Capítulo 82 – Encapuzados: Dormindo fora.
Capítulo 82 – Encapuzados: Dormindo fora.
Pensar que um simples pensamento poderia pesar o ar ao nosso redor, deixando-nos desconfortáveis o suficiente para arrepiar cada fio de nosso corpo.
Imaginar que o homem que me procurava, que me perseguia… que proporcionou um momento tenso e insano no antigo depósito comigo,
É o responsável pelo desaparecimento de Theo.
Será que… se ele tivesse me capturado naquele dia, eu também estaria desaparecido?
Deixando de lado esses pensamentos negativos e focando no que está acontecendo neste exato momento.
Okawara está completamente abatido.
Sua expressão é compreensível, já que crianças estão desaparecendo sob sua responsabilidade, e ele não tem o poder de impedir.
— Agora tudo faz sentido. Mesmo que houvesse suspeitas por trás dos desaparecimentos, não havia nenhum indício que comprovasse o envolvimento dele.
Aikyo disse a verdade; não havia sequer testemunha que tivesse visto esse homem de capuz na escola, mas essa revelação muda completamente o cenário.
Okawara ergueu a cabeça, assentindo com as palavras de Aikyo.
— Mas, gente, o mais importante aqui: se esse homem de capuz realmente pegou o Theo e talvez tenha levado o Jin e outros que não sabemos, onde ele os leva?
A forma como Katsu soltou essa pergunta me deixou preocupado.
Pois só há uma forma de sair desse lugar: pelo portão da frente. Ao redor, há penhascos que levam a uma queda enorme para o oceano.
Aikyo, focada no rosto de Katsu, parece ter tido uma ideia.
— Será que… ele pula com eles de paraquedas em algum lugar abaixo dos penhascos?
— Eu, junto com a Emi, pensamos nisso uma vez. Concordamos que deve haver uma passagem subterrânea em algum lugar desta ilha — disse Okawara, levantando-se da cadeira.
Aikyo trocou olhares com Katsu.
— É uma ideia mais plausível do que pular do penhasco de paraquedas — disse, em tom normal.
— Tsc… pelo menos não fiquei calada — comentou Aikyo.
Não falei por mal, apenas disse o que veio à mente.
— Mas eu não…
— Chega! Vamos terminar amanhã no meu quarto. Essa conversa está encerrada.
Okawara voltou à sua rigidez habitual.
— E mais uma coisa, Aikyo e Katsu: Não cheguem atrasadas, entenderam?
Ambas assentiram levemente com a cabeça.
Logo após, voltamos para o quarto de repouso onde Ayumi estava.
Assim que entrei no quarto, Itsuki veio correndo me abraçar.
Era possível ver a tristeza profunda em seus olhos lacrimejantes enquanto me encarava.
— Ela está melhor?
Foi um curto espaço de tempo desde que saímos para conversar; não era suficiente para melhoras, mas ainda assim quis perguntar.
Itsuki, soluçando e fungando, não conseguia nem pronunciar uma palavra direito.
— E… aind…ta… ela…
Coloquei a mão sobre sua cabeça e comecei a acariciá-la carinhosamente em um ritmo lento.
Ela entendeu que não precisava dizer mais nada, então apenas voltou com o rosto sobre meu peitoral.
— Chega desse drama, ela não vai morrer. Só está exausta e precisa de descanso.
Okawara foi grosseiro, mas aliviou os sentimentos de Itsuki, que começou a se acalmar aos poucos.
— Mas o que precisamos saber é: o que aconteceu com ela, Okawara? — indaguei, focando em seus olhos.
Sentando na cadeira ao lado de Ayumi, Okawara não demonstrava nenhuma intenção de nos contar.
Fechou os olhos enquanto balançava a cabeça.
Hoje sua inquietação está bastante ativa. Diante dos fatos ocorridos, entendo perfeitamente.
— Espero que amanhã você nos conte — comentou Aikyo, em tom baixo, aproximando-se de Ayumi.
Com as irmãs e Okawara próximos a Ayumi, rodeando-a em sua cama, fiquei afastado com Itsuki em meus braços.
Murmurando, perguntei: — Você sabe o que aconteceu?
Ela balançou a cabeça negativamente, com o rosto virado para meu peitoral.
— Isso já aconteceu alguma vez?
Perguntei em tom baixo novamente, se isso era corriqueiro ou pontual, ou se foi apenas hoje; era importante saber.
Esperava que ela negasse novamente, mas não foi isso.
Ela balançou a cabeça de cima para baixo, afirmando minha pergunta.
Fiquei surpreso com isso; essa informação é bastante importante para tentar entender um pouco mais sobre Ayumi.
Mas isso é bastante estranho, logo depois dela nos ajudar, isso acontece…
— Quantas vezes ocorreu?
No mesmo tom, ela tentou responder: — Terceira.
Então não é frequente; se é só a terceira vez, pode ser que ocorra por conta de um fator, talvez emocional?
Ou foi algo externo, como alimento? Talvez seja alérgica a algo.
São muitas possibilidades, mas por enquanto só isso basta.
Acariciei sua cabeça novamente, dessa vez alisando seu cabelo até os ombros.
Seu abraço foi mais forte agora; parecia que ela gostou, e, de certa forma, também gostei do abraço dela.
— Rhu-hum… Até quando vão ficar abraçados aí? — indagou Katsu, com um olhar afiado para mim.
— Ah… hehe.
Sem graça, nos soltamos do abraço e voltamos para eles.
— Bem, presumo que vocês dois aí não ouviram nossa conversa, então, por favor, Okawara, fale novamente — disse Aikyo, em tom grosseiro.
— Como eu disse antes, e irei repetir: quando vi Ayumi, ela já estava assim. O diretor não disse nada, nem a secretária.
— E Ayumi lhe disse o porquê? — perguntou Katsu.
— Não, questionei-a, mas ela não falou uma palavra sobre isso.
— Então quer dizer que o fator inicial foi o encontro com o diretor? Eis o motivo por trás do mal-estar dela? — indaguei, franzindo as sobrancelhas.
Okawara retrucou com uma expressão mais fechada.
— Talvez… mas não diga isso alto novamente, seu idiota!
Enquanto conversávamos, uma mulher bateu na porta do quarto.
— O horário de visita terminou, por favor, peço que se retirem!
— Ah, certo. Já estávamos de saída mesmo — disse Okawara, levantando-se da cadeira.
A mulher ficou aguardando na porta até que o último de nós saísse do quarto.
— Se quiserem, amanhã no mesmo horário podem voltar. Até mais e bom descanso.
A mulher saiu rapidamente, como se estivesse atrasada para algo.
— Bem, amanhã continuamos o assunto; agora tenho coisas a tratar, estou cansado de ficar perto de vocês — disse Okawara, afastando-se.
— E-espera, Okawara.
Ele parou de andar, virou o rosto para mim, franzindo a testa.
— O que foi, moleque?
— Posso levar Itsuki também, amanhã?
— Ham? Minha casa virou um parque de diversões?
Ele ficou com uma expressão de raiva, mas logo cedeu.
Colocou a mão na testa e disse: — Ah, que seja. Acredito que ela seja confiável depois de tudo aquilo entre vocês.
Ele desviou o olhar e continuou andando, afastando-se de nós.
Não foi exatamente um sim, mas ficou assim, pelo menos para mim.
Aikyo não estava com uma boa expressão para mim.
Com certeza, ela não gostou da ideia de eu levar Itsuki.
Mas não me importei; peguei a mão dela em sinal de tranquilidade
— Y-yuki, você… tem certeza que está… tudo bem me levar? Parece que… ninguém quer me ver lá.
— Não se preocupe, não me importo com as opiniões deles sobre você; o que me importa é que você esteja presente comigo, isso sim.
Minhas palavras tocaram seu coração; o sorriso que se formou em seu rosto foi sincero, e o aperto que ela deu em minha mão foi forte, transmitindo uma enorme felicidade entre nós.
— Enfim, não acredito que Okawara simplesmente aceitou ela; isso está bem fora do contexto que conhecemos. Mas não tenho poder para impedir, então até logo.
Aikyo, com tom frio e olhos focados em mim, pegou a mão da irmã.
— Não se preocupe, até amanhã.
As irmãs saíram também, nos deixando para trás.
— Vocês também precisam ir embora ou têm mais alguém para visitar? — indagou Pinkrine.
— Ah… não, já estamos indo embora. Obrigado por tudo, senhorita Pinkrine.
Acenamos e fomos embora de mãos dadas; obviamente, enquanto nos afastávamos, Itsuki ficou encarando a porta do quarto onde Ayumi estava.
É algo triste, mas Ayumi logo estará conosco.
Logo depois que saímos da enfermaria, caminhamos sem direção, apenas seguindo o vento, que nos levava assim como as folhas das árvores.
Senti o vento esbarrando em minha pele, o frio arranhando minha nuca; virei e vi o cabelo vermelho dela se movendo conforme o desejo do vento.
Mesmo assim, o rosto triste dela, seus olhos caídos e o olhar desanimado me incomodavam.
— Ei, Itsuki. Vai ficar tudo bem com Ayumi, está bem? Se ficar preocupada assim, só vai passar energia negativa para ela.
Ela ergueu a cabeça, fixando seus olhos azuis nos meus cinzas; era como se nossos olhares tentassem se comunicar por nós.
— Mas não consigo ficar feliz… como ficar feliz… estando nesta situação?
Realmente, não há como ficar feliz com isso, mas também não é necessário se render à tristeza.
— Eu sei, é só ficar… quer saber, se eu deixar você sozinha, vai se afundar na tristeza e preocupação, então vou ficar com você esta noite, está bem?
Alisei novamente seu cabelo.
— Sério? Vai mesmo?
Uma mudança em seus olhos; continuavam tristes, sua expressão ainda abatida, mas pelo menos ela poderia compartilhar esse momento com alguém, e foi por isso que se animou.
— Sim, mas temos que ter cuidado para não sermos pegos, senão estaremos fritos, haha.
Não sei o que pode acontecer se dormir em um quarto que não seja o seu; nunca dormi no quarto dos meus amigos, então não pude saber.
Mas se eu dormir no prédio dos professores, ficarei perto do quarto de Okawara; além disso, poderei tranquilizar Itsuki ao mesmo tempo.
— Está bem… vamos ter cuidado. Podemos até ver filmes; sabia que Ayumi tem uma televisão onde passam vários filmes estrangeiros?
Pude ver uma mudança em seu rosto agora; era isso que queria ver.
— Sério? Filmes? Eu nunca vi isso, já ouvi falar, mas nunca tive a oportunidade de assistir.
Ela apertou minha mão, energética, quis andar mais rápido, me levando junto.
— Então será sua primeira vez, vamos lá, Yuki!
A forma como ela disse, feliz e animada com algo, me fez bem, no final das contas.
Assim que chegamos ao prédio dos professores, bolamos um plano para não entrarmos juntos e causar suspeitas.
Ela entrou primeiro no elevador; depois de cinco minutos, eu também entrei, mas, em vez de subir de elevador, subi pela escada.
Não encontrei ninguém conhecido no caminho, nem professor algum.
Consegui chegar ao andar de Ayumi perfeitamente.
Bati na porta quatro vezes, como forma de código para indicar que era eu.
Ela abriu a porta sem se mostrar; entrei rapidamente e a fechei.
— Hehe, foi perfeito o plano, não? — disse Itsuki, com um sorriso no rosto.
— Realmente, muito inteligente você, ó sábia Itsuki.
Me curvei, seguindo a brincadeira, até arranquei alguns sorrisos dela com isso.
É notável que ela não está pensando na situação; quero que ela fique tranquila quanto a isso, e está funcionando.
— Pode… me esperar onde quiser, tá bem? Eu vou tomar banho e já volto.
Assenti com a cabeça.
Esperei sentado no sofá da sala enquanto ela tomava banho.
Nesse tempo, fiquei olhando para a televisão pregada na parede, imaginando o que de legal poderia ver naquela tela preta refletindo de forma distorcida a sala onde estou.
Depois de um tempo, ela voltou toda arrumada, com o cabelo amarrado e um tom diferente, já que estava molhado.
Ela me levou até a cozinha; comemos algo e tomamos um suco.
Parece que Ayumi cozinha e deixa marmitas prontas na geladeira, um toque bastante amoroso por parte dela; não imaginei que fosse tão atenciosa assim.
Além disso, são alimentos bastante nutritivos e deliciosos.
— Ei, Yuki… posso te perguntar uma coisa?
— Sim, claro.
Suas bochechas coraram; ela levantou-se do banco em que estava e sentou-se ao meu lado.
Pela proximidade, deu para sentir perfeitamente um cheiro de morango, um perfume bastante chamativo e agradável.
Provavelmente o cheiro de morango é do creme que ela usou no corpo?
Ela tentou me olhar nos olhos, mas não conseguia.
O som de sua respiração aumentava, o coração começou a acelerar e seus dedos a tremerem.
O que estará pensando para deixá-la assim?
Peguei sua mão, gelada e macia.
Por favor, voz misteriosa, me ajude a transmitir tranquilidade para ela.
A forma como seu corpo reagia com a respiração ofegante deixava claro um incômodo.
— Itsuki… o que foi? Me diga, ainda está preocupada com Ayumi? Por isso está assim?
Ela tentou me olhar novamente, mas desta vez olhou para baixo, para meu rosto, onde ficam o nariz e a boca.
— Não… é que… nada. Estou bem… não se preocupe.
Ela colocou sua mão direita sobre a minha, que estava sobreposta à sua mão trêmula esquerda.
— Está bem, se você diz, vou acreditar. Agora me conte, o que queria perguntar?
— Queria saber o que está acontecendo entre você, as irmãs Yagame e Okawara… tenho certeza de que algo está acontecendo, e quero que você me conte, se confia mesmo em mim.
Ela me complicou agora; eu confio nela, mas não posso preocupá-la com tudo que está acontecendo…
Isso é para seu próprio bem, Itsuki…
Ela apertou minha mão, fazendo uma expressão triste para mim.
— Por favor, Yuki. Não esconda de mim, eu preciso saber de tudo. Não quero ser a única que não sabe de nada… envolveu até Ayumi…
De fato, não posso ficar escondendo sempre dela; era óbvio que haveria insatisfação por parte dela.
— Eu entendo, Itsuki. Desculpe por esconder de você, mas é para seu bem; quero te proteger, entende?
— Eu entendo, mas… eu quero te proteger e ajudar também, Yuki! Mesmo que seja perigoso, mesmo que isso me machuque, quero estar ao seu lado.
Seus olhos agitados se moviam para direções diferentes a cada palavra profunda que dizia; ela estava sendo totalmente sincera.
Isso toca meu coração; parece que a vontade de esconder dela está igualando a vontade de contar.
— Itsuki, se isso acabar te machucando, vai me machucar também, de certa forma; não quero te ver assim. Por favor, me entenda; quero que você tenha um dia normal.
— Mas eu não tenho! Não passo um dia normal, não fico normal, pois sei que há algo estranho neste lugar desde que cheguei. Queria que fosse sincero comigo, que fosse realmente meu melhor amigo e confiasse seus problemas a mim também!
Lágrimas começaram a descer de seu rosto.
E isso é culpa minha? Droga…
— Eu… Itsuki… confio em você mais do que em todos daqui. E é por isso que quero, de todas as formas possíveis, proteger nossa amizade, proteger você!
Coloquei minha mão em sua bochecha quente, enxugando lentamente suas lágrimas.
— Eu sei disso, mas se você quer me proteger, deve entender o quanto desejo proteger você também. Nosso vínculo só se fortalece se confiarmos um no outro; se estivermos juntos, podemos nos proteger de tudo.
Ela fez o mesmo comigo, colocando a mão sobre minha bochecha, alisando-a.
Como negar isso?
Se ela estiver comigo nesta batalha, será que conseguirei protegê-la?
Peguei sua mão quente, olhando em seus olhos.
— Está bem. Quero que esteja comigo, então vou te contar o que está acontecendo.
Itsuki deu um sorriso enorme, levantou-se e me abraçou fortemente.
Murmurando, disse: — Obrigado, Yuki, por confiar em mim.
Agora entendi: o cheiro de morango não era do creme de pele, mas sim do seu cabelo.
Arco:Investigação