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Capítulo XLIV (44) – Segundo Reino

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Capítulo XLIV (44) – Segundo Reino

Liuxian arregalou os olhos.

Seu golpe parou antes de atingir o peito de Mei.

Não por uma barreira de Qi. Nem pela lâmina de uma espada.

Uma simples mão.

Dedos firmes envolveram seu punho com uma força absurda.

Pela primeira vez desde o início do combate, a expressão de Hua Yuling Liuxian vacilou. Mei também permaneceu imóvel. Seu olhar desceu instintivamente até o próprio pescoço.

Vazio.

Então ergueu os olhos.

Uma mulher posicionava-se entre os dois, como uma proteção para a indefesa Mei.

— Agora… — disse ela, ao exibir um sorriso carregado de malícia. — É a minha vez.

Sem soltar o punho de Liuxian, girou o corpo em um movimento fluido e desferiu um golpe seco com a lateral da mão contra o antebraço dele.

Liuxian sentiu a dor, mas não o impacto. Exceto pelos reflexos involuntários, seu corpo não se move.

Ele não sabia como reagir.

A mulher à sua frente possuía uma aparência única. Em toda a sua vida, Liuxian jamais havia visto alguém tão bela e, ao mesmo tempo, tão diferente de tudo o que conhecia.

Longos cabelos brancos e cacheados na altura da cintura, seus olhos vermelhos pareciam hipnotizar a alma, e possuía um tom de pele que lembrava um ônix polido. Vestia um qipao branco, de seda fina, do mesmo tom de seus cabelos.

Como um gato assustado, Liuxian saltou para trás. Seu braço estava dormente e formigava, sentia a ponta dos dedos se moverem involuntariamente, como se não lhe pertencessem.

— Bruxa, o que você fez? — gritou, enquanto recuperava lentamente a sensibilidade e o controle muscular.

— Você ainda não está pronto para abrir os olhos para a verdade… — Ela lambeu o lábio superior. — Talvez eu possa ajudar.

Ela saltou contra a parede, e a usou como apoio para ganhar impulso. Em seguida, lançou-se contra Liuxian com o punho fechado.

Por reflexo, ele cruzou os braços diante do peito, preparando-se para receber o golpe. A mulher desviou o punho no último instante e acertou o chão, logo abaixo dos pés de Liuxian.

A onda de impacto atravessou o solo e abriu uma cratera que os jogou para o andar debaixo. Em uma acrobacia impressionante, Liuxian teve agilidade para rolar pelo chão e se levantar quase no mesmo instante.

A poeira o fez tossir; ele mal conseguia enxergar um palmo à sua frente.

— Onde você está? Verme maldito! Víbora das profundezas! — praguejou, seguido por uma tosse quase interminável.

A resposta dela foi rápida.

Um tapa na horizontal deixou Liuxian zonzo. Por um segundo, tudo girou. Ele cambaleou para trás e tropeçou em uma viga de madeira caída.

Caiu de costas no chão.

— Verme! — repetiu, enquanto se levantava.

Escutava uma risada baixa, que parecia vir sempre de suas costas.

Virou-se no momento exato no qual a mandíbula do réptil se projetou para a frente, pronta para abocanhar seu braço. Conseguiu desviar ao abaixar-se e rolar para o lado.

— Um pouco lento… — disse a serpente branca, mantendo os olhos vermelhos fixos em Liuxian.

Ela era gigantesca e continuava a aumentar de tamanho. Em poucos instantes, ocupava toda a sala. Investida após investida, com botes cada vez mais rápidos, a serpente forçava o rapaz a saltar constantemente para trás, se quisesse escapar.

O que estava acontecendo?

Esse era o único pensamento que ocupava a mente já cansada de Liuxian. Em um momento, uma mulher estranha havia surgido diante dele; no seguinte, uma cobra tentava devorá-lo. Nada daquilo fazia o menor sentido.

Então, sentiu uma enorme pressão de Qi acima dele e, por um momento, teve esperança.

Só podiam ser eles. Os reforços haviam chegado.

A princípio, aquilo se manifestou como uma intenção sutil, poderosa, porém ainda desprovida de malícia. Mas, pouco a pouco, a sensação mudou. A intenção transformou-se na mais pura e aterradora intenção assassina.

Congelado, incapaz de se mover, tamanho era o medo causado. Liuxian apenas assistiu à cobra diminuir de tamanho e desaparecer no meio dos escombros.

Até respirar se tornou difícil, suas pernas começaram a tremer, e ele caiu de joelhos no chão, a cabeça abaixada.

Virou a cabeça, embora seu instinto falasse para ele não olhar.

Mei flutuava no ar com a graça de uma deusa. A mão esquerda estava estendida, e sobre sua palma uma pérola azulada girava lentamente. O objeto emanava uma aura azul que envolvia todo o seu braço esquerdo. Ao redor de seu pescoço, uma pequena serpente de coloração branca acabava de se enrolar. Na mão direita, a espada brilhava, envolta por uma camada de Qi amarelado.

— Você vê? — questionou Lefkó, apoiada sobre o pescoço de Mei.

— Vejo — respondeu a garota, em uma voz calma e serena.

Ela se aproximou de Liuxian, a espada apontada diretamente para sua garganta. Prendeu a respiração, forçou sua mente a encontrar seu devido lugar e mantê-la sob controle.

— Vocês tiraram tudo de mim…

Liuxian não respondeu. Mal conseguia abrir a boca.

— Não faço isso por vingança. Não posso me deixar consumir por ela. Apenas clamo por justiça.

Mei ergueu lentamente a espada e preparou-se para o golpe de misericórdia.

No último instante, Liuxian conseguiu se mover e atacou Mei.

— Morra! — bradou ele, ao lançar a mão contra o fio da lâmina. A gosma negra imediatamente se moldou ao redor da espada, ao envolver o Qi amarelado. Um brilho de confiança surgiu no rosto de Liuxian.

Durou pouco.

Mei forçou a mão para frente.

O Qi amarelado irradiou por seu braço e envolveu a substância negra. Por um instante, as duas energias permaneceram em equilíbrio. Então, a gosma começou a se desfazer.

Liuxian caiu para trás.

Seu braço inteiro ardia. A dor percorria os músculos até o ombro, enquanto os dedos tremiam involuntariamente.

— Segundo Reino… — murmurou Mei.

Ela girou lentamente a palma da mão direita ao observar e experienciar, maravilhada, o comportamento do Qi que fluía por seu corpo.

A pérola azul em sua mão esquerda era extraordinária. A energia espiritual que emanava dela era tão limpa, tão pura. Circulava por todo o corpo de Mei, inundava seus meridianos e, pouco a pouco, condensava-se ao redor de seu dantian.

Primeira camada do Segundo Reino.

Essa era a força que Mei possuía naquele momento.

Ela acabara de romper a vigésima camada do Primeiro Reino e alcançara o Estabelecimento da Fundação, o primeiro passo para a formação de um núcleo capaz de sustentar uma futura Alma Nascente.

Ainda assim, havia algo anormal.

Sua pressão espiritual não correspondia ao seu nível de cultivo.

A força com que sua energia fluía pelo ambiente, a maneira como sua presença se espalhava pelo ar e, sobretudo, a vontade implícita contida em seu Qi exerciam sobre Liuxian uma pressão tão forte, capaz de ser comparada à de um cultivador da vigésima camada do Segundo Reino.

Liuxian olhou para Mei, incapaz de se mover. Em seguida, seu olhar desceu lentamente até o fio da Liuyedao. A espada parecia possuir vontade própria. Havia uma intenção assassina emanando da lâmina, tão nítida que Liuxian teve a perturbadora sensação de que ela desejava cortar seu pescoço.

Não.

Era algo ainda pior. Por um breve instante, sentiu como se o corte já tivesse acontecido.

Na verdade…

Já tinha…

Tudo girou para Liuxian, e ele teve poucos instantes para pensar em qualquer forma de arrependimento antes de fechar os olhos pela última vez.