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Capítulo 90 – O Nascer do Ódio.

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Capítulo 90 – O Nascer do Ódio.

Desde que Ayumi estava acamada, não tive a oportunidade de me encontrar com ela para resolver as questões pendentes, principalmente em relação da cópia do broche de Itsuki.

Talvez ela tenha aparecido hoje para me contar a respeito disso. É o que espero.

— Yuki! Preciso falar com você, agora!

Ela com certeza não vai ceder, e minha curiosidade também não.

Mesmo com aqueles olhares sombrios sobre mim, disse a eles que daria um jeito.

A melhor coisa a fazer agora é sair do quarto e ir para algum outro lugar.

Gritei pela porta, informando-a sobre essa questão.

Após alguns minutos trocando de roupa, fui até a sala para ter uma última conversa com o pessoal.

— Vou sair com ela para algum outro lugar bem distante daqui. Quando se passarem uns dez minutos, vocês podem sair, entenderam?

Todos assentiram, agora com olhares normais.

Arushi foi o único que permaneceu tranquilo o tempo todo, provavelmente porque sabia que eu resolveria a situação.

— Sobre o assunto de hoje, devemos continuar depois. O que acha?

— É uma boa ideia, Arushi. Pensamos nisso depois. Agora preciso ir, antes que a Ayumi desconfie de algo.

Me despedi deles e saí pela porta com tanta rapidez que ela nem sequer conseguiu dar uma pequena olhada pela fresta.

— Que demora toda foi essa, hein, garoto?

Olhando melhor para Ayumi, percebi o quão abatida ela estava. O rosto pálido, os lábios ressecados e machucados, além do cabelo oleoso, deixavam evidente que aqueles dias tinham sido difíceis.

Parece que nem estava recebendo cuidados enquanto estava internada.

Mas, pela forma como está falando comigo, com certeza já está melhor, sem contar a roupa elegante que está usando.

— Ah… Eu estava me arrumando adequadamente para a ocasião. Não posso?

— Adequadamente? Isso não é encontro nenhum, garoto. Vamos apenas discutir algo importante, mas não aqui, no meu quarto.

— Tudo bem.

É óbvio que sei que não é um encontro, mas, como vi seu esforço para ficar elegante, provavelmente para não chamar a atenção para sua aparência, pude usar essa desculpa para deixá-la alegre por dentro.

O normal seria ela não se importar com o que eu disse, mas, como a situação não está muito boa para ela, com certeza sua mente está um pouco afetada.

Então, acho que ela não vai suspeitar de nada por enquanto.

Como não podíamos ser vistos juntos andando pela escola, ela foi pelo caminho principal, enquanto eu fui pelo caminho dos arbustos, que fica praticamente nos fundos.

Depois de um tempo, cheguei ao quarto dela sem nenhum problema.

Mas, durante o caminho, fiquei pensando no motivo de ela querer ter uma conversa séria dessas na frente da Itsuki. O que está planejando?

— Ayumi, cadê a Itsuki?

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse negando minha pergunta.

— A Itsuki não está aqui agora. E onde ela está não é da sua conta também.

— Grossa.

— O que foi, garoto?

— N-nada não. Vamos conversar agora?

— Hm! Tenho algo para te mostrar. Venha aqui.

Como estávamos na sala, aproveitei para me sentar no sofá macio e confortável.

O cheiro daqui está bem diferente da última vez que vim, como se tivessem passado algum remédio no chão.

Ayumi retirou de dentro de uma bolsa um papel branco e dobrado.

— O que é isso? — indaguei, observando atentamente o papel.

De forma elegante, ela desdobrou o papel pouco a pouco, mas, pelo tremor de suas mãos, ficou claro que ainda estava fraca.

— Neste papel há informações muito importantes para tentarmos encontrar o paradeiro da criança que pegou o broche da Itsuki.

— Dada a sua frase, posso entender então que ela não perdeu o broche, mas sim uma certeza, de que alguém pegou sem seu consentimento?

— Sim, de fato…

Ayumi tossiu de uma forma preocupante. Será que é normal ela estar aqui neste momento, em vez de estar na enfermaria?

— Bem, continuando. Pedi a um conhecido meu que fizesse uma coleta de informações nos lugares por onde a Itsuki passou e onde ficou durante o período de um ano até agora — disse Ayumi, enquanto ajeitava o papel amassado em cima da mesa.

— Mas ele conseguiu reunir todos os lugares e escrever tudo em apenas um papel?

— Sim. Você conhece a Itsuki. Ela não é o tipo de criança que sai muito. Além disso, não tem muitos lugares para ir, né?

Ela tem razão. Aqui na escola não há muitos lugares. O máximo de diversão é o parque, e o principal local de entretenimento é o mercado central.

Além disso, como Ayumi disse, Itsuki não é do tipo que sai sozinha.

— Entendo. Mas o verdadeiro motivo de saber por onde ela passou é descobrir quem ela pode ter encontrado, né? Talvez uma cabeleireira?

— Um bom palpite. Quando vi os lugares presentes neste papel, percebi que havia um bastante incomum. Aliás, foi no dia em que, coincidentemente, acabei me separando dela.

Interessante. Ela diz isso de uma maneira que faz tudo parecer uma verdade absoluta. Como tem tanta certeza de que essas informações são verídicas?

— Ayumi, me desculpa perguntar isso, mas como essa pessoa conseguiu saber por onde a Itsuki andou durante um período tão longo?

— Também não sei. Pelo que ele me disse, é um segredo. Mas creio que tenha sido na sala de gravações.

Se tiver sido na sala de gravações, então quer dizer que ele tem permissão para entrar.

Como teve que assistir a mais de trezentas gravações, isso deve ter consumido muito tempo.

Nesse caso, nós teríamos visto essa pessoa no dia em que fomos até lá.

Isso está muito estranho, mas, por enquanto, não adianta pensar nisso. Tenho certeza de que ela não vai contar quem a ajudou.

— Faz sentido. Esse seu aliado deve ser uma grande carta na manga. Talvez precisemos dele depois.

Ayumi não comentou nada, provavelmente tentando evitar esse assunto.

Colocando o dedo sobre um nome na folha, ela disse:

— Este lugar foi onde ela esteve sem mim.

Me aproximei da folha para ler o tal nome.

À primeira vista, não achei nada de anormal. Mas pensei um pouco mais enquanto analisava letra por letra.

— Ayumi, você disse que foi uma coincidência ela ter ido a esse lugar justamente no dia em que vocês se separaram. Por que exatamente vocês se separaram?

— Foi um pedido urgente do diretor. Como eu não podia recusar e também não podia levar a Itsuki, pedi a ela que ficasse me esperando, sentada em um banco no parque.

Entendi. Mas qual seria o motivo de Itsuki sair do parque, seguir um caminho tão longo até o mercado central e entrar do nada em uma loja de artefatos de pintura?

A pintura não é um hobby dela, muito menos um ponto de foco.

Mas, pensando bem, ela sofria bullying daquele trio de meninas do conselho, liderado por Abe Hideki.

Se elas encontraram Itsuki naquele dia, poderiam tê-la obrigado a comprar algo para benefício das três.

Ou existe a possibilidade de ela ter fugido do trio e se escondido naquele lugar, assim como no dia em que a conheci pela primeira vez…

Espera, naquele dia ela também estava separada da Ayumi.

— Mais uma pergunta, Ayumi. Nesse dia, por acaso, quando você foi procurar a Itsuki, acabou encontrando-a comigo?

— Olha, agora que você mencionou isso, me lembro de que sim. Foi a primeira vez que ela viu você, correto?

Ayumi fez uma expressão rígida, mas, ao mesmo tempo, parecia ter compreendido algo. Acho que está tentando ligar os pontos.

— Sim. E sabe o motivo de eu ter encontrado ela?

Ela segurou o queixo com a mão esquerda e balançou lentamente a cabeça, negando minha pergunta.

— Quando você atendeu ao pedido do diretor, o que exatamente ele queria que você fizesse?

— Se não me engano, era para acompanhar um executivo da Cronwell pela escola.

— E você fez isso?

Ela fechou os olhos, tentando se lembrar do que exatamente havia acontecido.

— Naquele dia, não encontrei o executivo no local indicado pelo diretor.

— Estranho. Foi um pedido feito pessoalmente pelo próprio diretor, e simplesmente o executivo não aparece?

Ayumi virou a cabeça para o lado, um olhar diferente, mas havia um detalhe estranho: ela estava mordendo os lábios.

— Tem algo te incomodando nisso, né? Não foi o diretor que pediu diretamente para você fazer isso, estou certo?

— Sim…

Está na cara. Se fosse um pedido do diretor, com certeza aquele executivo estaria esperando.

— Então, se não foi o diretor, quem passou essa informação sobre o pedido para você?

Ela apertou o vestido entre os dedos e desviou o olhar.

— Sendo sincera, eu não me lembrava daquele dia, pois queria esquecer o momento em que fui uma tola por ter acreditado em uma criança. Alguém como eu não pode interpretar literalmente tudo o que dizem sem confirmar por conta própria. Mas o Jin era uma criança confiável. Eu confiei nele.

Mais uma vez esse tal de Jin está envolvido. Então quer dizer que ele estava sendo usado desde aquele dia, ou até mesmo antes.

— E o que você disse ao Jin depois disso?

— Perguntei o motivo, é claro. Ele apenas disse que uma criança havia repassado aquela mensagem a ele para que me avisasse. Ele estava desesperado, então não quis continuar perguntando e simplesmente relevei.

Desesperado, é? Que detalhe importante. Ele provavelmente foi ameaçado por alguém para ficar em silêncio, mas estava dividido entre sua ética moral e o medo, chegando a se quebrar por dentro e derramar lágrimas.

Me levantei do sofá para expressar minha opinião. Não havia reparado nisso nas últimas vezes, mas estou sentindo uma eletricidade percorrer meu corpo, um choque uniforme na pele e um arrepio na nuca.

— Vou reformular o que pensei sobre tudo isso. E já aviso: não é algo certo. Posso estar errado, então peço que não leve muito a sério o que eu disser.

Com um gesto simples, ela assentiu e pediu que eu continuasse.

— Bem, o que pensei foi o seguinte: você estava com a Itsuki no parque e, por algum motivo desconhecido, Jin passou uma informação urgente para você, dizendo que o diretor estava lhe pedindo algo, certo?

— Certo.

— Mas isso é bem estranho, principalmente o seu comportamento. Pense bem: Jin é uma criança normal. Por que o diretor pediria a ele que fizesse isso? Ele tem a própria secretaria e muitas outras pessoas que poderiam transmitir esse pedido importante. Por que você não desconfiou dele?

Percebi um leve desconforto pelo olhar, já que ela apertava o próprio braço com a mão direita.

— Eu… tenho meus motivos. Um deles é que, naquele dia, eu estava… feliz e sentimental. Então não passou pela minha cabeça que ele estivesse tentando me enganar.

— Mas, se você estava feliz, por que não tentou lutar para continuar seu passeio com a Itsuki? Provavelmente era seu dia de folga, não?

— Não… Além disso, não posso negar os pedidos do diretor. São ordens absolutas.

Parece até um ditador. Que sombrio.

— Entendi. Enfim, pelo menos faz sentido você não ter estado no seu estado normal. E isso é um problema.

— Problema? Como assim, um problema?

— Um problema, oras. Quem orquestrou o plano para separar você da Itsuki sabia que você não estava no seu estado normal de sempre. A pergunta é: como essa pessoa sabia? Esse é o problema.

Ayumi rapidamente abaixou a cabeça. Senti o medo crescendo em seu coração enquanto ela segurava o vestido com força.

O que Ayumi está escondendo de mim? Do que ela tem medo?

— Continuando, naquele dia em que você se separou da Itsuki, eu estava conhecendo melhor a escola quando a vi correndo de três garotas que a perseguiam.

— O que você disse?

Rapidamente, o medo que preenchia seu coração e começava a dominá-la se transformou em raiva.

Seus olhos enfurecidos me encaravam como se ela quisesse devorar minha alma.

Que atitude é essa para uma simples professora? Por que toda essa proteção em relação a uma aluna?

— Bem… calma aí, professora. Você precisa se acalmar, pois o que vou dizer vai ser pesado…

Mesmo contra a própria vontade e por puro ódio, ela tentou se acalmar. Mas, pela força com que segurava o vestido, parecia estar canalizando toda a sua raiva em um único ponto.

— Ela estava sendo perseguida por três garotas que praticavam bullying contra ela havia muito tempo.

Assim que disse isso, ela se levantou e me agarrou pelos braços.

— Quem são elas? Me fala, quem são essas garotas?

Se continuar assim, não vou conseguir completar meu raciocínio. Mas também não creio que seja uma boa ideia dizer o nome das meninas.

Não… Pensando bem, será uma boa ideia dizer os nomes daquelas três. Dessa forma, poderemos tirá-las de vez do conselho estudantil. Como Ayumi pode ter influência para isso, posso tentar persuadi-la a agir.

As mãos dela estão firmes. Posso sentir o aperto em meus braços. A forma como me agarra é uma demonstração de sua raiva.

— Certo… Eu vou te contar. Mas preciso que faça algo em troca, tudo bem?

Não posso usar esse poder estranho das partículas na Ayumi, tanto por respeito quanto pelo medo de que ela perceba e acabe descobrindo meu segredo. Então vou ter que resolver isso apenas com palavras.

Já que ela perdeu a cabeça e está fora de si, posso usar isso a meu favor.

Ao cruzar os olhos com os meus, ela aliviou um pouco o aperto.

— Fala!

Inspirei um pouco antes de falar, fechei os olhos e abaixei a cabeça.

Comecei a citar os nomes das três meninas, um por um, de forma dramática.

Assim que terminei, o silêncio tomou conta do ambiente. Ela soltou meu braço, e senti sua presença se distanciando aos poucos.

Ao abrir os olhos, vi que ela nem parecia mais a Ayumi de minutos atrás. Sua postura e expressão haviam voltado ao normal.

Que diabos é isso?

Um sorriso escapou de seu rosto.

Um arrepio percorreu meu corpo.

— Já entendi o que você quer de mim.

Seus olhos, que estavam fechados, se abriram e se direcionaram para os meus. Agora, ela tinha um sorriso assustador, mas também uma determinação estampada no rosto.

— Você entendeu? Então sabe o que eu quero?

Mesmo que por poucos segundos, ela assentiu com a cabeça.

— Você quer tirá-las do conselho, estou certa?

Meu corpo tremeu todo depois dessa frase. Que dedução foi essa? Como ela soube que eu queria isso?

O que me surpreende é a mudança total de comportamento dela depois que falei os nomes das meninas.

Fiquei sem palavras, apenas olhando para seus olhos fixos em mim.

Arco: Investigação.