Capítulo 89 – Origem das Partículas Oni: Novas Descobertas.
Capítulo 89 – Origem das Partículas Oni: Novas Descobertas.
Dois dias se passaram desde a reunião com o diretor, mas toda a nossa conversa ainda está fresca em minha memória.
Fico me perguntando por que tal criança teria usado a fantasia e pegado aquela pasta com o dispositivo dentro.
Não perguntei a ele, mas será que este dispositivo que ele me emprestou, com a gravação sobre aquele dia, é o mesmo dispositivo encontrado no armário da Abe?
Não vejo sentido em tentar sabotar a Abe com essa gravação, até porque, na filmagem, só eu estou envolvido.
A não ser que a criança na fantasia… seja a própria Abe.
Se fosse o caso, faria total sentido colocar o dispositivo no armário dela. Mas, como não há provas de que é ela quem está usando na hora do ato, não vai acontecer nada demais.
Claro, isso presumindo que este dispositivo seja o encontrado no armário da Abe. Mas, se não for o caso, provavelmente o diretor não quer que eu saiba sobre isso, já que, em nenhum momento, ele citou o assunto.
Possivelmente não deve ser nada demais. Talvez tenha pegado qualquer gravação mesmo, apenas para sabotar a Abe.
Esquecendo um pouco desse assunto, ontem Arushi disse que queria conversar comigo hoje sobre algo bastante sério.
Vindo dele, fiquei até um pouco ansioso para saber o que poderia ser, então nem saí do meu quarto, justamente para me preparar para recebê-lo.
Um leve som ecoou da porta, seguido de uma batida.
— Deve ser ele.
Assim que abri a porta, encontrei Arushi segurando duas bolsas enormes debaixo dos braços. Mesmo usando as alças das bolsas sobre os ombros como suporte, com certeza aquilo deveria estar pesado.
— Oi, Yuki. Quanto tempo.
O som tranquilo de sua voz e sua expressão leviana e serena não condizem com a cena que estou vendo. Ou ele está fingindo muito bem que está leve, ou simplesmente deve ser a característica física dele sendo elevada por conta das partículas, fazendo com que tenha uma força elevada.
— S-sim. Mesmo a gente tendo se visto ontem, faz uma semana que a gente não se via, né… V-você quer ajuda com as bolsas?
— Está tudo bem. Não parece, mas as bolsas estão leves.
Arushi deu um sorriso encantador puxando as bolsas para o alto.
— Quê… está leve mesmo… Mas enfim, vem, entra.
Ele entrou com as bolsas pesadas como se fossem bolsas vazias. Ainda assim, pedi para ele colocá-las no sofá.
Após isso, com o clima tranquilo, fui fazer um café na cafeteira elétrica, já que não posso usar o fogão.
Enquanto eu estava na cozinha, Arushi e eu ficamos conversando sobre a semana passada, sobre o que cada um fez e as novidades.
Não podia contar a ele sobre as coisas relacionadas aos encapuzados, então inventei algo para dizer.
As reações dele eram normais, e parecia que tinha digerido minhas mentiras.
Desculpe, Arushi, mas agora não posso contar a verdade.
Depois de todo aquele papo jogado fora, nos sentamos no sofá, com xícaras de café sobre a mesa. Sentados frente a frente, finalmente chegamos ao assunto principal.
— E então, o que queria conversar comigo, Arushi?
Seu olhar severo, afiado e centrado se desviou para as bolsas ao seu lado, como se estivesse apontando para elas com os dedos invisíveis de seus olhos.
— Dentro dessas bolsas tem algo muito importante, mas, extremamente perigoso.
— Hã? Mas… mas por que trouxe algo assim para o meu quarto?
Quando tentei me levantar, Arushi fez um gesto para que eu continuasse sentado.
— Calma, é algo que você queria muito, tanto que me pediu para te ajudar.
— Importante? Para mim? Mas…
Sentei-me novamente, com calma, encarando as bolsas.
Pelo que me lembro, algo que eu queria muito e para o qual havia pedido a ajuda de Arushi eram os livros proibidos. Mas seria impossível ele conseguir os livros e, pelo volume das bolsas, se fosse esse o caso, ele teria pegado todos os livros.
O que é realmente impossível.
Arushi, com um sorriso aberto no rosto, pegou uma das bolsas, abriu o zíper e, com todo o orgulho e a alegria estampados em seu rosto, me mostrou o que havia dentro dela.
Droga, por que Arushi é assim?
— Os livros proibidos?!
Gritei de uma forma tão alta que dava para escutar até o segundo piso.
— Shiii… calma, respira.
Apesar das tentativas de Arushi de me acalmar, fiquei tão elétrico que me levantei do sofá para abrir a bolsa.
— C-como você conseguiu isso?? Isso… isso é…
— Impossível? Sim, eu sei, mas, com o Arushi aqui, nada é impossível!
Realmente… fico até triste por ter duvidado.
Na realidade, não lembro de ter pedido a ele pensando que duvidava se conseguiria ou não.
— Mas me conta, Yuki. Por que você quer esses livros?
Não posso deixar de contar, não depois do que ele fez até agora.
Mas é uma situação complicada. Se ele sempre quiser me ajudar em troca de informações, vai chegar um dia em que pode passar dos limites…
Vou precisar rever um pouco meus conceitos, mas, por enquanto, posso contar isso a ele.
— Bem… isso é segredo meu… mas, já que você conseguiu essa proeza, eu vou te contar.
Arushi reagiu diferente de antes, com um sorriso alegre.
— O motivo de eu querer os livros é para adquirir conhecimento sobre essas tais partículas em nosso corpo. Dessa forma, vou conseguir ter eficiência e vantagem nos próximos anos.
Mesmo ouvindo meu motivo, ele não me pareceu satisfeito.
— Entendi. Mas, Yuki, é só isso mesmo? Não creio que esse seu desejo seja o limite do seu objetivo sobre os livros.
Arushi movimentou a mão sobre o queixo, como se estivesse alisando sua pele.
— Você está certo, Arushi. Tem mais uma coisa, e esse é o principal motivo.
Troquei a perna que estava por cima, deixando a direita para baixo, conforme me ajeitava no sofá.
A expressão de curiosidade e ansiedade estampada no rosto de Arushi me deixa cada vez mais nervoso para falar, pois não sei qual será sua reação, nem qual resposta me dará.
Respirei por alguns curtos segundos, olhando para baixo.
— O principal motivo é o enorme desejo de sair desse lugar chamado ESA e ter a chance de procurar meus pais.
— E a única forma de realizar isso é sabendo tudo das partículas e da ESA, para assim conseguir achar uma brecha para sair?
— Exatamente, Arushi! Mas nada nessa vida é fácil. Muitos devem ter tentado sair daqui e, com certeza, ninguém conseguiu.
Conforme eu falava, Arushi piscava lentamente para mim com esse olhar medonho.
— Obviamente, mas pode ficar bastante tranquilo, Yuki. Diferente dos que tentaram, você tem a mim e aos meus amigos. Nós vamos fazer de tudo para sairmos desse lugar.
Sinto uma verdade enorme vinda dessa frase, uma verdade que me faz ter fé no que diz. Até porque tudo que Arushi fez por mim nesse tempo em que estou aqui é inacreditavelmente incrível, o que faz a balança pesar a favor dele.
— Eu confio em você, meu amigo. E, mais uma vez, obrigado por me ajudar. Aliás, queria agradecer aos seus amigos também. Que dia posso vê-los?
Assim que disse isso, Arushi se ajeitou de uma forma estranha no sofá, mudando até sua expressão.
— Bom, talvez… hoje mesmo. Que tal?
Fiquei surpreso com sua resposta, ainda mais levando em consideração a reação dele. Parecia que não havia gostado do que eu disse.
— Ah… claro, hoje dá para mim.
Arushi se levantou rapidamente, arrumando seu cabelo e ajeitando seu uniforme.
— Certo! Vou até onde eles estão para passar o convite. Assim que estiverem prontos, volto aqui para te buscar, que tal?
— Beleza! Vou ficar aqui lendo um pouco por enquanto. Boa viagem, Arushi!
Ele se despediu de mim, saindo pela porta.
Depois de quase uma hora, escutei batidas vindas da porta. Larguei o capítulo dois do livro que estava lendo e fui abrir a porta.
— Voltei, Yuki!
É o Arushi, exibindo um grande sorriso para mim.
Mas não é só ele. Tem mais duas crianças ao lado dele: um menino com uma roupa casual e boné e, do outro lado, uma garota com o cabelo amarrado, deixando uma franja sobre a testa.
O menino de boné nem sequer me deixava olhar para seu rosto. A cabeça estava inclinada para baixo, e a ponta do boné me impedia de ver sua face.
Já a menina ficou me encarando com um olhar sombrio e observador, como se estivesse tentando ler minha mente.
— Podemos entrar? — indagou Arushi.
— S-sim, claro.
Assim que a garota passou na minha frente, seu olhar se desviou na minha direção. Mesmo com a cabeça reta, ela ainda teve a ação de me encarar de canto.
Nossos olhares se encontraram, mas foram apenas por alguns segundos.
Por esses poucos segundos, consegui sentir uma cautela enorme vindo dela, um sentimento de suspeita sobre mim, mas, ao mesmo tempo, misturado com um pouco de felicidade.
Que garota confusa.
— Vocês querem algo? Um café? Água?
Os três negaram quase ao mesmo tempo.
Sentamo-nos no sofá. Arushi ficou ao meu lado, enquanto os dois se sentaram à nossa frente.
— Bem, vamos aos cumprimentos. Yuki, o de boné se chama Gojo Sink, e a garota se chama York Sinclair. E, amigos, este aqui é o Yuki Hikaru.
— Prazer, pessoal! Fiquei sabendo que vocês ajudaram meu amigo aqui a pegar esses livros. Muito obrigado mesmo. E, como são livros proibidos, aceito quaisquer perguntas suas.
Curvei-me em agradecimento. Acabei de ler isso no segundo volume de A Origem, que as pessoas se curvavam umas para as outras em sinal de respeito, cumprimentos e agradecimentos.
— Hã?
Mas, pelo visto, eles não sabem o motivo. Pela cara deles, estão sem entender nada.
— Isso, na cultura japonesa, é uma forma de agradecimento. Ele está agradecendo vocês, só isso — disse Arushi, com os braços cruzados.
— Entendi. Mas não precisa disso. Pode levantar a cabeça.
Gojo ergueu a cabeça. Dessa forma, pude ver melhor seu rosto.
Que cara assustadora.
— Mas eu quero te fazer uma pergunta, Yuki.
O tom de voz de York condiz com sua aparência fofa, mas seu olhar sombrio estraga toda a fofura.
— P-pode fazer.
— O que você quer com esses livros? Eles só devem informar sobre a origem das partículas, ou seja, do passado. Não vai mudar nada se você souber o que aconteceu há muito tempo.
— Eu entendo. Mas pensa comigo. Se você souber as fases iniciais do problema, se souber como ele começou e os testes sobre o problema, saberá como ele funciona e os fatores que contribuem e desfavorecem o problema, fortalecendo-se ainda mais e aperfeiçoando as medidas sobre ele. Entendeu?
— É com os erros que aprendemos, não é? — comentou Arushi.
— Se eu fosse você, eu nem tentaria explicar para essa aí. Até essas paredes daqui têm mais inteligência que ela.
Gojo, que até agora estava com a guarda levantada, deu um sorriso para brincar com sua amiga. Eles devem se dar muito bem.
Tirando o soco que ela acabou de dar no ombro do Gojo.
— Na próxima vez será um chute, seu idiota! Enfim, o que você está querendo dizer é que, sabendo sobre o início das partículas, você saberá como elas funcionam para, então, melhorá-las dentro de você? Mas isso só faz sentido se você for cientista.
Para ficar mais perto de ambos, ajeitei-me no sofá, sentando-me na ponta dele.
— Não exatamente. Os livros não são técnicos nem didáticos, então não necessariamente preciso ser um cientista ou historiador para entender seu conteúdo.
York ficou com uma expressão de surpresa, enquanto Gojo apenas me encarava.
— Então os livros são o quê? Livros de receitas de como fazer coisas com as partículas, é?
O tom foi engraçado. Ela ainda deu uma risada sarcástica depois da pergunta, mas sinto uma ansiedade ao mesmo tempo. Foi uma risada de nervosismo.
— Eu entendi esse seu sarcasmo, mas também não é uma receita. Os livros são, na realidade, diários dos cientistas da época.
— Diários? Espera, como assim?
Arushi ficou surpreso. Foi o primeiro a reagir de forma diferente.
York e Gojo não se importaram muito, mas York fez uma expressão de decepção.
— Sim, são diários dos cientistas envolvidos nas pesquisas da época. O primeiro e o segundo volume se passam durante os primeiros dois anos estudando o meteoro no fundo do mar.
— No fundo do mar? Espera, a escola nunca nos ensinou isso.
— Eu sei, York. Por isso mesmo o Yuki é mais esperto que você.
— É o quê?
York deu mais um soco no ombro de Gojo.
— Fiquem quietos, vocês. Enfim, a escola nunca contou sobre isso, pois, na verdade, eles não querem contar a verdade. Por isso, ela está nos livros que supostamente são proibidos.
— Exatamente. Lendo o primeiro e o segundo agora, o diário conta literalmente quase toda a rotina do dia a dia dos cientistas, então tem muita coisa chata e que não é importante. Mas tem pontos que valem nossos interesses.
— E quais são esses pontos? — indagou Arushi.
— O primeiro, é certo que as partículas vieram de um meteoro. A escola ensina que o meteoro apenas caiu no mar e que as partículas são os próprios resíduos do meteoro se expurgando no ar. Mas não ensinaram que havia uma base de pesquisa no fundo do mar.
— Que estavam estudando de perto o meteoro.
Arushi complementou de uma forma misteriosa conforme observava o chão.
— Sim. E uma teoria do cientista que escreveu o segundo volume é que as partículas que estavam sendo cuspidas pelo meteoro podem ser uma forma de defesa pessoal dele, que é ativada cada vez que alguém se aproxima do meteoro.
— Que bizarrice — comentou Gojo.
York se ajeitou rapidamente no sofá, se jogando para frente.
— Então quer dizer que as partículas que rondam a nossa cidade natal foram causadas pelos cientistas?
— Bem, podemos dizer que talvez sim, mas, como é uma teoria, existe a possibilidade de não ser verdade. Até porque, quando o meteoro caiu, ele já estava cuspindo essas partículas antes mesmo de montarem a base no fundo do mar.
Expliquei da forma que penso, mas, sinceramente, acho que a teoria pode ser válida, usando o fato de que no fundo do mar havia peixes que se aproximavam do meteoro.
— Mas, Yuki, se o meteoro caiu no fundo do mar e se ele usa as partículas como defesa para cada coisa que se aproxima, a teoria continua válida, pois, no início, havia os peixes que poderiam se aproximar do meteoro, não?
Arushi leu minha mente. Não fico surpreso, ele sempre sabe o que penso e o que preciso, mas isso é assustador.
— Eu estava pensando nisso agora, Arushi. Mas, de qualquer forma, existem outras teorias sobre o porquê de o meteoro cuspir as partículas. A que foi confirmada é que o meteoro, por si só, é as partículas em sua forma completa, e o restante é ele se deteriorando com o tempo.
— Isso é o mais óbvio! — comentou York.
— Enfim, qual o outro ponto agora? — indagou Gojo, retirando o boné da cabeça.
Pela primeira vez, vi seu cabelo, mas não fiquei surpreso, já que consegui ver a cor dele pelas frestas do boné.
— O outro ponto é sobre a estrutura corporal das crianças que são geradas no ventre materno e expostas às partículas Oni. Parece que as partículas são uma forma catalisadora que aumenta, de forma direta, a velocidade de crescimento ósseo e neural das crianças.
— Isso nós sabemos. Por isso existem pontos de foco, onde cada um treina a parte de seu corpo onde tem todo o potencial das partículas concentrado, não é?
— De fato, Gojo. Mas o que a escola não ensina é sobre nosso tamanho. O cientista escreveu o seguinte: “Os bebês que nasceram com as partículas Oni três anos atrás são duas vezes maiores que as crianças normais da mesma idade, o que conclui nossa teoria. Elas são potencializadas pelas partículas e provavelmente ficarão maiores do que um adulto normal da mesma idade.”
— Espera aí, nosso tamanho de agora é maior do que o de crianças normais da nossa idade? — indagou York, com uma expressão assustada.
— Pelo visto, sim!
Arushi continuava calmo e tranquilo, enquanto Gojo e York estavam com uma expressão assustada e surpresa.
— O que me deixa com uma certa preocupação é: até quando vamos crescer? Vamos ficar tão altos a ponto de não conseguir passar por uma porta? Como vamos viver assim? Acho que vou descobrir isso nos últimos volumes.
York cruzou as pernas. Ela está usando uma saia que chega até o joelho, então está se ajeitando para ficar confortável.
— Você já terminou de ler o segundo?
— Ainda não, York. Mas estou quase terminando. Agora, o terceiro ponto é sobre a época em que começou tudo.
— Época? Vai explicar como era o Horizonte antes da merda acontecer, né? — indagou Gojo, com os braços cruzados.
— Quase isso. Na verdade, nos dois volumes que li não houve citação do Horizonte, apenas do Japão, tanto que os cientistas são japoneses e o meteoro está no que era antes um domínio japonês.
— Sim, claro. Tudo era do Japão, aí houve a guerra e nos separamos do Japão e viramos o país Shukaku, onde tem o Horizonte como capital, certo?
— Bem explicado, York. Pelo visto, você não é tão burra assim.
— Cala a boca, Gojo! Deixa a York em paz.
Arushi age como se fosse chefe ou pai deles. Isso fica um pouco engraçado no início, mas, no final, fica estranho.
— Mas sim, isso mesmo, York. Porém, a história é mais complexa e longa do que você pensa. Tanto que até eu preciso ler mais para entender, pois os dois volumes contam pouco sobre a época.
— Ué, se conta pouco, então por que você diz que é complexa e longa?
York é bem curiosa. Não esperava que ela fosse desse jeito, e eu gosto disso.
— O motivo é simples. Eu li algo interessante no meio do segundo volume que o torna, por enquanto, a parte mais importante entre os dois volumes.
Fiz uma pausa dramática, observando o rosto de todos, curiosos e ansiosos.
Menos o Arushi, que está com seu rosto normal, como se não esperasse grande coisa ou como se as revelações não fossem novidade para ele.
— E então? Vai ficar em silêncio mesmo depois de soltar essa bomba?
— Não, vou contar agora, York. O que eu li foi o seguinte.
Seus rostos ficaram mais curiosos.
Me ajeitei no sofá, cruzei os braços e fechei os olhos. Então comecei a citar o que li no segundo volume.
— “As tensões em Shukaku só aumentavam. Havia um medo crescente de que o governo japonês usasse toda a prefeitura como cobaia para testes com as partículas. Por causa disso, um camarada da minha equipe, morador de Shukaku, contou-me que havia recebido uma importante missão: roubar um pequeno frasco contendo as partículas e enviá-lo ao laboratório de uma indústria emergente chamada Cronwell. Não sei se o plano vai funcionar, mas vou ajudá-lo nesse processo. Pelo bem da minha cidade. Pelo bem da minha família.”
Assim que terminei de citar, resolvi abrir meus olhos, com a curiosidade de ver as expressões em seus rostos.
York e Gojo ficaram com os olhos arregalados, mas Arushi não demonstrou nada.
Além disso, senti uma dúvida crescente em York.
— Espera, isso está muito fora de contexto. Fiquei muito confusa.
— Eu entendi que, desde o início, havia uma briga, mesmo que pequena, entre o estado de Shukaku e o Japão.
— Exatamente, Gojo, mas ainda assim em entrelinhas. Por conta disso, acho que tem mais coisas a fundo sobre como a guerra começou. E isso eu irei descobrir lendo mais os diários.
— Fiquei curioso sobre isso. Quando descobrir mais coisas, fale com a gente — disse Gojo.
York assentiu com a cabeça, aceitando a ideia de Gojo.
— Certo.
— Então quer dizer que esse cientista ajudou, no fim das contas, seu camarada? Eles roubaram mesmo um frasco com partículas e entregaram para a Cronwell?
Arushi, pela primeira vez, fez uma expressão diferente do normal. O que tirou ele do seu conforto…
— Como eu disse, ainda não terminei o volume dois, mas acho que a resposta para isso não vai estar nesse volume. Talvez nos próximos.
— Quando chegar a vez de o tal camarada escrever o diário, eu presumo.
— Sim, provavelmente, Gojo.
O silêncio começou a pairar na sala. Gojo e York ficaram pensativos olhando para o nada, Arushi fechou os olhos com os braços cruzados.
Não sei bem o que se passa em sua cabeça.
— Aliás, Arushi, Gojo e York, como pegaram esses livros? E se descobrirem que os livros não estão mais lá?
— Não se preocupe com esses detalhes. Foque apenas no resultado.
— Entendi. Tudo bem, então.
— Yuki, você é um revoltante, né? Como é o mundo lá fora? — indagou York, me encarando com os olhos vidrados, cheios de curiosidade.
Com uma forma tão inocente, não sinto nenhum resquício de medo ou ódio por eu ser um revoltante. Será que o motivo de ela ter ajudado o Arushi e o motivo de ela estar aqui agora é o interesse por um revoltante?
— Agora não, York. Não é hora para essa conversa de seu interesse. Depois vocês conversam sobre isso.
— Aff… Arushi, você tinha prometido…
Quando York estava falando, de repente um som de batida ecoou pela sala, vindo da porta de entrada.
Batidas leves e tranquilas. Não deve ser segurança ou professor, mas sim algum conhecido meu.
Mas o problema é que tem três crianças no meu quarto e uma delas é uma menina.
Vai ser um problema imenso se descobrirem.
York e Gojo não se desesperaram com as batidas. O oposto: franziram as sobrancelhas conforme exibiam uma expressão ameaçadora.
Pude sentir uma intenção bastante forte vindo deles. Pelo visto, não são crianças comuns…
Mais do que isso, o ambiente ficou tão intenso que comecei a suar pela testa. Eles estavam exalando um sentimento tão extremo que a sala ficou quente para mim. Sou tão sensível assim?
Estou completamente surpreso com a mudança brusca de suas personalidades. Mesmo não dizendo nenhuma palavra, suas posturas ficaram firmes.
Me levantei rapidamente para ir até a porta.
Mas, assim que dei meu primeiro passo, Arushi segurou minha mão.
Seu olhar calmo e tranquilo, um sorriso aberto e sincero… Todo o momento sombrio e intenso do ambiente sumiu para mim.
— Calma, pode ser apenas seus amigos. Não precisa atender eles agora…
— Yuki, eu sei que você está aí!
Essa voz vinda da porta é bastante familiar…
Não pode ser.
— É, agora deu ruim — disse Arushi.
— Yuki, abre a porta, é a Ayumi!
Aqueles segundos em que o ambiente ficou normal voltaram com um peso em dobro.
Porque a Ayumi está aqui?
Arco: Investigação.