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Capítulo 87 – Quem usou a fantasia?

Chiheisen — illusia.com.br · All chapters

Capítulo 87 – Quem usou a fantasia?

Observando a fantasia nas mãos da menina, não pude dizer nada, apenas fiquei imerso em meus pensamentos.

Mas Aikyo percebeu isso.

— Só de olhar para sua cara, Yuki, dá para ver que você não acreditava que a fantasia ainda estaria aqui, não é?

Acenei com a cabeça, confirmando o que ela disse.

— Eu sabia. Mas acredite se quiser, não era para estar aqui. Pedi para a doidinha fingir que você estava com ela enquanto a deixava guardada.

Devo ter subestimado a Aikyo; não esperava que ela fosse tão perspicaz.

— Entendo. Mas se a fantasia está aqui, então podemos usar isso a favor do Yuki, para mostrar que não foi ele quem fez aquilo, certo?

Itsuki tem razão, mas há um ponto muito importante no meio disso: quem foi a pessoa que testemunhou tudo.

Emi colocou o capuz e saiu andando.

— Até mais! Depois conversamos mais, por enquanto tenho umas coisas para resolver.

Acenamos nos despedindo dela.

Era o melhor a se fazer mesmo, até porque eu não podia, de jeito nenhum, ter ficado perto dela.

— Sobre o que você disse, Itsuki, realmente pode ser uma ressalva para nós. O problema mesmo é explicar por que o Yuki não voltou para o dormitório; essa é a questão.

Aikyo, com uma expressão completamente focada, observando o chão, disse algo importante.

Eu não voltei para o dormitório, isso me tira um álibi importante e me coloca em uma situação nada convencional.

Não importa o que eu diga, irei sofrer consequências do mesmo jeito.

— Bem… não sei se eu podia estar escutando essa conversa… então peço que se retirem, por favor. — disse a menina do depósito.

— Ah… desculpa, vamos sair mesmo.

Katsu ficou envergonhada, puxando sua irmã pelo braço.

Saímos do depósito e caminhamos seguindo o vento, imersos em nossos pensamentos.

— Eu acho que você devia falar que desmaiou em algum lugar. A escola não tem provas do contrário, então não pode negar. — disse Aikyo, com um olhar cansado.

— Vocês estão esquecendo de uma coisa muito importante aqui.

Okawara disse de um modo tranquilo, bem diferente do seu jeito normal; seu olhar fixo na direção à frente me deixou curioso para saber o que ia dizer.

Nós olhamos para ele; Aikyo, inquieta, pediu para ele falar logo, enquanto eu apenas fiquei observando.

— Aikyo e Katsu, podem voltar para seus dormitórios ou ir para onde quiserem. Eu vou levar o Yuki para o diretor agora.

— Que?? E a coisa que ia falar agora? O que estamos esquecendo?

Assustei com o tom de voz elevado da Aikyo; foi realmente alto e grotesco.

Katsu segurou o braço da irmã, como sempre, para acalmá-la.

Entendi a situação do Okawara; ele não quer dizer porque quer confirmar primeiro com o diretor.

Isso que se chama não criar expectativas.

Me virei para as irmãs Yagame, com um sorriso no rosto; tentei ao máximo criar um sorriso falso para tranquilizá-las.

— Obrigado por tudo, meninas, vocês me ajudaram muito. Não sei o que vai acontecer comigo, mas quero que descubram quem cometeu aquele ato contra mim na piscina. Por favor.

Aikyo fechou a cara, como se não importasse com o que eu estava falando; Katsu ficou com os olhos abertos, me encarando com uma tristeza imensa no rosto.

— Hmf… é óbvio que vou descobrir, com você pedindo ou não. É meu dever como a melhor no ranking de dedução da escola.

Katsu soltou o braço de Aikyo, se aproximando de mim; suas bochechas coradas, mas com olhos marcados de tristeza, ergueu os braços e, com uma força notável, me abraçou.

Foi inesperado; não esperava que ela reagisse assim.

Seu abraço é forte e preocupado, mas não é o mesmo abraço da Itsuki.

Não sinto o conforto que sinto quando estou com a Itsuki, mas ainda assim é um abraço que devo respeitar.

— Não desista! Lute, argumente, brigue. Não deixe que eles te diminuam ou tentem se livrar de você. Por favor, volte para nós.

Essas palavras leves, murmuradas em meu ouvido, com um leve toque desgastante vindo dela, como se ela estivesse quase chorando.

Por que Katsu está tão sentimental assim comigo? Não lembro de ter criado uma conexão forte com ela.

Mas, ao mesmo tempo, sinto um olhar triste me encarando; pela sensação, deve ser da Itsuki.

Ela realmente me disse que tinha medo de me perder para Katsu, e agora, vendo ela me abraçando dessa forma na frente dela…

Preciso terminar logo com isso.

— Certo, obrigado por tudo, Katsu, mas vai ficar tudo bem.

Soltei-me de seu abraço; seus olhos quase lacrimejando.

Para não parecer muito óbvio, ela rapidamente virou o rosto, se jogando na Aikyo.

Com um olhar afiado, Aikyo se afastou de nós.

— Quanto drama desnecessário. — disse Okawara, com as mãos no bolso.

Itsuki, cabisbaixa, com as mãos juntas sobre seu coração.

Não sei se está triste com o que vai acontecer comigo ou com o que acabou de acontecer entre mim e a Katsu.

Me aproximei dela, pegando uma mecha de seu cabelo que estava na frente do rosto, colocando de lado para que seu ouvido ficasse livre.

Só de tocar sua bochecha, sinto a tristeza imensa já transbordando dela.

Sua bochecha vermelha e quente, além da gota de lágrima que caiu sobre minha mão.

— Itsuki…

Antes mesmo de falar algo, ela me abraçou.

Da mesma forma que Katsu, mas dessa vez com uma diferença enorme no contato.

Essa mesma sensação que sempre sinto com a Itsuki veio à tona novamente: um conforto familiar me rodeando, um calor imensurável tocando cada parte do meu corpo, essa energia inexplicável nos conectando a cada segundo. Como isso pode ser tão diferente dos outros?

Por que só com ela sinto esse sentimento de conexão?

Mas não precisei de palavras para acalmá-la; apenas meu abraço fez isso.

Seu coração, que estava doendo e pulsando de forma preocupada, agora está leve e tranquilo.

— Vai dar tudo certo. Só vou precisar do seu apoio.

Itsuki moveu a cabeça para cima e para baixo, aceitando minhas palavras.

— Vocês vão vir, não, pirralhos?

Okawara já estava longe; melhor irmos logo.

Soltei Itsuki e peguei sua mão, levando-a comigo.

O caminho que deveria ser de pressão e repleto de insegurança misturada com medo está sendo tranquilo e confiante, talvez por conta da Itsuki?

De qualquer forma, vou aproveitar esse momento de paz; tem até chances de ser nosso último.

Assim que chegamos ao prédio escolar, Okawara me pediu para tomar água.

Não entendi muito bem o porquê, mas provavelmente é um preparo para o que irá vir.

O que foi bem estranho é que ele não deixou a Itsuki vir comigo, mesmo ela não querendo soltar minha mão por nada.

Mas algo me diz que isso tudo tem um motivo; ele quer um tempo a sós com a Itsuki.

O que ele vai falar com ela…

Fiquei um pouco apreensivo e ansioso, então não demorei muito para tomar água; me apressei e voltei o quanto antes.

De longe, notei que realmente eles estavam conversando algo, e como Okawara deu todo esse trabalho para essa conversa, voltei com passos lentos, dando um tempo a mais para ele.

Que assunto seria esse para Okawara não me querer por perto? Será que tem a ver com a conversa que tivemos ontem?

Ou está relacionado com o que vai acontecer agora.

De qualquer forma, duvido muito que ela vai permitir que me conte.

Será que ela vai conseguir esconder isso de mim para início de conversa? Vai ser um enorme peso em suas costas.

Eles notaram minha presença de longe e encerraram o assunto.

— Voltei! — disse, com um sorriso no rosto enquanto encarava Okawara.

Dei um sorriso falso, com o objetivo de deixar Okawara confuso; ele se virou, mostrando suas enormes costas, e começou a marchar seguindo o caminho.

Itsuki pegou minha mão, apertando mais uma vez.

Olhei em seus olhos azuis; tudo que passa pela minha cabeça são simplesmente sentimentos fortes. Não sei nem como reagir, apenas aceito esse calor no meu peito.

O sorriso que ela está me mostrando é o seu sorriso fofo e sincero; provavelmente ela está tentando me dizer que está tudo bem, que Okawara não disse nada demais.

Isso é a verdade que eu desejo.

Continuamos andando, até que finalmente paramos em frente à diretoria.

Como na primeira vez que vim aqui, várias pessoas trabalhando em todas as direções, barulheira à solta e vários olhares estranhos direcionados a mim; desta vez não havia ninguém e um vazio se instala aqui dentro.

Deve ser porque hoje é domingo.

Demos mais alguns passos à frente, indo para a sala do diretor, com uma porta preta enorme, imponente, com traços dourados contornando a porta.

Uma maçaneta assustadora de um bode com apenas um chifre, totalmente incoerente com o ambiente e absolutamente desnecessária para um diretor de escola.

Okawara girou a maçaneta e então entramos.

Na sala, havia apenas o diretor, parado em frente à janela redonda atrás de sua mesa, observando a natureza lá fora.

— Diretor, trouxe o Yuki. — disse Okawara, com um tom de voz diferente do habitual.

Pela maneira como disse, parecia até mesmo um filho com medo de levar bronca.

— Certo, podem esperar lá fora, deixe apenas o Yuki aqui.

Assim que ele disse isso, Itsuki firmou sua mão na minha; seu coração acelerou e pude sentir o cheiro do seu medo.

Imaginei que ela poderia dizer algo para o diretor; ao olhar para ela, sua boca estava tremendo e seus olhos fixados no diretor, ela estava prestes a falar algo.

Peguei sua mão esquerda, que pressionava meu braço, e com minha outra mão virei seu rosto para o meu, pegando sua bochecha.

— Está tudo bem. Pode ficar tranquila, viu?

Seus olhos ansiosos vibravam como fogo, querendo dizer algo, mas sem conseguir; isso me preocupava um pouco.

Essa reação dela não é normal; acho que ela já deve ter passado por isso em algum momento e deve ter ficado com trauma, ou é apenas uma preocupação exagerada?

Devo ver isso com mais calma depois, claro, se eu não for suspenso agora.

— Yuki… eu não quero… te deixar aqui…

Ela soltou minhas mãos e me abraçou desesperadamente.

— Tudo bem, Itsuki. Você não vai me deixar, eu vou estar aqui o tempo todo. Lembra? Eu disse que não importa o que aconteça, sempre vou estar ao seu lado, ou você não acredita em mim?

Acariciei sua cabeça; com essas palavras tenho certeza que ela vai engolir a provocação.

Era o que pensei, mas não estava funcionando; ela não me soltava de forma alguma, pelo contrário, parecia que estava ficando cada vez mais ansiosa enquanto me abraçava, me prendendo nesse aperto.

— Pirralha! Venha logo, qual o problema de deixá-lo sozinho por alguns minutos? Você é a mãe dele, por acaso?

Não, Okawara, falar dessa forma não ajuda em nada.

Essa abordagem não vai funcionar com ela.

Itsuki é muito apegada a mim; ela deve realmente me ver como um irmão querido.

— Itsuki… lembra que você está com o anel da minha mãe? E lembra que você me emprestou também o colar? Isso tudo foi feito através de promessas, lembra?

Ela levantou o rosto; nossos olhos se encontraram, um olhar triste recheado de desespero e medo.

— Promessas…?

— Uhum, promessas. De que vamos ficar sempre juntos, mesmo que nos separemos, vamos sempre estar destinados a nos encontrar, pois estamos conectados por essas promessas, por este anel e por este colar.

Peguei sua bochecha quente, fazendo gestos leves e lentos de carinho.

— Então, por favor, confie em mim, está bem?

Ela fechou os olhos, tacando seu rosto em meu peito.

— Tá bom…

Após isso, ela soltou lentamente seu abraço, cabisbaixa.

Mas, antes de ir, virou-se para o diretor, com uma cara fechada, franzindo a testa; nunca vi Itsuki com um olhar tão ameaçador quanto esse agora.

Realmente aconteceu algo.

— Finalmente, que garotinha complicada. Enfim, Yuki, você sabe o motivo de ter sido chamado aqui?

— Tsc… não fale da Itsuki dessa forma. — murmurei.

— O que disse? Não escutei.

— Nada. Me chamou aqui por conta da suspeita sobre mim no caso da Abe Hideki.

— Quase isso, na realidade é meio óbvio que não foi você quem fez isso.

Ele se virou, deixando a janela e se sentando na cadeira.

— Espera, ham? Não entendi.

Como ele tem essa certeza de que não fui eu?

Pela maneira que disse, parece que já sabe quem fez.

— Bem, vou explicar tudo. Um garoto me disse que viu alguém saindo da sala de gravações levando uma pasta consigo.

— E quem é esse garoto?

— Isso eu não posso dizer, é anônimo.

— Mas foi ela que disse que tinha sido eu, então preciso saber quem é!

Ele fez uma cara confusa, colocando a mão sobre o queixo.

— Ele disse que foi você? Creio que está confuso, Yuki, pois como o indivíduo estava fantasiado, não tem como saber quem estava na fantasia; o próprio garoto disse isso.

— Então por que desconfiaram de mim?

O clima da sala, que estava frio, ficou quente do nada.

O diretor se levantou da cadeira, com um sorriso cínico no rosto.

— Essa é a cereja do bolo, o ponto principal da questão e o motivo de estar aqui.

Com as mãos no bolso, se aproximou de uma televisão grudada na parede direita.

— Nós pensamos que foi você porque, até agora, os guardas e o porteiro não viram você voltando para seu quarto, então é meio óbvio que a suspeita caia sobre você, não?

— S-sim. Faz sentido…

Foi o que pensei mesmo, mas se ele está falando isso, então me chamou aqui para saber onde eu estava.

— E por suspeitar de você, fomos dar uma olhada nas diversas câmeras espalhadas pela escola para saber onde estava, e olha que interessante.

O diretor apontou para a tela com um controle.

A tela brilhou mostrando uma imagem: era eu entrando no quarto da Ayumi.

Sem graça, arregalei os olhos, apertando minha blusa.

— Viu? Por isso não tem como ter sido você, já que o bonitinho aqui estava quebrando as regras, dormindo no quarto de um professor juntamente com uma aluna do gênero oposto.

— M-mas tem um motivo para isso… diretor.

— Não, não quero explicações complicadas ou desculpas mascaradas. Se eu te chamei até aqui, é porque quero que me faça uma coisa. Se cooperar, eu esquecerei de tudo e você não será expulso da escola, mas se não cooperar, já sabe.

Droga, até o diretor fica com esses papos igual o Okawara, sempre me usando para seus objetivos.

Mas o que ele quer que eu fale?

— E o que seria… isso, diretor?

— Bem, encontramos a fantasia no armário da Abe, essa fantasia que, segundo a testemunha, é a mesma que viu saindo da sala de gravações. Por conta disso, demos uma olhada no sistema do depósito e vimos que essa fantasia foi emprestada em janeiro.

Assim como aquela que encontramos, duas fantasias pegadas em janeiro, por qual motivo?

Uma foi retirada por alguém que teve o nome apagado, e essa agora?

— E quem pegou essa fantasia?

O diretor fez uma pausa dramática enquanto me encarava; o silêncio na sala cooperava com o momento tenso e ansioso.

Se a pessoa que pegou a fantasia em janeiro for a mesma que fez isso, por que teve o trabalho de demorar tanto para devolver? Na realidade, por que ela fez isso com uma fantasia que ela mesma pegou?

É uma pessoa burra ou completamente louca.

Ou… espera.

E se… essa pessoa foi…

— Jio, o nome do garoto que pegou emprestado.

… foi forçada a fazer algo?

— Jio? Mas ele não desapareceu junto com o Theo?

— Sim, mas pelo visto a pessoa que usou essa fantasia estava com a fantasia do Jio. Ou, era realmente o Jio.

Como assim era o Jio? Isso não faz sentido nenhum.

— Agora entra a questão do nosso acordo. Quero que você descubra quem usou essa fantasia. Em troca, olhe esse vídeo por um minuto.

Mais uma investigação? Já estou em uma, por que ele quer que eu entre em outra…

O diretor pegou um dispositivo, o mesmo que eu havia visto na sala de gravações.

— Este dispositivo foi encontrado junto com esta fantasia, no armário da Abe.

Ele plugou o dispositivo na televisão.

Depois de mexer um pouco com o controle, um vídeo foi iniciado.

O conteúdo do vídeo é bem familiar, mostra um ângulo da piscina grande.

O mesmo ângulo da câmera que vimos quando estávamos investigando a piscina grande.

Só que o menino que aparece em frente à piscina sou eu??

— Espera… isso é… no dia em que me afoguei?? — indaguei.

— Exatamente. E não só isso, mas observe bem, a pessoa que te empurrou.

Como ele disse, alguém apareceu atrás de mim.

Vendo isso, meu coração começou a acelerar, minha respiração ficou ofegante e pesada.

A pessoa que me empurrou está claramente usando a fantasia.

A fantasia que Jio pegou emprestada.

O que está acontecendo aqui?

Como isso é possível?

Jio… quem é você?

Arco: Investigação.