Capítulo 79 – Gravação, roubada?!
Capítulo 79 – Gravação, roubada?!
Fico imaginando como é o mundo do lado de fora.
Será que realmente é horrível como a Emi disse?
Será que é assustador como minha mãe falava?
Ou será que é bonito como sempre vejo nos meus sonhos?
No que acreditar?
Nas palavras ou nas imagens?
No medo ou na fé?
As meninas foram na frente para o prédio escolar, me abandonando sem qualquer hesitação.
Pelo menos foi o que pensei.
Elas estavam me esperando escondidas na virada do prédio, provavelmente escutaram tudo.
— Oh… vocês estavam aqui? Achei que já tinham ido embora.
Aikyo virou seu corpo de lado para que eu não olhasse para seu rosto.
Já Katsu, sorridente e corada, ficou sem jeito.
— Hehe… a gente ia embora, mas preferimos esperar por você, e nós não escutamos nadinha de nada, viu?
— Eh… a princípio nem tem por que querermos escutar sua conversa — disse Aikyo, olhando para a parede.
Tentaram disfarçar de forma inocente, mas ficou tão óbvio que estavam escutando.
Não vou ser estraga-clima, vou fingir que acredito.
— Seeei, se não escutaram, então tudo bem! Hehe — disse, com um sorriso aberto enquanto fazia sinal com as mãos.
— Ergh… nem tenta disfarçar, né garoto?
— Ué, como assim?
Aikyo não me respondeu, saiu andando levando Katsu consigo.
Dessa vez elas realmente vão embora se eu não acompanhar.
— Ei… Yuki. Por acaso, você… está bem? — perguntou Katsu.
Seu olhar para mim demonstrava uma preocupação sincera.
Suas pupilas dilatadas, expandindo como se fosse um buraco negro, são fascinantes.
— Eu? Eu estou bem sim. Mas por que a pergunta?
Katsu moveu de forma dramática uma mecha de seu cabelo que havia caído sobre seu olho esquerdo, colocando-a por trás do ouvido.
— Nada demais. É porque… não que eu tenha escutado sua conversa, mas acho que você deve estar carregando um fardo muito grande nos ombros, sem querer compartilhar esse peso com outra pessoa.
A forma como ela diz, abaixando o tom de voz e focando nas palavras certas, me deixa surpreso.
Não me parecia que ela era tão observadora nesse nível.
— E tem algum motivo para você pensar isso?
— Tem sim. Você sempre tenta ajudar, mesmo sendo maltratado pela minha irmã. E o motivo disso, tenho certeza, não é por boa vontade, mas sim por desespero.
— Desespero? Então você acha que faço as coisas por conta de um objetivo que estou desesperado para alcançar?
Katsu, com as mãos para trás, começou a olhar para o céu, observando esse azul infinito.
— Desespero para alcançar algo, desesperado por alguma coisa. E por conta dessa pressão, você está tentando fazer de tudo, pensando em tudo, causando um peso enorme nos ombros.
— Katsu… você andou me observando muito. Por quê?
Seu olhar se direcionou para mim; a forma como me vê, a maneira que observa cada detalhe do meu rosto de forma padronizada me deixa hipnotizado e preocupado ao mesmo tempo.
— Ah, é que… eu sou observadora, sabe? Hehe.
— Sei, haha, bem observadora mesmo. Mas sobre o que disse, não precisa se preocupar comigo, eu realmente tenho um objetivo em mente, mas tudo que fiz foi por pura vontade e desejo de ajudar vocês.
Um sorriso sincero apareceu em seu rosto, escondendo seus dentes brancos.
— Chega de papo, oh garoto, deixa minha irmã em paz! — disse Aikyo.
— Oh, mas eu…
Katsu balançou a mão em minha frente, impedindo que eu terminasse.
O que pude fazer foi suspirar e observar elas andando na minha frente.
Será que um dia Aikyo vai permitir que eu ande ao seu lado também…
Para falar a verdade, estou sentindo muita falta da Itsuki.
Estar perto dela me dá uma sensação maravilhosa de paz.
Depois de alguns minutos, chegamos ao prédio escolar.
Fomos direto para a sala de gravações.
Mas fomos parados por alguém.
— E aí, alunos, o que desejam aqui na escola, nessa hora? Pelo que me lembro, vocês não estão nas atividades complementares de sábado, certo? — indagou Saulo.
O diretor estava bem na nossa frente, usando o terno preto de sempre.
Mas ofegante, ele com certeza estava correndo.
O suor por trás de suas orelhas comprova isso.
— Não estamos, mas como você sabe, estamos na investigação que você nos colocou, e para isso precisamos ir à sala de gravações. Nos permite?
Saulo nos observou com um olhar analítico.
— Compreendo, havia me esquecido disso. Que bom que estão sendo tão sérios a esconder sobre a investigação. Nem sequer ouvir a respeito de vocês.
— Isso é mentira! — comentou a voz na minha cabeça.
Óbvio que é mentira, ele é o diretor, qualquer informação, mesmo que sobre uma pedra no meio do caminho, ele deve saber.
— Pois é. Somos ótimos detetives, hehe — comentei, com um tom irônico, mas com um sorriso aberto no rosto.
— Claro que são, por capricho meu escolhi vocês a dedo para essa ocasião.
Um tom confiante e orgulhoso vindo dele, transbordando arrogância.
— Enfim, diretor, precisamos ir para a sala de gravações, podemos seguir?
— Sobre isso, podem sim. Não irão precisar de mim quanto a isso, minha secretária Toshiba já está na sala de gravações juntamente com dois professores. É só dizer que fui eu que permiti a entrada de vocês.
Acenamos com a cabeça e fomos para a sala das gravações.
Mas assim que nos aproximamos da sala, vimos duas pessoas saindo dela.
Ayumi, com um rosto pálido, e Okawara, que a ajudava, escorando em seu ombro.
Sua aparência não estava muito boa; além do rosto branco, estava ofegante e fraca, tanto que precisava da ajuda do professor para andar.
O que será que aconteceu com ela na sala de gravações?
Na verdade, por qual motivo eles estavam na sala de gravações?
— O que você está fazendo aqui, pirralho? — indagou Okawara, com um tom de voz pesado.
Ayumi me observou com um olhar triste e cansado.
— A-Ayumi? Você está… bem? — indaguei.
Demonstrei alta preocupação com ela, já que agora nós estamos nos ajudando, faz sentido me intrometer.
— Não é da sua conta, moleque. Aqui não tem nada do seu interesse.
Aikyo, com uma expressão zangada, se colocou na minha frente.
— Você devia saber que é do nosso interesse sim, professor Okawara! Já esqueceu da nossa investigação? Estamos aqui justamente para isso.
— Ham? E quem mandou vocês virem para essa sala?
Ayumi, mesmo fraca, tentou dizer algo.
— Oka… wara… não deixe… eles…
Preocupado, empurrei Aikyo gentilmente da minha frente e me aproximei da fraca Ayumi.
— Ayumi, o que aconteceu? Me fala.
— Tsc. Garoto insuportável como sempre. Ela está passando mal, tomou um remédio errado e agora está com efeitos colaterais. Satisfeito?
— Remédio? Que estranho… — murmurou Katsu.
— Mas que remédio? Quem deu a ela? — indaguei.
— Saia da minha frente, preciso levar ela para a enfermaria. E vou avisar só mais uma vez, não entra na sala!
Okawara saiu andando com uma expressão fechada.
— Ele sempre é grosso desse jeito. Que saco — comentou Katsu.
— Deixa quieto. Vamos logo para a sala — disse Aikyo, levando Katsu.
Dessa vez senti uma diferença no modo como Okawara falava; o modo grosseiro dele dessa vez foi bem mais preocupante, seu olhar lançado a mim foi mais de aviso do que de chamar atenção.
Será que é porque Ayumi passou mal na sala, e o perigo está lá?
— Você não vem, Yuki? — indagou Katsu, já distante de mim.
— Se ele não quer vir, então deixe ele lá, o cachorrinho do Okawara tem que obedecer.
Aikyo não perdoa uma.
— E-estou indo.
Entrei na sala de gravações, fechando a porta em seguida.
Dentro dela, era quase igual a uma biblioteca, mas em vez de livros, eram gavetas.
No lado direito, tem uma mesa com teclado e mouse, e na parede em frente uma televisão.
Embaixo da mesa tem o que parece ser o computador.
E na cadeira à frente de tudo, estava sentada uma mulher.
Provavelmente é a secretária do diretor.
— Ora ora, quem são vocês e o que fazem aqui? Sabem que isso é uma sala restrita, não sabem? — disse a mulher.
— Meu nome é Aikyo, e sinceramente, por ser uma sala restrita, ela não estar trancada é uma falha enorme, não?
— Irmã! Seja mais respeitosa! D-desculpe, moça, perdoe a indelicadeza da minha irmã. Meu nome é Katsu, muito prazer.
Como sempre, Katsu sendo fofa.
— Não temos tempo para brincadeiras, sabe moça? É óbvio que você nos conhece e sabe o porquê de estarmos aqui — disse, com um tom suave.
Ela fez uma expressão alegre, abrindo um sorriso cínico.
— Oh… e como chegou a essa conclusão, rapaz?
— É fácil, você está sentada nesta cadeira sem fazer nada, o monitor está ligado mostrando a tela inicial do software, sua bolsa está longe de você, além do seu comportamento tranquilo ao nos ver…
— Argh… eu já entendi, moleque. Nossa, você realmente é irritante! Enfim, do que vocês precisam?
Eu já estava me preparando para falar, mas Aikyo falou antes de mim.
— Nós precisamos da gravação de um dia específico. Só precisamos que você nos deixe procurar por ele, entendeu? — disse Aikyo.
— Entendi, pela sua cautela, presumo que não vai querer que eu veja a gravação também, né? Já que nem o dia quer que eu saiba.
— Exatamente! — afirmou Aikyo.
A mulher, com expressão sorridente, se levantou da cadeira, saindo lentamente da sala enquanto me observava.
Ela foi muito leviana conosco, isso está me cheirando muito suspeito.
— Foi bem fácil, e coisas fáceis levam a destinos ambíguos. Temos que tomar cuidado a partir de agora — comentou Aikyo, enquanto caminhava na direção das gavetas.
Cada gaveta tinha uma etiqueta com uma data mensal e anual, indicando que dentro só tem gravações do mês daquele ano específico.
— Revoltante, procure a gaveta do mês de dezembro — comentou Aikyo, apontando para mim.
— Certo.
O acontecido ocorreu no mês de dezembro, então faz sentido ela ter me mandado procurar nela.
Mas o que ela está procurando…
Depois de alguns segundos procurando, encontrei a gaveta de dezembro.
Ao abri-la, vi inúmeras pastas em coluna, cada uma com etiqueta apontando o dia.
— Pastas? — murmurei.
Procurando a pasta, olhando etiqueta por etiqueta, pasta a pasta.
Mas não encontro.
Tem trinta pastas, falta uma, logo a que eu preciso.
— Como isso é possível? — murmurei novamente.
— O que disse? — perguntou Katsu.
— Eu… não estou achando a que preciso. Não está aqui a pasta do dia que sofri o ataque.
— Sério? Mas isso não é possível, tem que ter de todos os dias — comentou Katsu, juntando-se a mim para procurar.
Ela procurou também na gaveta, mas não encontrou.
— Maninha, vem aqui. Temos um problema sério.
Aikyo estava no computador vendo uma gravação.
— Parece que ela não te escutou, Katsu.
— Ela está focada nessa gravação que queria ver, por isso. Mas vamos focar no nosso agora.
Katsu pegou uma pasta aleatória da gaveta, abriu com a intenção de ver seu conteúdo.
Dentro da pasta, tem documentos escritos e um mini bolso com um dispositivo dentro.
— É esse dispositivo de armazenamento aqui onde contém as gravações, tá vendo? — disse Katsu.
Acenei com a cabeça.
— Mas o seu tinha que estar aqui, isso não faz sentido. Essa pasta aqui é do dia anterior ao ocorrido. E se está aqui, logo o dia do ataque deveria estar também.
Katsu guardou a pasta de volta na gaveta, com uma expressão preocupada.
Seu coração estava batendo fora do normal.
— Sim, realmente. Isso é bem estranho. Ou alguém pegou, ou… não gravaram no dia.
Katsu olhou para mim rapidamente, um olhar repleto de ansiedade.
— Será que foi a secretária do diretor? Ela estava se comportando de forma estranha, não estava?
— De fato, porém… tem os professores Okawara e Ayumi…
Não queria pensar nisso, mas existe essa possibilidade.
Será que Ayumi pegou a gravação para tentar ver se encontrava o culpado do broche?
Ou foi Okawara que pegou…
Katsu fez pose de pensativa, olhando para o chão.
— Não acho que foi eles, por qual motivo eles pegariam logo agora? Tipo, agora? Sendo que teve todo esse tempo.
— Você tem razão. Não faz muito sentido isso. O mais provável é que foi aquela mulher mesmo — comentei, fechando a gaveta.
— Aliás, o que você e sua irmã estavam procurando aqui?
— Eu não sei, Aikyo estava tão focada que nem quis perguntar.
Katsu virou seu rosto na direção da Aikyo, observando de longe sua irmã olhando o monitor.
— Gente, olhem isso aqui — comentou Aikyo.
— Que foi, irmã?
Aikyo apontou o dedo para um canto no monitor.
— Veja, irmã. Isso aqui foi gravado há dois anos atrás. Olha aqui no canto, um homem levando o Nicol para o depósito antigo.
— Q-quê?
O coração de Katsu começou a acelerar.
Aikyo estava com uma expressão determinada, mas com um tom de voz trêmulo.
— Essa gravação aqui foi feita uma semana depois que anunciaram o desaparecimento do Nicol. Eu sabia! Sabia que tem alguém sequestrando alunos aqui.
Katsu, com seus olhos assustados, colocou sua mão na testa.
— Satoru, Isabel, Ijichi, Nicol, os dois alunos da Blue Zenith e vários outros alunos que sumiram aqui na escola… Realmente…
— Realmente a Emi estava certa… alguém está por trás disso…
— Irmã!
Aikyo assustou, olhou para mim lentamente depois que Katsu gritou por ela.
— Você… ouviu o que eu disse, revoltante?
Seu olhar desesperado me encarando me deu calafrios.
O clima ficou pesado após isso, ambas as irmãs ficaram em choque por conta do que viram, além de terem falado o que não podiam.
— Esperem! Primeiro, vamos nos acalmar. Eu quero saber de uma coisa apenas. Vocês estão ajudando a Emi Satoru, não estão?
Aikyo, com um jeito grosseiro e desesperado, se aproximou rapidamente de mim, me pegando pelo ombro, mesmo sendo menor que eu.
— Como você sabe disso? Em moleque? Me responde! Como?
Katsu, preocupada com o comportamento de sua irmã, a agarrou pelo braço.
— Calma, irmã! Não se desespere. Vamos escutar o que ele tem para falar.
Aikyo, mesmo nervosa e apreensiva, desviou seu olhar para Katsu; com muito custo, ela me soltou.
— Argh… fala garoto, por que… por que você sabe disso?
Como sempre, Aikyo não resistiu ao pedido de sua irmã, mesmo em um momento crítico.
Eu mantive a calma; se perdesse a linha junto, o clima seria bem difícil de restabelecer.
— Bem, eu posso falar a verdade para vocês. Mas preciso que vocês me contem a verdade também. Certo?
Ambas, mesmo em estado de choque, trêmulas e ansiosas, acenaram com a cabeça.
— Porém, não vou contar aqui. Vamos para o quarto do Okawara.
— Que? Você só pode estar brincando, né? O que vamos fazer lá? — indagou Aikyo.
— Dois motivos. O primeiro: preciso ver se foi ele ou a Ayumi que pegaram o dispositivo do dia do ocorrido, já que ele desapareceu.
Aikyo, que estava sentada na cadeira, se levantou rapidamente.
— Desapareceu? Como assim?
— É, sumiu. Temos três suspeitos: Okawara, Ayumi e a secretária do diretor. Eles estavam aqui antes da gente chegar — expliquei.
— Droga… está ficando cada vez mais complicado… — murmurou Aikyo, sentando-se na cadeira novamente.
— E o segundo motivo… presumo que, por vocês terem reagido com surpresa quando falei de visitar o Okawara, creio que vocês não sabem.
— Ham? Não sabemos do que exatamente? — indagou Aikyo.
Olhei para ambas de forma dramática, com uma leve pausa melancólica antes de falar.
— Não sabem que Okawara também está ajudando a Emi Satoru.
As irmãs trocaram olhares entre si, atônitas, e de forma abrupta gritaram: — Quê???
Sim, de fato, há vários mistérios girando em torno desse lugar.
Mistérios sombrios e assustadores.
Mas fico a cada dia mais ansioso desafiando o mundo assustador e cruel que minha mãe sempre me falava
Arco:Investigação