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Capítulo 86 – O Ato de Incriminar.

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Capítulo 86 – O Ato de Incriminar.

Ficamos por mais tempo discutindo os detalhes da operação que iríamos executar.

Itsuki, ao meu lado, já começava a ficar entediada e exausta, além de estar com fome.

Mesmo oferecendo os biscoitos que Okawara deixou humildemente sobre a mesa, ela não quis nem sequer pegar um pedaço.

Na minha opinião, isso já deveria ter sido finalizado logo; não adianta conversar sobre isso agora, ainda mais sem ter ocorrido a reunião do conselho com Rita como nova presidente.

Pelo que Emi me contou, essa operação ainda deve ser apresentada nessa reunião para aprovação.

Com uma expressão de dúvida, Aikyo levantou a cabeça para fazer uma pergunta.

— Sobre eu ser vice-presidente, como isso vai acontecer? Eu nem sou do conselho, não faz sentido ter um cargo desses do nada, isso vai levantar muitas suspeitas.

Emi, segurando a xícara na mão direita, a colocou de volta na mesa.

— Sim, isso é meio óbvio. Mas já havíamos pensado nisso com antecedência. Assim que Rita entrou na disputa para presidência temporária, pedi a ela que escrevesse seu nome como vice-presidente.

Foi uma cartada muito boa, mas fizeram isso sem o consentimento da Aikyo… isso está me cheirando mal.

E comigo simplesmente me jogaram num cargo complicado sem me consultar antes, que precipitação.

— Entendo. Vocês anteciparam muitas coisas, então. Isso é bom, mas poderiam ter nos dito desde o início; óbvio que não recusaríamos, mas estaríamos conscientes do plano.

Aikyo não ficou contente com a omissão, mas aceitou, já que não tinha outra escolha.

Enquanto conversávamos em tom baixo, um som estrondoso em forma de batidas ecoou vindo da entrada, fazendo nossos corações congelarem por um instante.

— Quem é? Será que descobriram sobre a gente? — disse Rita.

Okawara fez sinal de silêncio para todos nós, enquanto caminhava até a porta da entrada.

Nos levantamos e saímos da visão da entrada, mas ainda dava para escutar a conversa de Okawara.

— Professor Okawara. Temos uma notícia importante para lhe dar, vinda exclusivamente do diretor.

— Do diretor? Notícia? O que é? Fale logo!

— C-certo! Abi Hideki, atual presidente do conselho estudantil, mas que está afastada por conta de uma tentativa de incriminar Rita Perona na noite passada. Após uma investigação profunda por parte dos seguranças, descobrimos que, na verdade, Abe Hideki foi a vítima.

— Ham? O que quer dizer com isso? Abe Hideki é a vítima nessa tentativa de incriminação? Explique direito.

— Sim! Ontem, uma denúncia anônima nos informou que viu uma pessoa fantasiada de mascote saindo da sala de gravações segurando uma pasta, e que seguiu até os armários individuais do conselho. Quando fomos verificar, encontramos a pasta e a fantasia no armário de Abe Hideki.

— Entendi. Então isso indica que foi ela quem fez isso?

— Sim! Mas, após verificarmos as câmeras, vimos que Abe não saiu de seu quarto; em contrapartida, descobrimos que um menino não havia voltado para o dormitório ontem à noite. E, por coincidência, a última pessoa que alugou a fantasia é o mesmo garoto que não voltou para o quarto.

— E me deixe adivinhar. O nome desse garoto é Yuki Hikaru, certo?

— S-sim! C-como sabe disso, professor Okawara?

— Instinto, esse moleque sempre está envolvido em problemas! — disse Okawara em alto tom, provavelmente direcionado a mim.

— Compreendo. Mas, em relação a isso, concluímos que Yuki Hikaru tentou colocar a culpa em Abe para que ela fosse desqualificada da disputa e favorecer Rita Perona. Mas, como ele não voltou para seu quarto até agora, o diretor afirma que Yuki deve estar no seu quarto.

— Perspicaz. Eu mesmo levarei ele para o diretor. Pode se retirar, rapaz.

— M-mas senhor, tenho ordens de…

— Eu já disse! Eu mesmo levarei o Yuki.

— C-certo, entendido. Irei me retirar. Obrigado.

Nesse momento, eu estava olhando para o chão enquanto escutava a conversa; assim que levantei a cabeça e olhei para o pessoal, todos estavam me encarando.

Será que todos acham que eu fiz isso mesmo?

Apenas Itsuki me olhava com uma expressão preocupada, mas os outros de forma condenatória.

— Você fez isso mesmo, Yuki? — indagou Emi.

— Não! Ele não fez isso! — gritou Itsuki, segurando minha mão.

— Ele não fez nada! Podem ficar tranquilos. — disse Okawara, se aproximando.

— Como pode ter certeza disso? Não ouviram eles dizerem que ele não voltou para o quarto ontem à noite?

Emi estava um pouco alterada, mas isso tinha motivo.

Okawara pegou uma blusa de frio jogada na poltrona e começou a se vestir.

— Bem, esse moleque idiota dormiu no quarto da Ayumi só para não deixar sua amiga dormir sozinha. Eu mesmo conferi isso à noite, então não tem como ele ter feito nada do que falaram.

Os olhares mudaram, mas ainda assim as irmãs Yagame continuaram com olhares sombrios para mim, por que será?

— Muito idiota mesmo. Então quer dizer que tem alguém querendo incriminar o Yuki? — indagou Rita.

— Sim. E essa pessoa viu que o garoto não voltou para o quarto, por isso executaram esse plano.

Realmente, não teria como eles executarem esse plano sem saber se eu estava ou não no quarto; só fizeram isso porque me viram indo para o prédio dos professores… Mas tenho certeza de que não vi ninguém por perto.

— Na realidade, não temos certeza se essa tal pessoa realmente tentou incriminar o Yuki; pode ser só azar e coincidência isso tudo, e o verdadeiro alvo era Abe.

Aikyo continua sensata e perspicaz.

— Temos que saber quem fez a denúncia anônima; foi ela que viu, então com certeza está envolvida.

Concordo com esse ponto de Okawara; isso está muito estranho e certamente há uma falha nessa denúncia.

— Então você vai levar o Yuki para o diretor? O que ele vai fazer com o Yuki? Ele vai ser expulso?

Itsuki, completamente preocupada, sua mão que segurava a minha estava suando e tremendo, além do seu coração batendo numa velocidade altíssima.

A força de sua pegada mostrava que ela não queria me deixar ir.

— Não temos o que fazer, vou levá-lo e pedir um tempo para investigar direito.

Katsu deu um passo à frente, se colocando no centro da conversa.

— É só falar que ele estava no quarto da Ayumi, não é simples? Você é a prova viva disso.

— Sim, isso seria uma prova fundamental, mas não posso revelar que ele estava dormindo no quarto de uma professora; isso o condenaria à expulsão.

Pela expressão que Katsu fez, mostra que ela está realmente preocupada comigo.

— Tudo bem, vamos resolver isso. Pode me levar, Okawara, eu confio que você vai conseguir me salvar.

— Yuki! P-por que você…

Antes que Itsuki terminasse de falar, envolvi-a em meus braços, apertando de um jeito confortante.

Não posso deixar todos verem essa fraqueza dela; preciso acalmá-la de qualquer forma.

— Tudo bem, Itsuki. Vamos resolver isso rápido. Confia em mim. — murmurei em seu ouvido.

Ela me apertou enquanto me abraçava, aceitando o que eu disse.

Se fosse antes, com certeza ela resistiria, mas agora temos uma confiança um no outro que aumenta a cada dia.

— Tudo bem… eu confio em você. — disse ela.

— Chega desse drama. Não é como se tudo estivesse perdido.

Aikyo, com seu jeito frio, estragou novamente nosso clima.

— Como assim, Aikyo? — indagou Okawara, com uma expressão fechada.

— Antes de você levar o Yuki para o diretor, vamos passar no depósito; quero conversar com a menina que trabalha lá.

— Ham? Por quê? O que isso vai nos ajudar?

Katsu fixou o olhar de forma assustadora na irmã; o jeito que ela congelou o corpo enquanto pensava parecia uma estátua.

— Katsu?

— Segundo o homem, o último que havia alugado a fantasia foi o Yuki. Isso tem a ver com aquilo, irmã?

Aikyo deu um sorriso de canto para Katsu, que sorriu de volta.

— Ou ou, só eu que não estou entendendo nada aqui?

— Calma, Okawara, vamos para o depósito que eu explico a situação.

Pela tranquilidade delas, pude me sentir um pouco aliviado, mas ainda assim preocupado.

Preocupado com o que vai acontecer comigo; não posso simplesmente ser expulso agora.

Tenho que voltar para meus pais, preciso ir para o Horizonte, cuidar da Itsuki e descobrir sobre os desaparecimentos das crianças e, principalmente, do Satoru; essa missão é minha e não posso simplesmente deixá-la de lado.

Voz misteriosa, quando chegar a hora, vou precisar de você para me ajudar… não queria isso, mas não terei escolha.

— Entendo. Estou ansioso para saber o que vai acontecer.

Depois dessa conversa, fizemos de tudo para sair em horários diferentes, para que ninguém nos visse.

Nosso objetivo agora é o depósito; segundo Aikyo, lá terá uma prova fundamental para me salvar e para o andamento da investigação que estávamos seguindo.

Seria como matar dois coelhos com uma cajadada só.

Assim que chegamos ao depósito, a menina que estava atendendo não era a de costume.

Ela era bem mais alta que a outra, cabelo curto preto e olhos cinzas.

Mascando chiclete apenas de um lado da boca, perguntou:

— O que querem?

Com uma voz ríspida, olhando apenas para Okawara à sua frente.

Aikyo chegou mais perto, passando por Okawara e ficando frente a frente com a menina.

— Quero te perguntar uma coisa: por acaso tem uma fantasia no nome de Yuki Hikaru pendente?

— Ham? De novo isso? Meu Deus! Como já disse para os seguranças hoje cedo, tem uma fantasia pendente no nome de Yuki Hikaru sim! Ele não a devolveu desde janeiro.

Desde janeiro? Isso não faz sentido.

— Entendi. E você lembra da aparência desse tal Yuki?

Aikyo continuou insistindo.

— Não fui eu que atendi esse menino. Foi o antigo funcionário, Theo.

Todos nós ficamos surpresos com isso.

O menino que desapareceu, Theo, está envolvido nisso.

O que está acontecendo aqui…

— Theo… e como você sabe que essa fantasia ainda não foi devolvida?

— Mesma pergunta dos caras de mais cedo. Sei que não foi devolvida porque no sistema consta que ela ainda está no estoque da escola e não no nosso depósito.

Faz sentido, até porque esse empréstimo da fantasia está com defeito.

— Uma pergunta: esses caras de mais cedo perguntaram diretamente se o Yuki devolveu a fantasia ou apresentaram a fantasia na sua frente? — perguntei, atrás de Aikyo.

A menina se esforçou para me ver, com a cara fechada.

— Que droga de pergunta é essa, garoto? Óbvio que perguntaram se o Yuki devolveu a fantasia. Se tivessem mostrado, eu teria feito de tudo para pegá-la de volta.

— Eles perguntaram? O que isso significa? — indagou Emi, me encarando.

Fiz pose de pensativo; Aikyo começou a me encarar com os braços cruzados.

— Isso significa que eles já sabiam que eu tinha pegado a fantasia.

Rita engasgou enquanto Itsuki me agarrou pelo braço.

— Como assim eles já sabiam? Você pegou mesmo a fantasia, Yuki?

— Não. Ele não pegou a fantasia, mas os seguranças não sabem disso, alguém deve ter insinuado que foi o Yuki quem pegou emprestado por ultimo.

— E provavelmente esse alguém é o responsável por tudo isso, tanto por ter me empurrado na piscina quanto por essa confusão agora.

— QUÊ? Como assim? O que vocês estão falando? Você é o Yuki, garoto?

A menina ficou com uma expressão bastante confusa.

— Sim. E não fui eu que peguei essa fantasia, ok?

De repente, ela parou de mastigar o chiclete, com os olhos fixos nos meus.

— C-com certeza você não é o Yuki!

— Ué, por que você acha isso? — indaguei.

— Theo me disse uma vez que o Yuki tinha um olhar assustador, mas o que dava mais medo era a cicatriz que ele carregava, mesmo sendo novo.

Cicatriz… onde já vi alguém com cicatriz aqui?

— Cicatriz? Yuki não tem cicatriz. Agora temos certeza de que alguém se passou por você em janeiro. — disse Katsu, animada, mas ao mesmo tempo tensa.

A menina já estava com uma cara confusa, não entendendo mais nada do que estava acontecendo.

Aikyo se virou para ela, provavelmente para fazer mais uma pergunta.

— Você, por acaso, sabe qual era a posição onde a fantasia ficava? Essa que o Yuki pegou.

A menina revirou os olhos, fazendo uma careta.

— Óbvio, né? Mas o que isso importa?

— Tem como verificar, por favor, se ela está vazia?

— Você é burra ou o quê? Se o menino não devolveu, então é óbvio que está vazia!

Aikyo não respondeu nada, ficou encarando a menina cara a cara; seu rosto fechado ficou assustador.

— Tsc… Me poupe. Povo chato. Espero que vocês vão embora depois disso.

Ela começou a mexer no computador, vasculhando algo.

Depois disso, saiu marchando de raiva, sumindo da nossa visão.

— Gente, o que vou contar agora prova algo muito importante: tem alguém tramando algo contra o Yuki.

— Isso é óbvio. — disse Emi.

Aikyo fechou os olhos, descruzou os braços e ergueu a mão direita.

— Primeiro, achamos uma fantasia suspeita no vestiário das piscinas grandes. Devolvemos aqui e descobrimos que o sistema estava com defeito, então não gravou o nome da pessoa que havia pegado emprestado a fantasia.

— Espera, essa fantasia que vocês devolveram é a que foi achada no armário de Abe? — indagou Rita.

— Não! A fantasia que achamos, a menina vai trazer agora! Ontem, pedi para a menina que trabalha aqui colocar o nome do Yuki como se ele tivesse pegado emprestado.

— Verdade, eu lembro disso! — disse Katsu.

— Mas por que você fez isso, garota? Por conta disso, o Yuki agora pode ser expulso.

Aikyo acenou com o dedo, negando o que Okawara acabou de dizer.

— Eu fiz isso porque imaginei que o responsável usaria isso a favor dele; dito e feito. E agora temos mais uma pista sobre esse orquestrante, que ele carrega uma cicatriz em seu corpo. Só precisamos saber em qual parte do corpo está a cicatriz.

— Verdade. Tem mais alguma coisa importante para falar? — indagou Emi, cruzando os braços.

— Sim. A fantasia que acharam nem fizeram questão de trazer para ser analisada pelo depósito; logo vão ficar com ela para servir como prova contra o Yuki.

— Mas? — disse Katsu.

— Mas, se soubermos quem pegou essa fantasia, saberemos quem é o culpado ou até mesmo um cúmplice dele. Pois alguém teve que usar o nome dele para pegar a fantasia emprestada e jogar a culpa no Yuki.

— Entendo. Já que a fantasia que vocês acharam está com defeito no sistema, com o nome do Yuki e consta como não devolvida, só culpar o Yuki que ninguém vai questionar.

Emi, bem concisa.

— Exatamente. E como ninguém vai questionar, fica fácil usar qualquer fantasia, já que não vão devolver para o depósito e usar como prova.

Aikyo está com a expressão que sempre fica quando está deduzindo algo; o prazer e a felicidade que sente ficam claros em seu rosto.

— E como usaram qualquer fantasia, é só saber quem a pegou para chegarmos ao culpado.

Assim que Katsu disse isso, a menina chegou com cara totalmente diferente de antes, desconfiante e surpresa.

Uma expressão incrédula, enquanto olhava para o que segurava nas mãos.

— A fantasia… ela… realmente está… aqui.

A maneira como ela fala, olhando para a fantasia dobrada, a forma como Aikyo observa a situação e a maneira como todos olham para a fantasia deixam claro para mim que algo muito grande vai acontecer.

Mas uma dúvida paira na minha cabeça: se a fantasia estava aqui, por que o culpado não veio pegá-la? Isso é uma falha enorme; se ele sabia que a fantasia estava aqui, o óbvio e sensato a fazer é pegá-la para o plano ser bem executado.

Mas por que ele permitiu que ela ficasse aqui…

Arco: Investigação