Capítulo 92 – Preparação.
Capítulo 92 – Preparação.
Os dias está passando muito rápido, bem mais do que eu imaginava.
A cada dia que passa, sinto que não estou avançando da maneira esperada. Meu objetivo parece cada vez mais distante e inalcançável.
Por conta disso, a dor que é apenas um grão de areia no meu coração pode se tornar um deserto ao final dessa caminhada.
A dor que eu não deveria sentir por segurança, será a causa da minha queda.
Enquanto eu observar o chão, derramando lágrimas, poderei gritar com todas as minhas forças para trás.
Para que o meu “eu” do passado não siga o mesmo caminho.
Para que o meu “eu” do passado não carregue essa areia.
Ambas mantinham os olhos em mim, ansiosas para ouvir o que eu tinha a dizer.
Sem delongas, comecei a contar tudo o que havia conversado com o diretor e o que tinha visto na gravação.
— Entendi. Então quer dizer que quem te empurrou foi uma criança usando uma fantasia, a mesma que foi encontrada no armário da Abe?
— Sim, Aikyo. E quem a pegou emprestada por último foi o Jin.
— Logo o menino que desapareceu… Coincidência? — comentou Katsu, assumindo uma expressão séria.
— Isso é suspeito. Tudo indica que Theo e Jin estavam agindo em conluio, com um objetivo em mente, mas ambos desapareceram do nada.
— E isso aumenta ainda mais as suspeitas de que estavam conspirando juntos.
Aikyo complementou muito bem o que eu havia dito.
Ajeitei-me melhor na cadeira, mantendo a coluna reta.
— Mas fiquei pensando… E se Theo e Jin estivessem sendo obrigados a fazer isso? Pelo que fiquei sabendo, eles eram bonzinhos demais e, com certeza, alvos fáceis.
— É uma hipótese que faz sentido. Mas, se estivessem sendo ameaçados, veríamos uma mudança drástica no comportamento deles. No entanto, continuavam sempre iguais.
— Felizes e bonzinhos — complementou Katsu.
— Espera, Aikyo. Quando você diz que eles sempre foram os mesmos, quer dizer desde a primeira vez que os viu?
Aikyo olhou para o chão à sua esquerda, refletindo sobre o passado.
— Se não me engano, desde a época da CDA, quando andavam com os irmãos Kobayashi. Eles eram o sorriso daquele grupo estranho e sem graça.
Então quer dizer que esses dois estavam envolvidos com os irmãos Kobayashi desde sempre. Isso está começando a ficar estranho.
— Lembra, irmã? Quando aquele menino careca empurrou o Theo e o Gyutaro correu para socorrê-lo? Pensando bem, eles eram grandes amigos.
Katsu sempre conseguia ver o lado bom das coisas com seu olhar positivo. Ou ela apenas aceita o que vê sem questionar.
À primeira vista, é claro que poderíamos pensar que Gyutaro era um bom amigo tentando proteger alguém de quem gostava. Mas havia outros fatores, até mesmo obscuros, que poderiam explicar aquele ato heroico.
— Se eles eram tão amigos no passado, continuaram assim quando vieram para a ESA?
Elas trocaram olhares antes de se virarem para mim.
— Bem, agora que estou pensando nisso, não me lembro de tê-los visto juntos, mas também não sei dizer ao certo.
Katsu cruzou as pernas e os braços antes de comentar.
— Eu já os vi juntos algumas vezes, sim, mas eles estavam sempre sorrindo um para o outro, então não dei muita importância.
— Entendi. Isso está complicado. Precisamos descobrir se eles tinham algum inimigo em comum, alguém que não gostava deles ou alguém que soubesse de algo para chantageá-los.
— Mas Yuki, isso é bem impossível de saber, né? — indagou Katsu.
— Na verdade, não. Basta perguntar aos amigos de longa data deles.
— Os irmãos Kobayashi?
O olhar de Aikyo ficou ameaçador, e ela franziu as sobrancelhas ao ouvir o nome dos irmãos.
— Não. Como você disse antes, eles faziam parte de um grupo, não é? Com certeza, não havia apenas quatro crianças nele.
O ambiente, que começara a ficar pesado só de mencionarmos a possibilidade de conversar com os irmãos Kobayashi, voltou a ficar leve.
Katsu descruzou o braço esquerdo e levou a mão ao queixo.
— Verdade. Pensando bem, havia uma garota no grupo. Só não me lembro de quem era, mas sei que ela era enorme para a idade.
Que criança poderia ser tão grande assim? Posso sair procurando por aí pela escola, pelo tamanho vai ser fácil achar.
— Você se lembra de mais alguma característica dessa menina?
— Se não me engano, ela gostava de dançar. Só isso — comentou Aikyo, em um tom que demonstrava pouco apreço pela informação.
— Mesmo com essas pistas, vai ser complicado encontrá-la por aqui. Mas deixem isso comigo; eu procuro por ela. Agora, vamos continuar com o outro ponto importante.
Elas acenaram com a cabeça.
— Sobre a fantasia, temos poucas pistas sobre quem a estava usando. As que temos são diretas, como, por exemplo, a informação de quem a pegou emprestada por último. Mas isso não é suficiente. Precisamos ver a gravação para analisar o suspeito em detalhes.
Katsu descruzou as pernas, inclinando o tronco para a frente.
— Principalmente o jeito de andar, a maneira de agir e a altura.
— Sim, irmã. Por enquanto, analisar a linguagem corporal pode ser útil. Você está com a gravação aí, Yuki?
— Estou, mas não aqui. Ela está no meu quarto.
— Que bom! Podemos assistir quantas vezes forem necessárias. Mas uma coisa me incomoda: por que o diretor confiou a você algo tão importante quanto essa gravação?
Às vezes, esqueço que ela é a segunda melhor no ranking de dedução.
— O motivo é simples, Aikyo. Ele me pediu pessoalmente para resolver essa questão urgente e, em troca, pedi a gravação para me ajudar. Ele não se recusou a entregá-la.
— Estranho. Nós já não estávamos investigando isso? Por que pedir sua ajuda novamente?
— Porque, desta vez, o caso envolve outras crianças, como Abe, a testemunha que viu alguém usando a fantasia, e o próprio envolvimento de Jin com ela.
— Ou seja, a atenção está aumentando, e ele não quer isso — complementou Aikyo.
— Exatamente. Ele quer acabar logo com isso sem envolver pessoas de alto escalão nem a própria polícia.
— Que situação complicada — disse Katsu, fechando os olhos enquanto coçava a cabeça.
— Pois é. Mas, voltando à gravação, precisamos assisti-la logo. Amanhã temos aula e outras atividades, então vai ser complicado nos encontrarmos.
Katsu fez uma expressão pensativa, colocando a mão no queixo.
— Mas como vamos assistir à gravação? Precisamos de uma televisão ou de um tablet, e não temos nenhum dos dois!
Isso é verdade. Por sorte e por azar, Ayumi tem a televisão de que precisamos. Mas como vamos fazer isso? Mesmo que ela me deixe usar o aparelho, como vou explicar isso para Itsuki?
Se eu contar isso, as irmãs Yagame ficarão curiosas para saber por que posso usar o quarto de Ayumi com tanta facilidade. E como vou esconder isso de Itsuki?
Está fora de questão usar o quarto de Ayumi. O que nos resta é Okawara.
— Podemos usar a televisão do Okawara. Que tal?
Elas trocaram olhares e depois se viraram para mim.
— Boa ideia! Vamos lá agora.
Ambas se levantaram rapidamente.
Partimos para o prédio dos professores, deixando para trás aquele belo lugar.
Enquanto caminhávamos, o vento fresco balançava os belos cabelos das meninas sob o céu nublado.
Katsu, que caminhava à minha frente de mãos dadas com a irmã, Aikyo, virou o rosto para trás. Seus olhos encontraram os meus.
Depois disso, suas bochechas coraram. Ela rapidamente se virou para a frente, mas soltou a mão de Aikyo.
Depois de dizer algo ao ouvido da irmã, Katsu diminuiu o passo e se aproximou de mim.
Sem entender nada, fiquei observando-a com atenção, mas sua cabeça estava voltada para a frente. Ela sequer olhou para mim.
O mais estranho foi ela ter pegado minha mão do nada, fazendo o mesmo que Itsuki faria.
Mas senti uma diferença. Não senti a mesma coisa que sempre sinto quando seguro a mão de Itsuki.
Era algo normal, apenas o calor da mão de Katsu.
Não que segurar a mão da Katsu seja algo ruim, mas não é especial.
Deixando isso de lado, percebo que ela está muito desconfortável. Suas bochechas rosadas, o tremor em sua mão, seu coração batendo rapidamente e sua respiração ofegante deixam claro que ela não está bem ao segurar minha mão. Por que continua fazendo isso, Katsu?
— Ah… Katsu? Você está…
— Irmã!! Desculpa, mas não consigo aguentar ver você de mãos dadas com outra pessoa! Vem aqui agora!
Aikyo puxou Katsu para longe de mim, pegando sua mão e afastando-a.
De qualquer forma, isso foi bem mais fácil do que eu imaginava. Eu não conseguiria pensar em uma maneira tranquila e saudável de fazê-la soltar minha mão.
Pelo menos agora ela está aliviada.
Depois de caminharmos por mais um longo trecho, chegamos à porta do quarto de Okawara.
Mas algo inesperado surgiu bem diante de nós. Infelizmente… ou felizmente?
Ayumi estava à porta do quarto de Okawara, toda arrumada e com uma maquiagem linda.
Ver Ayumi tão arrumada parecia até uma lenda. Ela usava uma saia que ia até os joelhos e uma blusa tão apertada que quase sufocava seus seios.
Ela parecia assustada e surpresa. Seus olhos arregalados e o corpo paralisado deixavam claro que estava fazendo algo que não queria que ninguém visse.
— O que está acontecendo aqui…? — murmurou Katsu, com as bochechas coradas.
Aikyo não conseguia acreditar no que via e não disse uma palavra. Estava de boca aberta, com o olhar fixo na região abaixo do pescoço de Ayumi, provavelmente atraída pelo volume de seus seios.
Agora entendi o que ela quis dizer com “deixa comigo a tarefa de resolver a questão de Okawara.”
Ela queria surpreendê-lo com sua aparência.
Que mulher esperta… As mulheres são muito espertas.
Mas será que funciona com o Okawara?
Ouviu-se o som da fechadura sendo destrancada antes de a porta se abrir.
Quem apareceu foi o próprio.
Imaginei que ele apareceria de cara fechada, pronto para perguntar grosseiramente o que estava acontecendo.
Mas tive uma grata surpresa: Okawara estava sem jeito, completamente absorto ao olhar para Ayumi.
Parece que ficou tão surpreso com a cena que nem percebeu nossa presença.
Mas eu não esperava vê-lo tão desprevenido.
— Você… não toma aquilo há bastante tempo, né? — perguntou Okawara.
Aquilo? Como assim aquilo? O que ela toma?
Só sei que Ayumi ficou com uma expressão triste e abaixou levemente a cabeça.
— Entra, vamos conversar direito.
Ayumi entrou dando passos lentos.
Okawara finalmente percebeu nossa presença nos olhando com sua cara de sempre.
— E o que vocês querem aqui? Hoje é dia de folga de vocês. Vão brincar, pirralhos.
— Tsc. Odeio esse cara — comentou Aikyo.
Katsu abraçou o braço de Aikyo e ficou colada ao seu lado.
— Okawara, viemos tratar de algo importante relacionado à gravação do dia em que fui empurrado. Podemos entrar e resolver essa questão? Podemos aproveitar que Ayumi está aqui para nos ajudar.
Ele fechou a cara, franziu a sobrancelha e tensionou a mandíbula.
Por um momento pensei que ele fecharia a porta bem na nossa cara.
Mas foi exatamente isso que aconteceu. Sem dizer nada nem nos dar satisfação, ele fechou a porta de forma brusca.
Droga, que cara complicado de decifrar.
Arco: Investigação.