correndo em direção à porta; foi alguma de vocês?

Aikyo olhou para Katsu, que trocaram olhares, com expressão de curiosidade e de desentendimento.

— Não, nenhuma de nós saiu, ficamos com você até sair do lugar. Você tem certeza que sentiu alguém? — indagou Aikyo, determinada.

— Sim, tenho certeza. Se não foram vocês, então havia mais alguém conosco naquele lugar, e acho que é a mesma que entrou e saiu por aquela porta trancada do lado da escada.

— Mas se isso for verdade mesmo, por onde ela escondeu? Nós olhamos tudo do vestiário; não teria como alguém esconder lá!

Katsu, com expressão pensativa olhando para baixo, levantou a cabeça para falar algo.

— Mas se for uma criança bem pequena e magra, dá para esconder nos armários estendidos, né?

— Faz sentido, mas os armários estendidos estavam todos trancados; eu mesmo verifiquei. — disse Aikyo.

— Mas algumas de vocês olharam para debaixo dos bancos? — indaguei.

Ambas olharam para mim com uma expressão séria.

— Não… não cheguei a olhar porque não pensei nessa possibilidade. — disse Aikyo, com um olhar melancólico.

Com certeza ela ficou decepcionada consigo mesma.

Olhando para Aikyo, dá para ver que ela se cobra muito, já que é conhecida como a segunda melhor no ranking de dedução.

Katsu segurou a mão de sua irmã cabisbaixa, que deu um sorriso meigo de volta.

— Enfim, agora isso não importa mais. O que importa é que essa criança tem acesso àquela porta trancada, tanto a senha quanto o cartão de acesso; isso é suspeito, não? — disse, confiante.

— Sim, bem suspeito. Que criança aqui teria esses acessos? — perguntou Aikyo, com os olhos fechados.

— Bem… alguém do conselho? Ou os irmãos Kobayashi? — disse Katsu, enquanto me observava.

— Irmã… os Kobayashi? Isso… não fala tão alto assim!

Aikyo ficou bem assustada com isso, por quê?

Duvido que seja só pelo medo de acusar os filhos do diretor; isso não é do feitio dela.

Vou procurar mais a fundo o motivo conversando mais com ela.

— Talvez, não ficaria surpreso se fosse o Gyutaro, ele é maluco! Mas por que você não quer que fale tão alto assim, Aikyo?

Ela me encarou com um olhar bem agressivo, se aproximando bem pertinho de mim.

— Não é óbvio? Não importa quem seja, não podemos sair acusando alguém em voz alta.

Fiz uma reação de surpresa; realmente não esperava que fosse isso.

— Ah… entendi. Desculpa, hehe.

Katsu puxou rapidamente Aikyo, que estava perto de mim, enquanto fazia uma cara emburrada.

— Mas nesse caso, poderia ser sim ele, mas precisamos investigar. Inclusive a fantasia que encontramos. Vocês pegaram ela?

— Sim! — disse Aikyo.

— Certo. Vamos aproveitar esse final de semana que vai vir para procurar saber quem a pegou emprestada. Que tal?

Aikyo cruzou os braços e fechou a cara para mim.

— Você por acaso é o líder, é? Quem fala o que vamos fazer aqui sou eu, revoltante.

— Aff, irmã, para com isso! — disse Katsu, com um tom melancólico.

De novo isso…

Até quando ela vai parar com essa palhaçada e vai confiar em mim?

— Tá bom… desculpa. O que vamos fazer então, ô senhora líder absoluta?

— Hmf… Vamos… nesse final de semana atrás de pistas sobre essa fantasia. Enquanto isso, amanhã irei conversar com uma pessoa para saber sobre aquela porta do lado da escada.

— Certo então. Me diga o que souber amanhã.

Katsu ficou com cara emburrada enquanto isso; o que houve com ela?

— Bem… tem mais uma coisa. Eu acabei achando um broche na terra antes da entrada das piscinas grandes. Este aqui.

Tirei o broche do meu bolso e mostrei a elas.

Katsu analisou bem atentamente.

Já Aikyo olhou e fez uma expressão suspeita.

— Espera, eu já vi esse broche antes. Não é o que Itsuki usa o tempo todo?

Ela até lembra o nome dela?

Já imaginava que isso poderia acontecer.

— Sim, é verdade! — gritou Katsu, pegando o broche da minha mão.

— Por que o broche da Itsuki estava lá? — perguntou Aikyo.

— Eu não sei! Isso que vou descobrir amanhã. Então peço, por favor, que me deixe resolver isso sozinho com ela. Não conte a ninguém, tá bom?

Aikyo franziu a testa. Com uma expressão afiada, ficou me encarando com os braços cruzados.

— Por que eu contaria a alguém? Agora entendi por que você ficou daquele jeito: foi porque achou o broche da sua amiga e ficou sentido por ela ser uma suspeita agora, né?

Até que ela entende de sentimentos, pelo menos.

— Sim… por isso quero resolver isso com ela.

— Entendo. Mas não vamos fazer nada; pode resolver isso, Yuki. Espero que você fique bem…

Katsu, como sempre, sendo a versão boazinha das Yagame.

— Irmã… eu não aceit…

Antes da Aikyo terminar de falar, Katsu tampou a boca dela enquanto fazia um sinal negativo com o dedo.

Aikyo entendeu e logo fechou os olhos.

— Bem, depois disso é melhor eu sair antes de mudar de ideia. — disse Aikyo, com um tom grosseiro.

Ela pegou o braço da Katsu delicadamente e ambas saíram de perto de mim.

Katsu balançou a mão se despedindo de mim com um sorriso fofo no rosto.

Pelo menos dessa vez consegui ganhar a confiança delas.

Estava pensando em ir embora para o meu quarto comer algo, mas lembrei que estava tendo o debate para presidente do conselho.

Seria legal dar uma passada e ver como Fuutaro e Sasori estavam indo.

No debate que está rolando, Sasori e Fuutaro me parecem estar apáticos.

Enquanto Hideki está com uma cara de raiva.

Única que me parece estar indo bem no debate é a Rita, com um sorriso descarado no rosto.

Pelo visto, um final feliz a aguarda.

Fuutaro percebeu minha presença, fez uma expressão triste no rosto, como alguém que estivesse vendo alguém que gosta apanhando.

De fato, ele está vendo seu amigo Sasori perdendo o debate, mas ele também está na mesma situação, tendo como resultado essa expressão triste no rosto.

Fiz um sinal de coração para ele; não iria adiantar nada, mas pelo menos quis mostrar que tem meu apoio e torcida.

O caminhar do debate foi intenso até o final; realmente, Rita é uma criança bem inteligente.

— Ah, droga! Essa Rita é um saco. Por isso gosto dela, hehe.

Fuutaro parecia demonstrar certos resquícios de tristeza, mas não era o caso.

O sentimento que ele tem pela Rita é maior do que seu objetivo?

— Pelo que tudo indica, Rita com certeza vai ganhar para presidente do conselho. Ela se preparou muito bem.

Sasori está com uma expressão diferente da de Fuutaro; ele realmente queria ganhar.

— Sobre isso, Sasori, você tinha me dito que havia um plano para impedir Hideki de continuar usufruindo da posição de presidente de forma ruim. Seu plano era ser o presidente?

Esse era o momento ideal para fazer essa pergunta a ele, mesmo que o clima não fosse dos melhores.

— De fato! Meu plano era esse. Havia conseguido uma audiência com os membros do conselho para dar essa sugestão, e graças ao Fuutaro, por ser um membro do conselho, consegui votos.

Fuutaro se enfiou no meio entre eu e Sasori, colocando os braços em nossos ombros.

— Graças a mim e à Rita também.

Isso faz sentido agora; por isso a Rita votou para que essa eleição acontecesse.

— Então o motivo da Rita ter votado a favor era porque ela viu uma boa oportunidade para virar presidente. Bem esperta. — comentei, com as mãos nos bolsos da calça.

Fuutaro deu uma risada, gostando do que eu disse.

— Como eu disse, ela estava preparada. Com certeza já estava planejando essa eleição há tempos. — disse Sasori, com um olhar intenso.

Caminhamos até o mercado central para comer algo.

Paramos num restaurante de lamem.

Enquanto comíamos, conversamos bobagens sobre romance e o amor não correspondido do Fuutaro.

A noite já havia chegado há tempos; o momento era tão divertido que nem demos conta da hora.

Após a conversa no restaurante, fomos embora para o dormitório de barriga cheia.

Obviamente, quem pagou foi o Fuutaro.

Os pontos de compra que eu tinha eram os que já estavam comigo desde o ano passado, os mesmos que o Okawara havia me dado.

Mas agora tenho poucos pontos; pelo menos agora na escola vou ganhar pontos de compra dependendo das notas que tirar.

— Ai, caramba, hoje foi bem legal! — comentou Fuutaro.

— Sim, às vezes é bom diferenciar a rotina do dia. — disse Sasori.

Fuutaro, que estava do meu lado, começou a olhar para o meu cabelo do nada.

Com uma expressão diferente, comentou: — Yuki, seu cabelo está… cada vez mais branco!

— Velhice está chegando para você tão rápido.

Sasori comentou brincando, mas isso está me assustando mesmo.

O branco significa que meu corpo está envelhecendo por conta dessas partículas?

Por que, de todos aqui, sou o único que tem esses aspectos?

— Aliás, você também está crescendo bem mais rápido. Com certeza está alguns centímetros mais alto. — disse Sasori, verificando minha altura com a dele.

Fuutaro ajeitou seus óculos enquanto me observava.

— Tem razão. Yuki, o que você andou aprontando?

— Eu? Não aprontei nada. Isso deve ser algum efeito colateral do tipo de partícula que tenho, talvez?

— Sim, talvez seja isso. Neste caso, você é alguém bem especial mesmo, porque essa peculiaridade sua é única aqui nesta escola.

— Mas Fuutaro, a Sayuri Haiiro tem cabelo branco, não tem?

Fuutaro fez pose de pensativo para responder à pergunta do Sasori.

— Ela é a garota que é a top um no ranking geral e a prodígio, né? Mas no caso dela, sempre teve cabelo cinza e não branco; essa é a cor natural do cabelo dela. Já com Yuki é diferente.

— Entendo, se olhar por esse lado é verdade. O dele está ficando branco, como se fosse mágica ou realmente envelhecimento precoce, haha. — disse Sasori, com um sorriso que não é do seu feitio.

— Haha. Velho aos 7 anos. Espera, quando você faz aniversário, Yuki? Quando você faz 8 anos? — indagou Fuutaro, balançando meu corpo pelo ombro.

— E-esp-pera, pa-pa-ra de me ba-lan-çar.

Tentei falar com ele me balançando como um louco.

— Foi mal. Agora fala aí.

— Ufa. Bem, eu faço aniversário dia…

Antes de terminar de falar, uma pessoa apareceu do nada vindo da mesma direção que nós.

— Ora, ora, o que estas crianças abençoadas estão fazendo sozinhas tão tarde da noite?

— Ah, professor Shuukyo. Estamos indo para o dormitório agora; estávamos comendo no mercado central. — disse Fuutaro.

— Hmm, compreendo. Então estamos seguindo o mesmo caminho juntos. Vamos indo?

Fuutaro e Sasori acenaram com a cabeça, e o professor de Ensino Religioso foi até o dormitório conosco.

Se bem que amanhã vamos ter aula com ele; vou poder ver como é essa pessoa.

Olhando para ele agora, é um pouco assustador.

Seus cabelos ondulados e negros, nessa altura, ficam bem engraçados, chegam até os olhos na mesma altura em torno da cabeça; fora que seus olhos são pequenos, nem parece que estão abertos, além desse sorriso esquisito que fica no rosto.

Agora essa corrente dourada em seu pescoço é um colar com metade de nuvem e metade de sol. Me lembra de algo que já vi.

Porém essa caminhada não durou muito; fomos para o dormitório e cada um seguiu seu canto.

Fuutaro, antes de entrar no quarto, disse para eu contar meu aniversário amanhã.

Mal sabe ele que já passou e que, na verdade, tenho oito anos agora.

Fiz minhas tarefas higiênicas: tomar banho e escovar os dentes, e fui dormir.

Espero conseguir sonhar hoje.

Quero saber mais sobre essa mulher que sonho.

Arco: Investigação