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Capítulo XLV (45) – Segundo Sol

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Capítulo XLV (45) – Segundo Sol

Dispersei a névoa que cobria meu corpo. Já começava a sentir uma exaustão profunda; minha mente ficava um tanto turva e desligada. Havia mais cadáveres no chão do que eu conseguia contar. A torre à minha frente estava com vários telhados destruídos, e um pequeno incêndio havia começado no andar superior.

Aproximei-me da escadaria. Escutei passos pesados lá do alto, e, ao me aproximar, a porta foi arremessada para o alto e passou por cima de mim. Olhei para cima; no topo dos degraus, uma mulher de pele de ônix e cabelos brancos carregava Mei nos ombros de uma maneira que estava longe de ser cuidadosa.

— E então, ela está bem? — questionei, ao cobrir o rosto com a mão direita para não ver a barbaridade que ela fazia com a pobre garota.

— Desmaiou — respondeu Lefkó, enquanto ajeitava Mei para colocá-la nas costas.

— Vamos sair daqui logo…

Girei o corpo e comecei a caminhar de volta para onde estava o bote encalhado.

— O que você acha? — Ela desceu as escadas e parou ao meu lado, no fim da escadaria. — Você escutou o que Jiahao disse, não?

Sim, eu havia escutado.

Lefkó e eu possuíamos um vínculo mental. Conseguíamos ver e ouvir tudo aquilo que o outro via e escutava. No começo, minha mente doía por ter de lidar com os estímulos dobrados, mas, depois de dez anos, aquilo havia se tornado tão natural quanto andar.

— Deixe a garota decidir se ela quer ir conosco ou não — falei, ao levantar os olhos para o céu; uma nova tempestade se formava.

Eu caminhava com dificuldade. Minha cabeça começava a doer devido ao esforço de manter três habilidades ativas ao mesmo tempo, embora já tivesse desativado a carta da “Morte”.

— Thomas, o que vamos fazer? — Lefkó avançou alguns passos para conseguir acompanhar meu ritmo.

— Mar do Dragão. Devemos nos encontrar com o restante do grupo lá.

— Você não quer descansar um pouco?

Havia algo escondido por trás de sua preocupação. Entretanto, eu ainda não conseguia discernir o quê.

— Lefkó, olhe para nós. O que acabamos de fazer aqui. Acha mesmo que isso vai ficar assim? Não quero mais problemas aqui. Embarcamos, deixamos esta cidade e seguimos para a segunda parte da nossa jornada. — Estiquei os braços formigantes enquanto falava e andava.

— E você? Acha que já aprendeu o bastante?

Uma semana de estudos com pergaminhos antigos e vários outros livros dos Wen Qishu já havia me deixado razoavelmente familiarizado com o cultivo daquele mundo. Ainda havia muitos conceitos que eu desconhecia, mas aquilo deveria ser suficiente para o restante da minha jornada.

— O necessário — respondi rápido. Coloquei as mãos nos bolsos e deixei-me fechar os olhos por um instante.

— Você sente culpa? — Ela fez um círculo com a ponta do dedo indicador no ar.

Dessa vez, eu não tinha dúvidas. Lefkó queria alguma coisa. Havia intenções ocultas por trás de seus questionamentos.

— Não sinto. Por que deveria?

Prendi a respiração por um instante, reflexivo.

No fundo, eu sabia que, se não fosse pela minha intromissão nos assuntos dos Wen Qishu, na tentativa de aprender um pouco mais sobre aquele mundo, Jiahao e sua família provavelmente ainda estariam vivos. Provavelmente, Lingxin teria morrido no duelo e, no fim, Mei teria se casado com Renyan, como havia sido prometido anteriormente.

Olhei para Mei. Seus olhos castanhos permaneciam fechados, e sua respiração era entrecortada. Os cabelos negros balançavam suavemente conforme Lefkó caminhava.

Era isso que Jiahao realmente queria antes da minha chegada?

Que sua sobrinha se casasse com Hua Yuling Renyan?

Pelo pouco que havia conhecido de Jiahao, ele parecia possuir uma boa índole e realmente se preocupava com Mei. E já Renyan, bem, o garoto claramente não era mau, seu comportamento de tentar lutar contra mim dizia isso, mas era um tanto mimado e arrogante. Não me arrependo do que fiz com ele, nem com ninguém da sua seita.

— Fizemos nossa parte. Pagamos nossa dívida de hospitalidade para com os Wen Qishu… — disse a Lefkó, ao lançar um último sorriso cabisbaixo na direção de Mei.

Entrei no barco.

— Volte à sua primeira forma, antes que o conselho me dê uma bronca — ordenei para ela, ao empurrar o bote para a água, e usar a névoa negra para conseguir navegar contra a maré.

— Qual o problema? — indagou, ao deitar Mei desacordada no bote.

— Você sabe qual é o problema. — Cocei a testa, um tanto irritado.

— E uma cobra falante não chama mais atenção?

— Se você não fosse uma estúpida com sua forma humana. — Já tinha tido aquela conversa uma centena de vezes, e não queria escutar mais uma vez.

Sem discutir mais, Lefkó mudou sua aparência. Seu corpo comprido e claro deslizou pelo meu braço e, depois, enrolou-se ao redor do meu pescoço, e escondeu a cabeça sob a gola do meu casaco.

A correnteza estava a nosso favor. Eu ainda tinha um pouco mais de tempo antes de desmaiar. Meu limite de dez minutos havia aumentado para cerca de quinze, já que a desativação da carta da Morte diminuía o meu cansaço.

Depois de nos afastarmos o suficiente da ilha, eu fixei meu olhar para o horizonte, para a pequena massa de terra a distância. A ilha brilhava com os incêndios, enquanto os poucos sobreviventes ainda se esforçam para apagar as chamas.

Acariciei a cabeça de Lefkó, enquanto esperava que Issac desse a ordem no Degredado .

Então, finalmente, eles dispararam o canhão.

Primeiro, veio a luz.

A noite se fez dia.

Um clarão tão forte que quase me cegou.

Coloquei as mãos diante dos olhos, mas não pude deixar de olhar.

— Segundo Sol… — murmurou Lefkó de dentro do meu casaco, antes de se esconder ainda mais fundo.

Tampei os ouvidos com as mãos e cobri o bote com a névoa negra.

Senti a vibração no ar antes de sermos lançados pela onda de choque.

Quando desfiz a proteção, observei, a distância, o cogumelo alaranjado e a nuvem de poeira que agora cobria a ilha.

— Está feito… — falei, ao desfazer o poder das cartas do Louco e da Carruagem.

Meu corpo voltou ao seu estado natural, e a névoa negra que antes nos ajudava se dissipou. Para minha grande sorte, eu havia usado o poder de três cartas simultaneamente e não havia desmaiado.

Exausto, deitei-me no banco. Olhei para cima, para o céu agora limpo pela passagem da onda de choque.

— E agora? — Lefkó saiu do seu esconderijo e se aconchegou ao redor do meu pescoço.

— O de sempre. — Me levantei, e me preparei para começar a remar. — Continuar nossa missão.

Bem, essa era a minha programação. Voltar ao continente, viajar até o Mar do Dragão, e continuar minha missão.

Era, no passado.

Mas em menos de um minuto, tudo iria mudar.

Começou com um rugido baixo, um sussurro no horizonte. Que se transformou em gritos de lamentos e agonia, como uma criatura machucada.

A água começou a brilhar em tons azulados, quase iridescente.

— Thomas… — Lefkó, apertou meu pescoço, para me forçar a levantar e olhar.

Observei a nuvem em formato de cogumelo que ainda se dispersava no ar. Tinha algo dentro dela.

Algo gigantesco.

Tão enorme, cuja silhueta se contorcia no interior da fumaça, e a iluminava por dentro. A cada poucos segundos, um clarão atravessava a nuvem, como se relâmpagos nascessem em seu interior. Parecia absorver a nuvem causada pela explosão, e aumentava enquanto esta diminuía.

— Thomas… — Lefkó repetiu.

— Eu já vi.

Eu estava admirado com aquela visão. Apesar de tudo, era muito bela e magnífica.

— Lembra que Wen Qishu Jiahao disse que a ilha dos Hua Yuling foi escolhida por ter intensas propriedades espirituais?

— Não muito…

— Acho que acordamos o que estava embaixo dela.

Antes que eu pudesse responder, alguma coisa se moveu dentro da nuvem.

Uma cabeça surgiu lentamente da fumaça.

Era colossal.

A criatura possuía um crânio alongado, semelhante ao de uma serpente, mas largo demais para pertencer a qualquer animal comum. Sua pele era coberta por escamas negras e azul-escuras, tão lisas que refletiam a luz como metal molhado. Entre as escamas, linhas azuladas pulsavam como brasas sob a pele.

Havia mais olhos do que eu era capaz de contar. Variavam em tamanho, alguns eram grandes, outros pequenos, alguns dispostos em fileiras irregulares, outros espalhados pelas laterais do crânio. Todos brilhavam com uma luz azul-pálida e se moviam de maneira independente, como se estivessem em busca de alguma coisa, ou alguém, no horizonte.

A boca se abriu.

E continuou a abrir e se alongar.

A mandíbula inferior descia muito além do que deveria ser possível para uma criatura daquele formato. Observei as fileiras e mais fileiras de dentes longos, maiores que um homem, finos e curvados para dentro.

Não demorei muito para reconhecer o que era aquilo. A visão não me dava medo, o que me deixava mais amedrontado era saber o que uma dessas criaturas fazia em Daolong.

— Calamidade. — Lefkó disse o que estava na ponta da minha língua.