Capítulo 91 – Interesses.
Capítulo 91 – Interesses.
O tempo está passando como de costume. Enquanto isso, Ayumi e eu estamos tentando encontrar o responsável pela cópia do broche da Itsuki.
Não é uma tarefa fácil, já que é quase impossível descobrir algo sobre o qual não temos informações.
Por sorte, temos esse tal amigo da Ayumi, que conseguiu informações delicadas sobre a Itsuki. Para mim, é assustador saber que existe uma pessoa capaz de fazer isso.
Se ele resolver me observar e criar um registro de todos os lugares por onde passei e com quem conversei, isso pode se tornar um problema. Seria importante descobrir quem é essa pessoa.
Além disso, temos nossa própria cabeça para pensar. No momento, é a única coisa que pode nos ajudar a encontrar o culpado.
Mas isso, é claro, é apenas na teoria.
Encontrar o culpado com base em deduções e lógica não significa que ele realmente será o responsável.
O importante agora é tentar chegar a uma conclusão sobre o raciocínio de Ayumi em relação às três meninas do conselho que praticavam bullying contra Itsuki.
E, pela forma como as coisas estão indo, ela vai querer fazer algo para tirá-las do conselho como forma de retaliação.
— E então, Yuki? Você quer tirá-las do conselho? É isso que você e seus dois amigos do conselho queriam ao tentar se candidatar ao cargo temporário, certo?
Ayumi mudou completamente de personalidade. Agora está bem perspicaz.
Mas por que isso aconteceu do nada? Foi algo bastante suspeito.
— Ayumi, você está bem? Estava agindo de um jeito diferente minutos atrás e agora está completamente mudada. Isso não é normal.
Digamos que até possa ser normal, mas uma pessoa deixa vestígios quando está tentando mudar seu jeito de agir, não é? Não é algo que aconteça de forma drástica, como se a pessoa com quem estamos conversando fosse substituída por outra.
Diante de mim, ela começou a rir de um jeito peculiar. Por um instante, desviou o olhar, mas, assim que terminou seu teatro, voltou a me encarar.
— Estou completamente bem, garoto. Quando se trata de alguém que está sob minha responsabilidade, abandono qualquer sinal de fraqueza e me torno uma muralha fortificada.
Que jogo de palavras interessante. Não é do feitio dela.
— Que bom para você, então. Enfim, voltando ao assunto anterior, é exatamente isso que desejo.
— Deseja isso mesmo? Ou seja, quer que elas saiam do conselho de forma humilhante?
Humilhá-las seria desnecessário…
Mas, quando penso no sofrimento que elas causaram à Itsuki, não consigo perdoá-las.
— Eu não sou uma pessoa ruim, mas não consigo deixar de sentir raiva delas pelo que fizeram com a Itsuki. Eu… eu… quero isso! Quero acabar com elas!
Lentamente, mas com elegância, Ayumi se levantou do sofá e veio até mim com um sorriso no rosto.
Pelo formato do sorriso, pelo som pesado da risada e pela expressão sombria em seu rosto, posso afirmar com certeza que ela está sentindo um ódio imenso neste momento.
Segurando meus ombros com as mãos, com a respiração soprando em meu rosto e os olhos arregalados, ela disse com certa alegria:
— Então vamos acabar com elas!
Pude sentir suas emoções pulsando e se misturando umas às outras.
Não pensei que contar a verdade sobre o bullying que a Itsuki sofreu me ajudaria tanto a alcançar meus objetivos.
Desculpe-me, Itsuki, por contar isso, mas é necessário! Pelo seu bem e pelo bem dos encapuzados.
Passamos vários minutos conversando sobre um plano para acabar com elas.
— Você só pode estar maluco, acha mesmo que vou aceitar um plano desses? E ainda diz que gosta dela?
— Eu sei, isso é arriscado, uma isca sempre corre seus perigos, mas não temos outro plano melhor.
— Tsc. Entendo que não temos outra escolha, mas o que acha que Itsuki vai dizer ao ver você servindo de isca numa situação completamente desfavorável?
Na minha percepção, provavelmente ela ficaria com medo e com raiva ao mesmo tempo.
— Tenho certeza de que ela iria tentar ser uma isca junto comigo.
— Pois é, ela com certeza não vai deixar você sozinho. E eu não vou permitir que ela se junte a você nessa loucura. Plano reprovado!
Ayumi caminhou até o canto da sala, aproximando-se do abajur apagado, que estava sobre uma mesinha com duas gavetas.
— Aff. Então e agora? Qual o plano?
Ela abriu a gaveta de cima da mesa. O som da madeira deslizando foi agradável e nostálgico, lembrando o ruído que a gaveta do armário da minha mãe fazia.
De dentro dela, Ayumi retirou uma pequena caixinha preta.
— O que é isso?
Em silêncio, ela colocou a caixinha em cima da mesa, com melhor visibilidade, consegui notar que a caixinha estava trancada por um tipo de cadeado avançado cujo mecanismo exigia uma senha de quatro dígitos.
Sem rodeios, ela destrancou o cadeado digitando os números “2133”.
O que isso poderia ser? Não faço ideia.
Ao abrir a caixinha, ela retirou de dentro dela uma chave preta e pequena.
— Uma chave… O que você vai fazer com isso?
Sem dizer uma palavra nem olhar para mim, ela se levantou, deixando a caixinha para trás e seguindo seu caminho até um outro cômodo.
Depois de alguns minutos, ela voltou com um envelope vermelho sofisticado. Provavelmente havia algo delicado ali dentro, talvez um conteúdo ultrassecreto.
Não estou entendendo essa situação, mas estou seguindo sua dança sem contestá-la.
— O que tem nesse envelope é bastante complicado, mas podemos usar para chantagear a Abe.
Chantagear? Por que a professora Ayumi tem algo do tipo que prejudicaria uma aluna?
— Entendo. Não vou questionar o motivo de você ter algo do tipo, mas quero saber por que você pretende usar essa carta na manga logo agora?!
Há uma possibilidade de ela ter guardado esse envelope para usar em outra ocasião específica.
— Isso é confidencial, não tente entender meus motivos.
Com os papéis espalhados sobre a mesa, peguei dois deles para ler seu conteúdo.
Conforme lia, palavra por palavra, linha por linha, mais decepcionado ficava com Abe.
É difícil acreditar nisso, mas é a realidade.
O que teria motivado uma criança como ela a fazer isso? Não sei, e duvido muito que ela me conte.
— O que nos resta agora é criar um bolo usando este documento como cereja. Claro, o bolo é o plano.
— Eu só consigo pensar em um plano arriscado, mas perfeito para o contexto. Vale a pena analisar. — disse Ayumi, organizando os papéis sobre a mesa.
— Isso é bom, Quanto mais planos pensarmos, mais perto do sucesso estaremos.
Conversamos mais um pouco sobre esse plano arriscado da Ayumi.
Na minha percepção faz sentido ela ter dito que era arriscado, ao ouvir o passo a passo do plano, consegui pensar em vários pontos onde poderia falhar e nos comprometer.
Por conta disso, sugeri algumas mudanças no plano dela, não é algo surpreendente, mas que servira como um tapa-buraco conforme avançássemos.
A compreensão que ela tem de mim está melhorando, se penso em como me tratava antigamente, jamais imaginaria em seu jeito atual comigo.
Ela acenou sem hesitar em usar meu plano, em nenhum momento fez uma expressão estranha ou demonstrou negatividade.
— Agora está melhor. Dessa forma Itsuki não ficará preocupada. Mas isso vai sobrecarregar você. Tem certeza? — indagou Ayumi.
— Não tem problema. Eu só não quero desgastá-la, tudo isso que estamos fazendo é para o bem dela e vou ficar muito feliz se conseguir mesmo me sobrecarregando.
Ayumi fez uma expressão engraçada e tentou segurar o riso, mas não adiantou: acabou deixando-o escapar.
— Você é estranho, garoto. Mas e então, para o nosso plano funcionar, vamos precisar da ajuda do Okawara para executar o movimento do cavalo.
— Sim, isso eu deixo por sua conta, professora.
— Nem precisava falar. Já era minha intenção visitar aquele rabugento.
Nesse momento, ela está bem tranquila em relação à minha amizade com a Itsuki. Parece que finalmente entendeu que sou um amigo importante para ela e passou a confiar mais em mim.
Mas foi bem complicado chegar até aqui. Ela foi osso duro de roer até o final.
Eu queria muito esperar por Itsuki, mas preciso… preciso conversar urgentemente com as irmãs Yagame para resolver a questão da investigação.
Depois volto para conversar com ela.
Como não tenho como entrar em contato com as irmãs, não tive outra escolha a não ser ir até o dormitório das meninas.
A entrada nos andares dos quartos é proibida, mas o acesso ao piso principal é permitido.
Pedi à mulher que trabalha aqui que mandasse um recado para Aikyo, dizendo que eu estava esperando por elas.
Não demorou muito para que aparecessem, vindo do elevador.
— Yuki! — disse Katsu, com as bochechas coradas.
— O que quer, garoto?
Enquanto Aikyo foi direta como sempre, sem educação alguma comigo.
— Oi, meninas. Preciso falar algo urgente com vocês sobre nossa investigação e a fantasia.
— Aff, logo no nosso dia de folga?
— Para com isso, irmã. Eu sei que você está animada para saber sobre a investigação.
— K-Katsu!
— Hehe.
— Enfim, você não pode entrar no nosso dormitório. Então vamos para o parque, pode ser?
— Pode, sim.
Continuo achando muito fofo esse contraste entre elas.
Caminhei até o parque enquanto escutava as duas conversando sobre assuntos aleatórios.
Parece que Katsu está mais animada do que antes.
Assim que chegamos ao parque, demos de cara com uma surpresa não muito boa.
O parque está cheio!
— Nunca vi o parque tão cheio quanto agora. Como isso é possível? — comentou Aikyo, com os braços cruzados.
— Que droga! E agora? Vamos conversar aqui mesmo? Com esse barulho, ninguém vai conseguir nos escutar, né?
— É um assunto delicado, Katsu. É melhor irmos para um lugar mais afastado.
Sugeri isso porque nunca se sabe quem pode estar nos escutando. Mesmo em um lugar cheio, onde não parece haver ninguém prestando atenção em nós, sempre pode existir alguém com os ouvidos atentos.
— Então vamos para a cachoeira?
— Acho que também vai estar cheia, Aikyo. O melhor lugar para irmos é o antigo depósito, não?
— Uma boa ideia, Yuki. Mas aquele lugar é medonho… O melhor lugar para conversarmos agora seria o grande observatório. Que tal?
— Grande observatório? Como assim, Katsu?
— Você nunca foi ao observatório? É lá que temos aulas de astronomia. É muito legal! Dá para ver o espaço lá de dentro, as estrelas, os planetas e…
— Chega, irmãzinha. Ele já entendeu. Vamos logo até lá.
— Ebaaa!
Que interessante… Meu corpo se arrepiou do nada. Acho que é a empolgação de ver o espaço.
Consegui me controlar para não demonstrar isso a elas, mas estou muito ansioso, quase pulando de alegria.
Como será que esse tal observatório funciona para nos mostrar o espaço?
Caminhamos por muito mais tempo dessa vez, pois o observatório fica bem no extremo nordeste.
Nunca havia vindo aqui, e o grande observatório é realmente enorme.
A construção tem formato cilíndrico de uma ponta à outra, mas, bem no topo, há um enorme vidro escuro. O edifício é cinza-claro.
Mesmo estando no meio das árvores, os arredores são bem organizados e bem cuidados. Não há vestígios de vegetação crescendo nas paredes da construção.
Seguimos o caminho de pedras no chão, que nos levou até a entrada do observatório.
— Este lugar continua lindo e bem arrumado, né, irmã?
— Sim, Katsu. Eles cuidam muito bem daqui. Parece ser a construção mais cara desta escola.
A mais cara? Caramba, então faz sentido todo esse cuidado.
— Onde vamos conversar? — perguntei, enquanto admirava o ambiente interno.
— Vai ser no último andar.
O primeiro andar era mais uma área de recepção para os estudantes. Havia apenas quadros nas paredes, mesas e cadeiras para se sentar.
Mas as paredes eram pintadas de uma forma diferente: azul-escuro, com vários desenhos de estrelas amarelas. A iluminação era fraca, mas proposital, para destacar as cores brilhantes das pinturas nas paredes.
Espanta-me não haver ninguém aqui. Este lugar é calmo e belo.
— Que criança vai gostar de ficar neste ambiente melancólico? — comentou Aikyo.
Ela leu minha mente? Não, deve ter sido coincidência.
Mas o que ela disse é verdade. O ambiente não agrada às crianças. Não há um ar de diversão aqui.
À medida que subíamos os andares, percebi que o observatório também funcionava como um museu, com vários artefatos antigos relacionados a épocas remotas, como dinossauros e outros animais extintos.
Mas cada andar tinha um tema.
Ao chegarmos ao penúltimo andar, vimos que o tema era o próprio espaço.
O local apresentava a evolução do universo, os nomes dos planetas e suas histórias.
Um dia, vou visitar este lugar com calma, para observar cada parte com mais atenção.
E o último andar… Que perfeição!
Que visão magnífica! Meus olhos estão radiantes, e meu coração até acelerou.
— Uooow! Sempre me surpreendo com essa visão — comentou Katsu, olhando para cima.
Realmente, estou surpreso com isso.
Nunca tinha visto algo assim na vida, apenas nos livros, que mostravam como era a visão do espaço.
Mas isso… Os planetas, o azul indescritível misturado às estrelas distantes…
Isso é real mesmo? Como funciona? Preciso saber!
— Isso é o espaço de verdade?
— Sim. Está vendo esse enorme telescópio? Ele está direcionado para o espaço e capta imagens que são transmitidas por esses painéis no alto — explicou Aikyo, apontando para o telescópio.
— Que lindo! Estou sem palavras.
— Pois é. Acostume-se. Você terá aulas de astronomia neste lugar e verá isso bastante.
— Eu nunca vou me acostumar! Sempre fico maravilhada com essa visão. Hehe.
— Certo, irmãzinha. Agora vamos falar sobre um assunto mais importante: a investigação! Desembucha, Yuki! O que queria falar com a gente?
— Beleza. Vou falar.
Escolhemos um lugar para nos sentar, usando as próprias cadeiras da sala.
Agora é o momento importante da investigação: elas saberão da gravação, e daremos mais um passo nessa longa caminhada que parece não ter fim.
Arco: Investigação.